Crónicas do Olheirão
Tendo concorrido às eleições de dia 29 de setembro não posso deixar de fazer um comentário sobre o nosso resultado e, já agora, também sobre o dos outros partidos. 
A candidatura do Bloco de Esquerda, em que participei, teve uma votação melhor do que em anos anteriores mas abaixo do que desejávamos.
A coligação PSD/CDS teve uma grande votação, muito provavelmente Oliveira de Frades tem o Presidente de Câmara eleito com maior percentagem de votos em todo o país, mas ainda assim com menos votos do que o PSD tinha obtido sozinho as últimas eleições.
Reconheça-se que, apesar de não haver dúvidas sobre o resultado final, o PSD se empenhou na campanha como se houvesse o risco de perder por um voto.
O PS, embora mantendo o mesmo número de eleitos na Câmara e na Assembleia Municipal, perdeu mais de um terço dos votos que havia tido há quatro anos.
Os resultados da CDU e do BE estão em linha com a tradição e a implantação desses partidos. Contudo, as votações do PSD e do PS seguiram tendências totalmente inversas o que aconteceu na generalidade do país, o que é mérito do PSD e demérito do PS locais.
Os dados destas eleições contêm dois elementos de preocupação.
A abstenção que significa que foram votar menos, praticamente, 1000 pessoas tendo sido mais forte nas mesas de votos onde há maior peso dos eleitores mais jovens.
As razões da abstenção podem ser muitas, desde logo as pessoas que não se interessam pelas eleições, outras pessoas pensarão que o voto delas não tem peso para o resultado mas também há pessoas que não votam por protesto ou porque se recusarem a participar no sistema.
Os votos nulos e os votos brancos foram mais do que os votos na CDU e no BE somados, traduzindo um crescimento dos votos brancos e nulos traduzem um descontentamento que os partidos não conseguiram mobilizar.
Esta minha aventura, como cabeça de uma lista, permitiu-me ter mais consciência das debilidades do sistema partidário.
Uma dessas debilidades resulta do deficiente funcionamento dos partidos políticos, que de modo geral cumprem mal a sua missão constitucional de organizações responsáveis pela representação política dos cidadãos, a qual lhe confere direitos que mais nenhuma organização pode ter.
Os grandes partidos estão demasiado focados na gestão do poder, seja nível local ou nacional e os pequenos, como o BE, não têm estruturas locais tornando-se assim muito difícil preparar e lançar candidaturas fortes.
Seria importante para a democracia que o BE e a CDU conseguissem ter núcleos locais com capacidade de organização, que lhes permitisse no futuro aspirar a estar representados nos órgãos de poder local.
Do lado do PS e do PSD as suas estruturas funcionam, quase exclusivamente, em função dos objetivos de conquista e manutenção do poder, tornando-se ativas para as eleições mas invernando mal elas acabam, não funcionado, na verdade, como organizações representativas dos cidadãos.
As candidaturas independentes que aconteceram, sobretudo nos grandes concelhos, estão muito relacionadas com a deficiente democracia interna dos partidos.
Um dos desafios que se coloca a todos os cidadãos mas particularmente àqueles que se interessam pela política é a procura de mecanismos que permitam aos cidadãos sentir que a sua opinião ou seu voto são importantes para a vida coletiva.
Este esforço deverá partir de dentro dos próprios partidos pois, embora sejam organizações com muitos defeitos, são, por enquanto, insubstituíveis no nosso sistema político.
Mário Pereira
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