Crónicas do Olheirão por Mário Pereira
Essenciais mas invisíveis

A crise da COVID em Odemira trouxe para as notícias a exploração de trabalhadores estrangeiros na agricultura intensiva de que, estranhamente, ninguém falava.
Alguns de nós terão pais ou avós que iam trabalhar às temporadas para o Alentejo, mas como nas nossas aldeias, em vez de sobrar, falta gente, os novos trabalhadores chegam de países onde há muitas pessoas e poucas oportunidades.
O concelho de Odemira terá cerca e de 20 000 residentes e 10 000 migrantes que ninguém via.
Só agora, e devido à COVID, o governo reparou neles, mas também, só agora, os partidos da oposição, incluindo os de esquerda, os viram e até o presidente da câmara de Odemira, só agora, parece ter dado conta que eles vivem no seu concelho.
Igualmente, é estranho que este crime de exploração de pessoas tenha passado despercebido aos jornalistas e aos programas de televisão que se dedicam ao crime. Aposto que entre os donos das estufas, que usam estes trabalhadores, há pessoas de bem que nunca na vida cometeriam um crime e, certamente, algumas terão votado no Chega, porque é contra os imigrantes.
Acontece que para não cometerem os crimes, diretamente, pagam a angariadores para o fazerem. É um pouco como quem compra coisas roubadas e finge ignorar. Só que aqui o que é roubado é a dignidade de pessoas.
O clamor que se levantou nos últimos dias é um coro de hipócritas, pois se não sabiam é porque fechavam os olhos e os ouvidos.
O problema da exploração de trabalhadores migrantes nos trabalhos agrícolas, é um problema generalizado na Europa. Nos Países Baixos, onde estes trabalhos são, sobretudo, feitos por trabalhadores polacos e de outros países do leste, há estufas que construíram aldeamentos onde estes trabalhadores vivem completamente isolados das comunidades locais.
A marginalização destes trabalhadores, absolutamente indispensáveis, é irracional e resulta do populismo contra os imigrantes, mas também é útil porque torna a sua exploração mais aceitável por cada um de nós.
É bom comprar legumes e frutos baratos, mas isso só é possível porque são cultivados com recurso a mão-de-obra explorada com a cobertura do estado e de toda a sociedade.
Todos sabemos isso, mas preferimos não ver, não ouvir e não ler, porque como canta Francisco Fanhais se “vemos, ouvimos e lemos não podemos ignorar” e isso dói.
13/05/2021

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