EDITORIAL 805
“Uma casa para palheiro”

Vivemos num país com enormes carências de recursos, em que frequentemente o argumento de que “não há dinheiro” serve para que sejam recusados investimentos necessários, apoios sociais elementares ou atualizações salariais básicas.
Quem vive no interior do País, em regiões que perdem músculo económico e demográfico porque, salvo raras exceções, não há investimento para a criação de postos de trabalho qualificados, encerram serviços públicos, estações dos CTT e até dependências da CGD ou em que continuam a ser pagas portagens que agravam os custos da interioridade, conhece bem essa espécie de “mantra” de que nunca há dinheiro para o que é preciso.
Ao ouvir as recentes audições parlamentares sobre o Novo Banco só podemos ficar estupefactos. Não tanto pelas crises de amnésia que os inquiridos demonstram com demasiada frequência, a essas já só reagimos com indignação, mas porque chegamos à conclusão de que afinal há muito dinheiro e, com incrível facilidade, uma certa “elite do capital empresarial” consegue chegar-lhe e transformá-lo em calotes monumentais de milhões e nada parece acontecer-lhes.
Melhor dito, de facto acontece, mas não aos próprios. É a todos nós que acontece, simples contribuintes que na maior parte vive do seu trabalho e com parcos rendimentos, que acabamos por ser obrigados a assumir esses calotes, através das entregas do Fundo de Resolução bancário que vão salvando bancos à custa dos impostos que pagamos, em vez de se destinarem aos que mais precisam, aos serviços públicos de maior necessidade e às regiões que reclamam por equidade e justiça no desenvolvimento.
Nas três últimas audições da comissão parlamentar foram ouvidos Moniz da Maia, Gama Leão e Filipe Vieira, que somam bem mais de mil milhões de euros em dívidas ao Novo Banco, ex-BES. Nada lhes vai acontecer. Um deles até tinha declarado para o Banco de Portugal apenas ter como património “uma casa para palheiro” e referiu que “nunca entrou em incumprimento” bancário. Faltou dizer que o banco nunca lhe executou as dívidas nem nunca lhe pediu o levantamento real do seu património.
Conhecemos casos de pequenas dívidas bancárias que os mutuários, às vezes pequenos empresários que, por dificuldades surgidas, pedem reestruturação da dívida. Raramente lhes é concedida, são ameaçados com a execução da dívida, aumento de juros e tratados com arrogância e prepotência. Pois a esta “elite do capital empresarial” são concedidos financiamentos estratosféricos com a simples promessa de os ativos em que dizem ir investir serem suficientemente rentáveis. É a cultura da impunidade e do facilitismo para alguns, do compadrio que junta uma certa “elite”, e a dura imagem de um país social e territorialmente desigual, profundamente injusto, que não podemos deixar de democraticamente combater.

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