António Bica

O Moço de Recados e as Três Donzelas (conclusão) e começo da história da Jovem Esquartejada

O Moço de Recados e as Três Donzelas (conclusão) e começo da história da Jovem Esquartejada

Rainha Xerazade pintada no século XIX por Sophie Anderson

Quando a lua, no quarto minguante, passara o meio do céu e o luar entrou pela janela, Xerazade proseguiu:

O califa, depois de ouvir Amina, disse para Zobeida: « Vejo que não te agrada castigar as tuas irmãs transformadas em cadelas. Porque não pedes ao génio benfazejo que te liberte do encargo de as castigar?»

Disse Zobeida: «Bem gostaria. E, mais do que isso, que elas voltassem à forma humana, mas não sei como fazer aparecer o génio que tem esse poder».

Sugeriu o califa: «Sendo génio benfazejo, agradar-lhe-á o perfume das madeiras odoríferas. Fá-las-emos arder e invocá-lo-ás». Mandou trazer madeira de sândalo, de teca e de pau rosa e queimá-las em braseira de prata sobre estrado de pau preto. Quando a chama avivou e a sala se perfumou, Zobeida invocou o génio, que  apareceu sob a forma de bela jovem.

Saudou os presentes e disse:« Sei que queres que as tuas irmãs voltem à forma humana. Assim farei e desobrigo-te de as castigar como até agora devias fazer». Fez gestos mágicos e logo as  cadelas voltaram à forma primitiva. Agradeceram as irmãs ao génio e prometeram a Zobeida e ao califa desterrar para sempre do peito a inveja e o mal-querer.

As cinco irmãs voltaram a viver juntas e cada uma assegurou que não se casaria. O califa mandou os escribas passar a escrito as histórias do moço de recados, das três jovens que os convivas tinham por donzelas e dos peregrinos para memória de todos e exemplo para as gerações futuras.

 

A história da Jovem Esquartejada

Na noite que se seguiu o califa chamou o vizir e o alferes-mor e disse-lhes:

« Vamos de novo, disfarçados de mercadores, percorrer Bagdade. Assim verei com os meus olhos o que vai mal e precisa de correcção, que o que me dizem tem quase sempre por trás o interesse de quem fala».

Disfarçaram-se e desceram à cidade. Ao passar por uma rua ouviram um velho cantar, lamentando-se:

«Triste é ser velho e pobre./ As forças abandonaram-me, / já não ganho o pão que como; / para os filhos sou estorvo, / que como o pão que não sobra/ prá boca dos filhos deles./ Peço à morte que se apresse, / que só a fé me impede/ de fazer o seu trabalho.»

O califa, ao ouvir o lamento, interpelou o velho: « Qual é o teu ofício?» Respondeu:« Sou pescador, mas as forças são poucas e impedem-me de lançar ao largo as redes. Assim nada pesco». O califa, para que ao menos nesse dia o seu trabalho fosse recompensado, propôs-lhe:« Se lançares as redes para mim, pago-te uma moeda de ouro, mesmo que junto à margem e nada pesques». O pescador agradeceu, foi buscar rede de tarrafa e lançou-a, com grande arte, às águas do Tigre, que banha Bagdade. Puxou a rede, mas não deixava o fundo. Com a ajuda do vizir e do alferes-mor tiraram-na. Dentro vinha uma caixa de madeira. O califa pagou ao pescador e mandou abrir a caixa. Encontrou o cadáver de uma jovem mulher esquartejada embrulhado num tapete. Ao vê-lo o califa encheu-se de cólera e disse para o vizir e o alferes-mor: « Dentro de três dias deveis trazer-me  o autor deste crime para ser castigado como merece». Ambos conferenciaram e procuraram supôr os passos do assassino. Chegaram à conclusão de que, sendo a caixa pesada  e procurando certamente não ser visto a transportá-la, viveria perto do local onde fora encontrada. Pelo estado do cadáver viram que o homicídio era recente. Ordenaram à polícia que corresse  as casas num raio de quinhentos passos e inquirisse por tudo o que pudesse revelar o autor de tão terrível crime.

No terceiro dia   havia dois suspeitos, um homem novo e um velho, ambos mercadores abastados, cada um dizendo que fora ele o autor da morte e não o outro. O califa mandou  ao jovem que contasse como matara a mulher esquartejada. Ele começou:

« Este ancião que se acusa do crime que não cometeu é meu sogro e tio e deu-me a filha em casamento. Tivemos três filhos, que são pequenos, e vivemos em harmonia. Um dia a minha mulher adoeceu. Os médicos não foram capazes de a curar e eu desesperava de lhe restituir a saúde. As suas forças foram diminuindo, porque, por não ter apetite, não se alimentava. Um dia insisti para que me dissesse o que gostaria de comer, por mais raro que fosse, que lho traria, para que vivesse. Disse: “ Comeria uma maçã”. Estamos em Abril e não há já maçãs, mesmo as de inverno, que se conservam em palha e nos sítios frescos. Ouvi dizer que em Pasárgada, nos vossos pomares, encontraria maçãs. Fiz a viagem a cavalo, roguei ao guarda dos pomares e ele, por compaixão, deu-me três maçãs perfumadas. Trouxe-as e dei-as à minha mulher, que estava tão fraca, que já não pôde comer nenhuma. Fui ao meu trabalho e, quando regressei, vi um jovem saltimbanco com uma maçã igual às que trouxera de Pasárgada na mão. Perguntei-lhe onde fora buscar a maçã. Respondeu: “ Deu-ma a mulher que me quer bem”. Quando cheguei a casa, vi que a minha mulher só tinha duas maçãs. Perguntei pela outra e ela, quase sem poder falar, disse que não sabia. Fiquei cego de ciúme e estrangulei-a. Depois cortei-a em pedaços, envolvi-a no tapete e fui lançá-la ao rio Tigre. Pouco depois chegou o meu filho, que não tem mais de sete anos, a chorar: “Um saltimbanco tirou-me a maçã que levei de junto da minha mãe sem ela saber. Pedi-lhe que ma devolvesse e, para o convencer, disse-lhe donde vieram as maçãs e por que razão, mas ele, rindo, foi-se embora”.

Percebi então o erro sem perdão e chorei amargamente. Procurei o meu sogro e contei-lhe a desgraça. Disse: “Assumirei por ti a morte da tua mulher e minha filha, que poucos anos tenho para viver. Tu deves criar os teus filhos e meus netos como eles merecem”. Recusei-me a aceitar. Devo responder pelo erro de ceder ao ciúme e à raiva que só a inteligência das coisas é seguro contra o erro nefasto».

A manhã despontava e Xerazade calou-se, deixando o rei Xavier ir aos seus deveres.

29/04/2021


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