Francisco de Almeida Dias*

Rubrica Portugal é mátria

Margarida de Abreu num carvão de Eduardo Malta, 1946

O retrato a carvão de Eduardo Malta, de 1946, retrata-a com um sorriso gentil e uma farta mole de cabelo montada à moda da época, em estilo Evita, uma beleza delicada que dispensa o espalhafato das joias ou da vestimenta. Era o que competia, pelo menos imaginário comum, a quem, nesse primeiríssimo pós-guerra, redescobria com toda a força a própria feminilidade, com ela retomando o seu lugar na sociedade (só aparentemente decorativo) ao lado do homem.

Fora também Malta quem desenhara, dois anos antes, a estilizada forma de uma bailarina no logotipo do Círculo de Iniciação Coreográfica, que ela formava então, com o fito de divulgar o bailado clássico. No ano do retrato, haveria de publicar o seu Manifesto, em que teoriza sobre a dança e sobre a sua instrução. Sendo uma artista, Margarida de Abreu era também – e talvez o fosse sobretudo – uma educadora, a precursora do ensino da dança em Portugal, por cujas aulas passaram gerações e gerações de aspirantes a dançarinos, para além de autora de coreografias e ballets, que ajudaram a dar forma à estreitíssima história da dança teatral neste país, na primeira metade do século XX.

No delicioso e bastante saudosista programa televisivo “Que é feito de si”, que a RTP pôs em onda a 17 de maio de 1991 (e hoje disponível em linha https://arquivos.rtp.pt/conteudos/o-que-e-feito-de-si-margarida-de-abreu/) é uma veneranda senhora de 76 anos, com os mesmos cabelos armados com que a retratara Malta quase cinquenta anos antes, com o mesmo sorriso gentil e com um espírito notável, entronizada frente a uma estante, como que legitimadora de uma erudição livresca, de onde desponta o busto do marido, o escultor João Salomão de Oliveira: «Sempre gostei de trabalhar, desde muito jovem, e continuo com o mesmo entusiasmo. Todos os dias vou ao meu estúdio, onde tenho aulas (…) Eu adoro: gosto mais de lá estar, do que noutro sítio qualquer.»

Margarida Hoffmann de Barros Abreu, nascida em Lisboa a 26 de novembro de 1915, de mãe suíça e pai beirão, com origens em Avô (Oliveira do Hospital), cedo descobriu a sua ligação à expressão corporal e à dança – que inicia, em simultâneo com a frequência do Colégio Alemão e ainda pré-adolescente – através da formação Eurítmica, a técnica desenvolvida pelo compositor e pedagogo suíço Émile Jaques-Dalcroze a partir de 1910, consistindo num inovador método de ensinar e percecionar a música através do movimento.

Tem 17 anos quando chega a Genebra e inicia a frequentar no nº 44 da rue de la Terrassière o Instituto dalcrozeano, aí completando a sua formação em cinco anos. Seguem-se estadias na Alemanha, para frequentar a Deutsche Tanz Schule, na Áustria, onde passou pela Hellerau Laxemburg Schule e ainda em Inglaterra, estagiando um ano na Sadler’s Wells (atual Royal Ballet School) para a prossecução e aprofundamento dos estudos na área da dança. Tinha-se-lhe manifestado no entretanto uma ciatalgia que, interferindo com a sensibilidade e controlo dos músculos dos membros, comprometia a sua carreira artística como bailarina. Tornar-se-ia, por isso, uma mestra.

Regressa a Portugal em 1939, depois desse longo périplo de formação pela Europa: tinha as competências necessárias para ocupar o lugar de destaque, o que, desde logo, veio a acontecer. Virá a ser professora de Dança do Curso de Teatro do Conservatório Nacional durante quase meio século, até se reformar em 1986, tendo sido mestra de alguns atores que se haveriam de notabilizar mais tarde, como Mariana Rey-Monteiro, João d’Ávila e Catarina Avelar. Forma pouco depois, o Círculo de Iniciação Coreográfica (que irá dirigir durante catorze anos, quando lhe sucedem os Bailados Margarida de Abreu, em 1960) e mantém o ensino particular no seu estúdio da Rua Castilho.

1960 será também o ano em que, conjuntamente com Fernando Lima, seu antigo aluno, é convidada a dirigir o Verde-Gaio, imaginado vinte anos antes por António Ferro, na direção do Sindicato de Propaganda Nacional, à semelhança dos míticos Ballets Russes de Diaghilev, que conhecera em Paris e de uma passagem breve por Lisboa em 1917. O grupo de bailados inspirados em temas portugueses, que estilizara o folclore nacional, dentro do quadro dessa “Política do Espírito” de Ferro, requeria a urgente remodelação que Dona Margarida (como por todos era tratada) aí operou nos dezoito anos seguintes, no sentido da introdução das técnicas classicista e expressionista, e contando com a constante colaboração do compositor Jaime Silva, Filho e do pintor Abílio Mattos e Silva na direção de cena, cenários e figurinos.

Integrará ainda, de 1964 a 1972, o Centro de Estudos de Bailado do Instituto de Alta Cultura (conhecido como “Escola de Bailado do São Carlos”, um dos vários palcos onde se produziram as suas obras de coreografia). A sua longa carreira – a que não faltou a colaboração cinematográfica com Manoel de Oliveira (Amor de Perdição, Francisca e Os Canibais) e António-Pedro Vasconcelos (Aqui D’El Rei!) foi reconhecida com diversas condecorações a partir de 1979, ano em que é feita Comendadora da Ordem de Instrução Pública e recebe o troféu da Casa da Imprensa pelos 40 anos de vida artística. Margarida de Abreu faleceu em 2006 e 11 anos depois, pelo centenário do seu nascimento, os CTT lançaram um selo inserido na coleção “Pioneiros da Dança em Portugal” em sua recordação.

De um álbum de família surge uma fotografia, na escada externa do belíssimo Paço das Quintãs, em Serrazes, morada de Dona Eugénia Malafaia, e na enumeração do meu pai, aparecem entre os retratados os avós com os donos da casa e alguns amigos de família e, de repente, no meio do grupo, Margarida de Abreu. Margarida de Abreu? Mas a coreógrafa esteve alguma vez em São Pedro do Sul? Sim: era o verão de 1952 e traziam-na aqui os problemas ligados àquela mesma ciática que a tinha feito depois da formação em Genebra, em Berlim, em Viena, abdicar de uma carreira artística e dedicar-se ao ensino da dança. No salão de baile do então ainda Palácio Hotel, que daí a pouco havia de se transformar na Colónia de Férias da Federação Nacional para a Alegria no Trabalho (antecessora da atual INATEL), ficaram célebres nesse agosto os pasodobles e tangos com que extasiava os demais aquistas, dançados sobre o reluzente parquet, nos braços de outra celebridade, então de passagem pelas Termas: o toureiro Diamantino Viseu, à época no auge da sua carreira tauromáquica, um verdadeiro ídolo popular.

Para o futuro, mais que a frágil memória que é a das artes de palco (por ventura tão volátil como a recordação de uma infância alheia e longínqua, através de um casual álbum de família), fica essa magistral lição do seu Manifesto, que a Bertrand editou em 1946: a dança como a «plástica da atitude, expressão da máscara, harmonia do movimento, contraponto do gesto, sugestão do ambiente» e o bailado, a «associação íntima e quase orquestral de dança, música, espírito e decoração».

*Francisco de Almeida Dias, Ph.D. (1980)

é doutorado em Literaturas Comparadas pela Università
degli Studi Roma Tre

15/04/2021


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