Carlos Ferreira Pereira*
Porque somos interior

Por interior entendemos subdesenvolvimento, falta grave de acessibilidades não só rodoviárias, mas às redes digitais, á cultura, á saúde. Este entendimento de interior é muito português, imaginem dizer a um espanhol ou a um francês que Madrid ou Paris ficam no interior.
Desde 1984, Portugal teve a solidariedade da União Europeia, as verbas no âmbito da política comunitária, tinham como objetivo principal promover a coesão social e económica dos estados-membros, combatendo, desta forma, as assimetrias regionais neles existentes. Nove milhões de euros por dia entraram no nosso país, até 2020. Foi sem dúvida, um enorme desafio para quem teve a responsabilidade de os gerir.
Trinta e seis anos volvidos, a conclusão é a de que infelizmente o Projeto para um Portugal mais equilibrado, mais coeso e socialmente mais justo se revelou um verdadeiro fracasso.
Ao contrário da capital da europa, solidaria, e consciente das dificuldades dos estados, Lisboa é bem mais egoísta, e incapaz de ser solidaria com as regiões.
Em Lisboa constroem-se centros culturais de milhões, enquanto as cidades do interior, não têm um pequeno teatro, no Litoral temos por vezes 3 autoestradas a pouca distancia, enquanto a ligação entre São Pedro do Sul e Viseu data de 1930, e a IP3 é um eterno estaleiro de obras, a cobertura das redes digitais nos concelhos montanhosos é quase inexistente, grande parte do território nem se quer está cadastrado, vasto território com grandes potencialidades de produzir riqueza para o País é terra de ninguém ou dos fogos de que toda a gente fala no verão.
Lisboa não consegue ver para lá de Vila Franca de Xira, e os eleitos do resto do País quando chegam ao parlamento, deslumbram-se com as luzes de São Bento e esquecem as dificuldades das regiões de proveniência.
A Próxima ajuda solidaria da Europa o PRR, Programa de Recuperação e Resiliência, mais conhecido como “Bazuca”, é mais uma prova de que nós os interiorenhos não podemos contar com a solidariedade Lisboeta.
A Comissão Europeia propôs seis Pilares Relevantes de investimento, entre eles estão a coesão social e territorial, no entanto ironicamente, a estratégia que assume a resiliência económica, social e territorial do país como a principal prioridade, de seguida investe as verbas principalmente nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto.
A Nossa interioridade deve-se principalmente á macrocefalia de Lisboa e á falta de órgãos de decisão no interior do País. Só a criação de regiões traria uma capacidade de reivindicação que os concelhos não têm.
Está na hora de pedirmos, de exigirmos órgãos que cadastrem os nossos territórios, que façam o levantamento das nossas potencialidades, que instalem as infraestruturas e que planeiem a nossa construção. Para que a palavra interior possa vir a ter outro significado.
* Eng. Civil
15/04/2021

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