Francisco de Almeida Dias
Rubrica Portugal é mátria

«Ponho num objeto o material e o tempo». E esta frase, surgida assim desarreigada de tudo, tão espontânea no meio do discurso, ganha caráter de título, de verdadeira definição. O material e o tempo são, na verdade, aquilo que faz a história, o que resta das nossas vidas: a luta do material contra o tempo do futuro – depois da matéria ter sido arrancada às horas do passado. Bom início de conversa com Mónica Capucho, artista que ama as palavras e se exprime através delas, tecendo uma narrativa plástica e não literária, construindo um poema sonoro de versos soltos, com cor e com peso.
São, a tal propósito, ilustrativas e certeiras as palavras de Patrícia Barreira, no texto de apresentação da sua mais recente exposição individual, Uneven Order, inaugurada na galeria lisbonense Carlos Carvalho – Arte Contemporânea em janeiro do ano passado – relevando esse aspeto essencial da obra de Mónica Capucho que é a ligação íntima, continuada e contínua, sem distinção de origem e resolução, entre a palavra, na sua valência semântica, e a palavra, forma estética desenhada ou modelada, valor artístico em estado puro:
Mónica Capucho motiva-nos a observar mais além da aparência colocando jogos de ocultação do material, usando por exemplo superfícies com resultado visual semelhante, misturando inclusive pigmentos para o efeito, mas que se diferenciam na essência e na perceção ao toque. O espaço de decisão da artista está nas composições de materiais, nas texturas, e na sua articulação com o significado ou com o desenho da palavra. A materialidade é interpretada e compreendida em todas as suas dimensões: a artista mistura betão, madeira, pedra ou silicone, controlando os seus efeitos e a forma como se apresentam ao observador pensando na temperatura, no brilho ou na textura, na atração ou frieza, na dureza ou na maciez da matéria.
Temos então vontade de entrar no jogo que a Artista nos propõe: pegamos na já longa sequência de títulos das suas exposições e procuramos nela uma sua “ordem irregular” (uneven order, justamente), uma relação, na solidez das palavras que pressagiam, em si mesmas, a sua peculiaríssima visão do mundo: UNEVEN ORDER . EQUAL PARTS . SOLID MATTER . STILL UNDER PRESSURE . UNDER PRESSURE . UNITS OF ORDER . LOOKING FOR SOMETHING . BANDED APPARATUS . PAPERWORK . DECONSTRUCTIVE BLOCKS . POSSESSIVE STATEMENT . UNDER DECONSTRUCTION . STATEGIC PLAN . LINEAR SENSE. Repetem-se palavras e são entremeadas com evocações da materialidade própria de labor artístico, de uma manualidade que não abdica de acompanhar os conceitos, culturalmente integrados no percurso de Mónica Capucho, que é em simultâneo intelectualizado e sentido.
Mónica Capucho tem 14 anos quando descobre que as suas mãos são feitas para fazer e o que primeiro faz são tapeçarias: riscas de lãs diferentes, uma sobreposição harmoniosa e contrastante de cores e texturas, que preanunciam o seu trabalho posterior. De seguida, parte para a exploração de diferentes materiais e do que cada um pode acrescentar à sua experiência plástica (recorta e cola e experimenta tintas sobre cartões, madeiras, gessos e têxteis). Assim, quando chega ao Liceu sabe perfeitamente que a área de estudos a seguir é a de Artes, formação que começa com a frequência num curso de pintura no Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação Visual.
É assim também que, quando o destino familiar a leva a Bruxelas, decide frequentar a ALPACA, Atelier Libre de Préparation aux Carrières Artistiques, uma escola de artes fundada em 1948 por Madeleine Martin Haupert, com uma pedagogia alternativa à do ensino convencional, baseada na experimentação das diversas formas de expressão plástica, com vista a um desenvolvimento global do aluno. Aí será aluna da pintora Colette Van Poelvoorde e irá conhecer o escultor Francis Tondeur (autor, por esses anos, das monumentais “Portes de la Fécondité” na sede da Fédération Wallonie-Bruxelles), dois mestres a quem se sente ainda hoje ligada.
Com eles fará as primeiras experiências de uma pintura que extrapola a bidimensionalidade, para se tornar algo de mais complexo, invadindo o espaço, confundido os sentidos e as etiquetas da “pintura” e da “escultura”, numa linguagem aculturada, mas sobretudo original. As pinturas que saem das paredes em volumes arredondados, feitas em papel armado sobre uma estrutura de arame, virão a ser resgatadas da sua fragilidade pelo poliéster, depois do estágio de escultura nesse material que fará no atelier de Tondeur. As ideias e a cultura que traz dessa formação – a que não são estranhas as experiências artísticas tão diversas como as de Niki de Saint Phalle ou Lawrence Weiner – estão prontas a ser maturadas e desenvolvidas por uma linguagem própria, que dispensa forçadas inserções nesta ou naquela Escola.
De regresso a Portugal as minudências da Química e da Física afastam-na de uma inicial opção por um curso de Conservação e Restauro. Mas deve-se sobretudo ao feliz encontro com o escultor Lagoa Henriques o seu ingresso na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, onde, no último ano da licenciatura, os seus mestres de pintura Carlos Vidal e Justino Alves a introduzem nos ambientes artísticos do Porto e de Lisboa, através das galerias Quadrado Azul e Carlos Carvalho.
A letra – progressivamente estanciada num caractere de depuração extrema – que forma palavras (e, com elas, títulos e frases) é o elemento compositivo estruturante das obras de Mónica Capucho, tão efetivo como os materiais que trabalha – o cimento, o vidro, o metal – as cores que explora e as texturas que nascem desse encontro de cor, material e caractere (que enforma as palavras). A decisão estética tomada pela Artista tem tanto de instinto, quanto de racional: uma escolha em dinâmica progressão, pois que um objeto nascido com determinado significado no atelier adquire nova e imponderável força significante nas instalações site-specific das suas exposições, por vezes com vários meses entre os dois momentos.
As peças, pela sua própria natureza modular, estão sujeitas desde logo a essa primeira reinterpretação e crítica por parte da Artista, que desencadeia (e encaminha) os mecanismos percetivos do fruidor, que estabelecerá uma lógica nova, subjetiva. Ligada por um invisível fio rubro à artesania, ao trabalho da criação, a arte torna-se uma reflexão sobre a arte, não sobre um tema alheio.
A última exposição de Mónica Capucho, escandida numa sequência de adjetivos sobre a cor azul, exprimia exatamente essa estrutura de contrastes e harmonias, construída como que sobre as linhas de um caderno: geometrias de cor em busca das palavras, letras contra fundos ou confundidas com eles, em irreverente monocromia, resolvida apenas com uma determinada angulação de luz. O que tal procura me suscita, acima de tudo, é a confirmação da inexistência de confins entre as formas de expressão artística do espírito e da mente humana.
Para o futuro próximo, Mónica Capucho tem em mãos dois projetos, a serem brevemente divulgados em http://www.monicacapucho.com/
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