EDITORIAL 802

Páscoa sem reunião de famílias e com atraso na vacinação

Páscoa sem reunião de famílias e com atraso na vacinação

Aproximamo-nos da época pascal que, para além das celebrações católicas, corresponde tradicionalmente a um período de maior proximidade e convívio familiar. Nas nossas terras, o almoço de Páscoa é frequentemente a oportunidade de juntarmos família e amigos, alguns que não conseguimos ver durante quase todo o ano.

As celebrações religiosas, como as eucaristias, voltam a poder fazer-se com a presença de público, aliás, a saída de casa para ir à missa passou a integrar as chamadas “deslocações autorizadas”.

Mas mantém-se a proibição contínua de circulação entre concelhos entre 26 de março e 5 de abril, com exceção das deslocações autorizadas, e o dever geral de recolhimento domiciliário, com o objetivo de evitar as reuniões familiares no período da Páscoa.

Para católicos e não católicos será uma Páscoa muito diferente do habitual. Sem visitas nem convívio familiar alargado, com uma celebração mitigada do Domingo de Ramos e sem “visitas pascais”.

O processo de desconfinamento traçado pelo Governo em articulação com as autoridades sanitárias já começou, de forma gradual. As creches, o ensino pré-escolar, o 1.º ciclo e os ATL já funcionam.  Há estabelecimentos autorizados a manter as portas abertas até às 21h durante a semana (livrarias e lojas de música, comércio automóvel, lojas de produtos animais, mediação imobiliária). O retalho alimentar também pode estar aberto até às 19 horas ao fim-de-semana. Estão autorizadas as vendas ao postigo.

O presidente da República prevê que em maio já não haverá nova declaração de estado de emergência, apesar do plano de vacinação estar em atraso. A melhor forma de alcançar a chamada “imunidade de grupo” é mesmo a vacinação. Porém, os interesses comerciais dos grandes laboratórios produtores das vacinas estão a colocar em causa as metas inicialmente previstas. As doses entregues pelos laboratórios são em quantidade inferior à que tinha sido contratada pela Comissão Europeia que não está a conseguir gerir esta situação. A AstraZeneca não está a entregar nem um quarto das doses contratualizadas.

Em Portugal, o coordenador da “task force”, Henrique Gouveia e Melo, anunciou um revés no plano de vacinação, afirmando que as vacinas disponíveis se destinavam prioritariamente a “salvar vidas”. Ou seja, foi preciso concentrar as doses disponíveis nos grupos de elevado risco. De facto, mais de um terço das doses administradas destinaram-se ao grupo etário com mais de 80 anos, o que já resultou numa taxa de incidência inferior à média nacional. O grupo abaixo, dos 65 a 79 anos, continua a ser dos menos protegidos: só 2% desta população têm a vacinação completa.

A chave da solução, para além das medidas de proteção sanitária já conhecidas e que devem manter-se, é de facto a vacinação. O atraso que se verifica tem consequências na saúde das pessoas, mas também no agravamento da crise social e económica. Os negócios não deviam poder sobrepor-se ao superior interesse da defesa da vida em todas as suas dimensões.


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