Memórias do meu primo Hernâni – de Oliveira de Frades – que foi preso pela Pide
Texto de João de Deus Azevedo e Silva (*)

Na família chamávamos-lhe Nani e era assim que era conhecido em Oliveira de Frades. Hernâni Alfredo Ramalho e Silva, meu primo direito, era filho do meu tio paterno João Henriques de Oliveira e Silva, que não cheguei a conhecer, e da sua mulher Alzira da Conceição Magalhães e Silva. O Nani nasceu em janeiro de 1927, já era um homem quase feito quando eu nasci no verão de 1943. Quando eu tinha sete anos, começou-se a comentar na família que o Nani teria sido preso por motivos políticos.
Dizerem a uma criança de sete anos como eu era na altura, que tinha um primo preso por motivos políticos, primo esse que eu não conhecia, pouco ou nada me dizia até porque não sabia o que eram “motivos políticos”.
Os anos foram passando, na família evitava-se falar de política, e quando se falava era para mencionar o nome de quem mandava nessa época. Em nossa casa não havia televisão – as emissões de televisão só surgiram em Portugal uns anos depois, em 1957 – entravam muito poucos jornais, não me recordo se já teríamos rádio ou não, telefone só chegou perto do 25 de Abril de 1974, o que significa que as notícias só chegavam por carta ou por bilhete-postal e, neste contexto, não se falava no sobrinho do meu pai que tinha sido preso.
O silêncio era quase total até ao dia em que o Nani apareceu em nossa casa. Na altura eu teria 12 anos, estaríamos em 1955/56, e eu vivia com os meus pais em Vouzela. O Nani disse então que vinha passar uns dias com os tios e primos para descansar…
Sempre que era possível íamos os dois dar uma volta ao fim da tarde, depois do meu regresso do colégio, ou ao sábado e domingo a qualquer hora. Numa dessas passeatas à tarde estabeleceu-se um curioso diálogo entre nós os dois, cuja memória me acompanhou pela vida fora, e que passo a contar a pergunta e as reflexões que o Nani me colocou quando eu tinha 12 ou 13 anos.
“João, tu achas bem que nem todos os meninos da tua idade possam ir à escola, não tenham pão nem caldo para matar a fome, nem roupa nem calçado, nem livros, nem medicamentos, nem casa que os proteja do frio e da chuva? Tu achas bem que tu e os teus pais não possam dizer, educadamente, aquilo que pensam?”
Espontaneamente respondi: “Não, não acho bem!”
E o Nani diz-me: “Então és comunista como eu. Tu queres o que eu quero. Só com uma diferença: Enquanto tu pensas e não falas e não lutas pelo que te preocupa, eu penso, falo e luto pelo que me preocupa a mim e, sobretudo, aos outros, sem voz”.
A memória deste diálogo acompanhou-me ao longo de mais de seis décadas. Lembrei-me dele mais vivamente porque o Partido Comunista onde o meu primo Hernâni militou no tempo em que era proibido ser comunista e se era preso por causa disso, comemorou cem anos de vida no último sábado, 6 de março.
(*)agradeço à historiadora Maria João Dias alguns elementos
(Edição 201 – 11/03/2021)

Comentários recentes