Coisas e Gente da Minha Terra por Nazaré Oliveira

Espinho — Praia dos sampedrenses (1ª parte)

Edição 801 (11/03/2021)

Espinho, 1944- 1º Plano: Licínio Oliveira, Adelaide Demétrio, António Oliveira, Maria Amélia Pereira, Manuel Clemente, Alcides Pereira, ? – 2º Plano: Crisália Oliveira, Ester Pereira, Rosa Pereira, Delmira Oliveira, Conceição Pereira, Rosália Simões, ?, Norbinda Pinheiro, Henrique Chaves

Nos anos 40 e 50, no mês de Agosto, a praia de Espinho enchia-se de sampedrenses. Ali caía boa parte de São Pedro do Sul. Lá iam os “ceboleiros” para terras dos “varinos”. De comboio, de automóvel ou de camioneta. A linha férrea do Vale do Vouga (Viseu-Espinho) era um dos caminhos. A viagem de comboio era demorada, com muitas paragens, alguns solavancos, apitadelas, faúlhas e fumaça. Mas, ao ritmo monótono do “pouca terra, pouca terra” do Vouguinha, lá se chegava a Espinho. De automóvel era mais rápido, apesar das curvas e contra-curvas.

As famílias com menos recursos e mais filhos alugavam casa. As que tinham menos filhos e mais recursos instalavam-se em pensões ou hotéis. Em muitos casos, só ficavam a mãe e os filhos. Os pais, salvo os que tinham tirado férias, regressavam às suas ocupações e só voltavam nos fins de semana.

Arrumados os tarecos, o primeiro contacto com a praia consistia em alugar barraca para o mês ou para a quinzena. Na nossa fila, a número 11, da alentada e simpática concessionária Irene Neto, instalaram-se várias famílias sampedrenses. Corria o ano de 1944. O fim da guerra mundial aproximava-se. O meu amigo Dr. Alcides Pereira, que nesta data seria um menino de seis anos, disponibilizou-me mais de uma vintena de fotografias tiradas na praia de Espinho em que todos os figurantes, gente de São Pedro do Sul, principalmente a gente moça de várias famílias: Leovegildo Pereira, Demétrio, Silva Simões, Clemente, Mousaco, Abranches Martins, Camilo Moreira, Henrique Chaves, Mendes de Barros, Oliveira (minha família). E outras dispersas pela praia.

A meio da manhã era a hora dos banhos. A miudagem, pela mão dos banheiros que esperavam o rebentar da onda favorável para três mergulhos. Os mais pequenos esperneavam e saíam engasgados com água que lhes entrara para a goela. As mamãs, expectantes, assistiam ao mergulho. Alguns adultos mais ousados atreviam-se a umas braçadas mar dentro. De vem em quando, lá tinha um banheiro de ir pescar um que dava sinais de dificuldade.

Um dia, eu, o João Simões, o Manel Clemente e o Carlos Mousaco, numa das nossas deambulações pela praia, tivemos uma surpresa: vimos um homem para quem toda a gente olhava, envergando um fato de banho inteiriço que devia remontar aos anos vinte. Atravessou a praia em direcção ao mar. Aproximámo-nos. Era o nosso excêntrico Professor Metelo. Deu uns mergulhos e umas braçadas de natação e veio estender-se na areia. Tínhamos sido seus alunos durante quatro anos. E já lá iam mais cinco. Fomos ter com ele. Ficou encantado. Sentámo-nos à sua volta, a recordar os bons tempos da escola. Lá o deixámos sensibilizado. Despediu-se de nós com um abraço e um “cá fico a torrar a carcaça”. Nos poucos dias que esteve na praia, sempre o íamos cumprimentar.

A praia tinha o seu colorido: barracas, guarda-sóis e toldos de diversas cores. E as suas personagens: a Irene Neto e outros concessionários, os arrumadores das barracas, os banheiros, os fotógrafos à la minute, os vendedores ambulantes: bolacha americana, bolas de Berlim e outras guloseimas, amendoins, chupa-chupas, gelados, balões. Estes eram vendedores diários; ocasionalmente aparecia o vendedor de gravatas com o mostruário suspenso do pescoço, mulheres a vender colchas e bordados às senhoras e marroquinos a tentarem impingir tapetes e relógios de contrabando.

Personagem singular era o CATITINHA, que por vezes aparecia e todos recebiam com simpatia. Era um homem dos seus cinquenta e tal anos. Boa figura, cabeleira branca e farta, asseado e limpo. No rosto, um sorriso de simpatia e um olhar terno, principalmente para as crianças. O que o tornava uma figura singular era a razão por que percorria as praias do norte e centro do país. Havia tido um filho que, criança ainda, tinha sido levado pelo mar. O homem ficou perturbado e passou a percorrer as praias, estendendo a mão a todas as crianças, repetindo incessantemente: “Quem não tiver bigode aperta a mão ao Catitinha. Aos adultos recusava. Tinha um apito semelhante ao dos árbitros de futebol para se anunciar. Quando se ouvia o apito, a miudagem entrava em alvoroço, “lá vem o Catitinha”. E corriam para ele a disputar o aperto de mão. Não era um pedinte e até devia ter meios de subsistência, a avaliar pela forma como se apresentava. Se alguma coisa pedia, era o afecto das crianças. Também não era um louco. Tinha a lucidez suficiente para viajar sozinho no comboio, de praia em praia.

Os dias na praia, de um modo geral, eram semelhantes: jogava-se o prego, faziam-se construções em areia (às vezes havia concursos), conversava-se, jogava-se o anelzinho ou as cartas, namoriscava-se, contavam-se anedotas; o Jaime Aníbal, que tinha piada e a quem as moças puxavam pela língua era o animador do grupo, com a sua léria e imaginação; tomava-se banho e secava-se o cabedal, estendidos na areia. As vezes apareciam os Robertos, com a sua voz esganiçada e as suas pantominas que acabavam sempre à traulitada e com o herói a vencer o vilão e o seu aliado, o diabo chifrudo.

De quando em vez, íamos ver a chegada dos barcos de pesca. Quando eles começavam a aparecer na linha do horizonte, o nosso grupo de jovens sampedrenses, rapazes e raparigas, iniciava a caminhada ao longo da areia, para vencer a distância até ao lugar de chegada, frente ao Bairro dos Pescadores. Havia sempre muita gente a ver o espectáculo. Quando os barcos estavam a chegar à praia e os remos já não eram eficazes, entravam em acção as juntas de bois, que se revezavam a arrastar os barcos para a areia, onde ficavam varados, As redes eram despejadas e as sardinhas e outros peixes, vivinhos e a saltar, constituíam a lota. As peixeiras eram as primeiras a arrematar. Enchiam as canastras e lá iam a correr, de saia pelo meio da perna e a menear as ancas, com os seus tradicionais pregões: “Vivinha da costa”. Também nós comprávamos na lota a sardinha fresca que, assada na brasa, iria fazer as delícias do nosso almoço.

Eu, o João Simões e o Jaime Aníbal, dois meses antes, tínhamos feito o exame do 3º ano, fim do 1º Ciclo. Só que a disciplina de Matemática tinha ficado pendente para o exame que tínhamos de fazer em fins de Setembro. E sem a aprovação não podíamos transitar para o 4º ano. Arranjámos um explicador, um professor do Colégio de S. Luís, o Dr. Fraião, que o Jaime considerava um tipo porreiro, porque lhe ia cravando uns cigarritos. Três vezes por semana, lá íamos ao Colégio, que ficava à beira da linha. E, ao som dos comboios, lá íamos esgrimindo com as expressões numéricas, as proporções, as equações do 1º grau e outras subtilezas da maldita Matemática que nos roubou parte das férias.

No fim das explicações, às vezes íamos ao cinema ver uma coboiada na matiné do velho São Pedro. Outras vezes, íamos à piscina dar uns mergulhos.

(Continua)



 

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