Crónicas do Olheirão por Mário Pereira

O COVID a Ciência e a Política

Edição 801 (11/03/2021)

Parece estar a consolidar-se um discurso que sugere que as únicas pessoas com capacidade para ter opinião sobre o COVID 19 são os cientistas que trabalham em laboratórios a estudar o vírus, a fazer estudos sobre vacinas e medicamentos ou então os especialistas em fazer cálculos muito complicados.

Aos poucos vai-se instalando a ideia de que só estes cientistas podem aconselhar o governo sobre a gestão da crise. Inclusivamente ouço, cada vez mais, a ideia de que o governo deve limitar-se a seguir as recomendações destes cientistas.

Esta ideia de que só os biólogos, os matemáticos e, agora acima de todos, os epidemiologistas, é que são cientistas é no mínimo pouco científica. Aliás, se a sua ciência fosse tão infalível seria de esperar que quando fazem contas a partir dos mesmos dados chegassem a conclusões similares, o que nem sempre acontece.

Com a exposição mediática está a acontecer aos “cientistas” o mesmo, que com frequência, acontece aos políticos. Falam, não porque tenham algo a dizer, mas porque não conseguem ficar calados quando alguém põe um microfone à sua frente.

Dizer que devem ser biólogos e matemáticos a ditar as regras do combate à epidemia é não reconhecer os limites dessas ciências, para a compreensão do mundo, da sociedade ou, mesmo só, de cada ser humano e esquecer as razões que levaram ao desenvolvimento da sociologia, da economia, da psicologia e de todas as ciências sociais.

A desvalorização das ciências sociais e humanas no combate a um fenómeno que sendo biológico tem sérias implicações na economia, nas relações sociais e até no comportamento das pessoas é, além do mais, um erro científico grave.

Poderia ser útil serem os cientistas a decidirem as medidas de combate ao vírus, se ele vivesse apenas nos tubos de ensaio dos laboratórios, mas a partir do momento em que ele anda por aí e infeta as pessoas tenho dúvidas que sejam essas as pessoas mais capazes de tomarem as melhores decisões.

Lá bem no fundo, com a cobertura da “ciência”, este é um discurso populista de desvalorização da democracia e da política, em que alguns políticos, com medo de ficarem mal vistos, têm vindo a colaborar alegremente.

Para um combate eficaz à pandemia é necessário resolver uma equação em que entram o vírus e a capacidade dos serviços de saúde, mas também a motivação das pessoas para aderir a algumas medidas, as necessidades das pessoas e das empresas, as escolas, os serviços públicos, etc.

Apesar de todos os avanços não há algoritmos nem computadores capazes de a resolverem. Bem ou mal terão se ser os políticos a tentar fazê-lo.

Devo dizer, que prefiro viver numa sociedade dirigida por maus políticos do que por grandes cientistas. Desconfio que iria correr mal.



 

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