EDITORIAL 800
A 800º edição da Gazeta da Beira e o 80º aniversário de Isabel Silvestre
Que feliz coincidência podermos assinalar a edição número 800 deste quinzenário de Lafões com uma viva homenagem a Isabel Silvestre a propósito do seu 80º aniversário no próximo dia 4 de março. Cada qual nas suas áreas e nas suas próprias dimensões e abrangências, a Gazeta da Beira (GB) e Isabel Silvestre constituem já referências incontornáveis desta ancestral região.

No que diz respeito ao jornal, orgulhamo-nos de dar continuidade àqueles que, como Carlos Matias da Ponte e António Bica, nas suas origens de há muitos anos (a caminho dos 40) o construíram e afirmaram como órgão independente, plural, comprometido com o progresso e a democracia, dedicado às gentes e aos territórios lafonenses, à sua cultura e vivências mais profundas.
É elementarmente justo referir que a Gazeta da Beira é o produto do contributo de milhares de assinantes e leitores da região, do país e do mundo lusófono, e do esforço de muitas pessoas que, edição a edição (já lá vão 800!), persistem nesta ideia de, na prática, garantirem um serviço público de informação regional, apesar das imensas dificuldades com que se confronta. Muito obrigado!
Isabel Silvestre, com o fabuloso Grupo de Cantares de Manhouce, é alma física deste povo, destas gentes das serranias beirãs e dos seus vales, a voz mágica do tesouro cultural nas suas canções de trabalho, religiosas, de festa, de ninar e de amor, arte pura que sobrevive apesar de tantas e tão variadas tropelias que continuam a ser-lhe feitas. Que magnifica região esta que tantas personalidades tem dado ao país e ao mundo, das letras à ciência, do desporto à música, do associativismo a tantas outras artes e atividades.
Conheci pessoalmente Isabel Silvestre na década passada quando acompanhei a Maria do Carmo, então Diretora da GB, numa reportagem de um ensaio em Manhouce do Grupo de Cantares, dirigido musicalmente pelo maestro e professor Alexandrino de Matos. Depois disso tive oportunidade de preparar a visita da Isabel Silvestre e do Grupo à Assembleia da República, onde atuaram e foram recebidas pelo presidente Jaime Gama. Posteriormente, colaborei na “expedição” a Bruxelas, onde estiveram numa evocação ao eurodeputado Miguel Portas, um ano após o seu falecimento, também ele um lafonense de coração.
Nesta memorável viagem ao Parlamento Europeu, o Grupo surpreendeu portugueses e estrangeiros com uma performance de uma sensibilidade e entrega arrepiantes, deixando a audiência suspensa entre uma espécie de silêncio de culto e aplausos pelo elevado nível do concerto. Isabel Silvestre quis dedicar duas canções ao homenageado, “Jornada” e “Acordai”, retiradas de uma outra simbiose perfeita, a vibrante, combativa e antifascista obra de Fernando Lopes Graça e José Gomes Ferreira imortalizada nas “Heróicas”. “Por certo que o Miguel bem gostaria que não tivessem tanta acuidade, tanta oportunidade e tanta atualidade”, sublinhou o Grupo na sua sentida mensagem. Pelas mesmas razões que a canção de embalar da Beira Baixa, “O papão”, foi antecedida de um voto deixado pela solista, a de que se cumpra o verso “Ó papão vai-te embora”, tão antigo e tão atual.
Parabéns, querida Isabel!
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