Coisas e Gentes da Minha Terra por NAZARÉ OLIVEIRA
Um domingo Sampedrense em meados do século XX (primeira parte)
Adro da Igreja
Era um domingo de final de um longo Inverno. A Vila acordou coberta de nevoeiro adensado pelo Vouga. A pouco e pouco, a bruma foi-se dissipando. A cruz do topo da Torre da Igreja de Santo António foi a primeira a furar a névoa. Depois, o telhado do Palácio de Reriz. E a Vila foi emergindo da neblina dissipada por uma réstia de sol que lambia a Praça.
A Praça era o coração da Vila. Ali pulsava a vida sampedrense. Começou a movimentar-se. Na parte de cima, ficava o TEMPLO DO SAGRADO — a IGREJA. Em frente e num plano mais baixo, o TEMPLO DO PROFANO — o CAFÉ EDGARD. A separá-los, o ADRO. À rampa, nascida da Rua Direita, começam a chegar os carros de praça. A meio da manhã a Vila estava em plena actividade. O Café começava a ficar cheio. Era o íman para onde convergiam homens vindos de vários lados. Uns a tomar a bica e a dar dois dedos de conversa, a fazer horas para a Missa. Outros à espera de vez para o João Manco lhes engraxar os sapatos. Alguns, figuras típicas da terra. O Quinato, a fazer tempo para ir dar corda ao relógio da Torre; o Bernardino Vasconcelos, o Rebelo e o Silva (pai da Notária), os três velhotes que, após o passeio matinal, abancavam a tomar a bica; o Carlos Bandeira a alcatroar as narinas com rapé e as mãos inchadas das frieiras a pedirem pó de Maio; o Abel Rocha, careca e bom conversador; o António Guimarães à conversa comigo sobre o próximo número da Tribuna; na habitual mesa do canto, o Marquês de Reriz a tomar o sua bica da manhã, enquanto passa os olhos pelo jornal; e outros. A certa altura, víamos passar o Cadillac do Dr. José Augusto, o “Pedra Azul”, com ele e a esposa. Católicos apostólicos romanos, não perdiam a missinha. Enquanto ela ia para a Igreja, ele dava uma saltada ao Café, a matar o seu vício brasileiro. Dizia ele que, depois do Brasil, nunca encontrara café tão bom como o do Edgard.
No Adro, passam mulheres para a Igrejas viúvas tristes e velhas beatas embiocadas com xailes e lenços pretos na cabeça e as de mais posses embrulhadas nos seus casacos de agasalho e ricas mantilhas — entrar na Igreja uma mulher de cabeça descoberta era uma falta de respeito pelo lugar sagrado. Aproximava-se o hora da Missa. O Cónego Isidro já subira a rampa da praça a caminho da Igreja, onde o sacristão Mário Batata tinha tudo preparado: as galhetas, o missal, o turíbulo, a campainha. Tudo no lugar. Do Café começam a sair os homens tementes a Deus. Os que não eram homens de missas ficam. Entre eles, o Quinato que era avesso a sotainas e dizia não querer nada com a padralhada.
Do relógio da Torre de Santo António pingam, lentas e compassadas, as 11 horas. Começa a Missa. No coro da Igreja, a abrilhantar, a cerimónia, o GRUPO CORAL SACRO, constituído pelos Dr. Abel Poças (ao órgão), Zé do Pico, Amadeu Teles (Barão da Agulha), Zeca de Moldes, António Teles (sem bombo) e Manuel de Oliveira (meu pai) a tocar flauta. O Cónego Isidro fez a homilia adequada, com o brilho de sempre.
Café Edgard
Acabada a Missa, a Igreja esvazia-se e o Adro enche-se. Algumas mulheres vão logo para casa tratar do almoço. As que têm criadas que lho façam ficam à conversa. Formam-se grupinhos. Beijoca para aqui, beijoca para ali, abraços, contam-se novidades, algumas que já nem o são mas servem de pretexto para se falar da vida alheia, com comentários nem sempre isentos de má língua encapotada. Quanto aos homens, alguns regressam ao Café, outros ficam no Adro, a discutir futebol ou a falar de negócios e marcar encontros para beber uns copos e selar contratos.
E assim se passou a manhã: Praça, Igreja e Café Edgard.
Continua na próxima Gazeta
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