Entrevista a Paulo Lima

Presidente da Junta de Freguesia de Vila Maior

• Texto de Paula Jorge

Ficha Biográfica

Nome: Paulo Lima

Idade: 47 anos

Profissão: Técnico Superior de Desporto

Livro preferido: Amor em tempo de cólera de Gabriel García Márquez

Destino de sonho: Tibete

Personalidade que admira: num âmbito mais intimista a minha Mãe, num mais universal o Papa Francisco.

 

Muito obrigada, Paulo Lima, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”. Comecemos pelo princípio.

Paula Jorge (PJ) – Pode descrever o seu percurso académico e o profissional?

Paulo Lima (PL) – O meu percurso académico e o profissional cruzam-se e evoluem em simultâneo. É um pouco atípico. Depois de ter concluído o 12º ano de escolaridade ingressei numa empresa como comercial, enquanto aguardava que o desejo de ingressar no exército português para onde me tinha voluntariado viesse a acontecer, tal não sucedeu. Aí fecharam-se algumas portas que eu tinha perspetivado, tive que seguir em frente.  Por ironia do destino, mais tarde comecei a trabalhar no Complexo Desportivo Municipal de São Pedro do Sul como Apontador, local que, de alguma forma, ia de encontro ao meu perfil, pois tinha vivências em algumas modalidades desportivas. Surgiu a possibilidade de fazer formação na área da Natação.  Frequentei o curso de Monitor, depois de concluído comecei a dar aulas de natação num projeto do Município para o 1º Ciclo. Mais tarde aprofundo os conhecimentos na área, tirando o curso de Treinador de Natação, o que possibilitou aceder à Carreira de Técnico Profissional de Natação. Já com 29 anos resolvi compilar alguns conhecimentos com a experiência adquirida e fui tirar a Licenciatura de Professor de Educação Física, conciliando os estudos na Escola Superior de Educação de Viseu com o trabalho. Tempos eletrizantes que me marcaram profundamente.

 

PJ – Ser Presidente da Junta de Freguesia de Vila Maior é, acima de tudo, uma missão. Conte-nos sobre esta sua experiência de vida.

PL – Sem dúvida que é uma nobre missão. Estar ao serviço das pessoas e de forma abnegada tentar dar respostas aos seus anseios e preocupações. Procuramos inovar, desenvolver projetos e intervenções que potenciem o desenvolvimento da Freguesia. É um cargo que exige muita disponibilidade, sacrificando muito da nossa vida familiar, mas acaba por ser uma verdadeira aprendizagem de vida, acabamos por nos submeter a um profundo processo de autoformação que nos fica para a vida nas mais diversas áreas, sejam elas institucionais, económicas, sociais, culturais. Exemplo disso é a aprendizagem que estamos a ter com esta pandemia que nos tem desenvolvido esse lado mais sensível e humanista perante os problemas gravíssimos que estão a surgir um pouco por todos os lados.

 

PJ – Enquanto Presidente da Junta de Freguesia será sempre o defensor de um de um povo e das suas tradições. Como lida com esta vertente?

PL – Ninguém pode olhar para o futuro sem respeitar as raízes culturais, a identidade das pessoas, os seus usos e costumes, em suma, o legado das gerações mais antigas. Compete-nos a nós perceber e respeitar esse legado e converte-lo em fatores dinamizadores, sejam eles a nível cultural, turístico ou económicos em prol da freguesia. Na vertente histórica posso dar o exemplo da criação do Percurso Pedestre Nª Sª das Colmeias que para além de valiosíssimo valor cultural de alguns sítios que se podem visitar, fez reviver o nome de uma Lenda com o nome da Santa que no séc. XVIII aqui na freguesia tinha uma Ermida em sua honra e era venerada por muita gente de outras freguesias e até concelhos limítrofes e a Ermida e o seu espaço envolvente chegou a ser considerada um Santuário Mariano. Igualmente a importância que está a ser dada aos Caminhos Romanos que atravessam a nossa freguesia. Um legado ancestral com centenas de anos que temos apostado em não se apagarem da história. Na vertente cultural temos o Grupo de Danças e Cantares de Vila Maior, que representa isso mesmo, as tradições antigas da nossa terra com os seus trajes e utensílios de antigamente e que devemos apoiar para se transmitir às gerações vindouras.

 

PJ – Tem agarrado com alma alguns projetos importantes, ou seja, à   semelhança dos anos transatos, a Junta de Freguesia de Vila Maior levou a cabo a 4.º edição natalícia “Vila Maior Terra dos Presépios” de 12 de dezembro a 6 de janeiro. Fale-nos da importância de manter esta edição.

PL – O Natal na sua verdadeira acensão da palavra está cada vez mais a perder o simbolismo histórico e cultural de outrora. Hoje em dia esta quadra transformou-se numa época de marketing agressivo, visando um consumismo exacerbado.  A iniciativa dos presépios é uma forma de não deixar cair no esquecimento um dos símbolos maiores dessa quadra e com um simbolismo muito grande a nível da mensagem que transmite. Por outro lado, é também um momento das nossas instituições e associações darem aso à sua imaginação e contribuírem para esta bonita iniciativa.

PJ – Outro grande projeto em Vila Maior é a União Desportiva Vilamaiorense, fundada em 1944. Pode pronunciar-se sobre este projeto e sobre toda a dinâmica em torno dele?

PL – A união Desportiva Vilamaiorense é uma instituição que já conta com 77 anos de existência, sendo já considerado um clube histórico da Associação de Futebol de Viseu. Tenho muito orgulho de fazer parte dessa história enquanto atleta, treinador e diretor. Neste momento encontra-se num processo de transformação, pois já está em andamento o início das obras para a colocação do piso sintético no campo de futebol.

 

PJ – Há também a Associação de Caçadores de Vila Maior, fundada em 1988, com sede na Cobertinha. Fale-nos do valor desta associação para a região.

PL – É uma associação que, como o nome diz, está direcionada para a área da caça e pesca. Ultimamente tem realizado ações muito importantes a nível da fauna selvagem, contribuindo para o equilíbrio do ecossistema natural. Têm sido feitas algumas repovoações de espécies que estão em desequilíbrio, nomeadamente o coelho bravo e perdizes. Anualmente também realizam uma montaria aos javalis, ação importante para a correção da densidade da espécie, pois se assim não fosse seriam muito superiores os prejuízos, sobretudo nas colheitas do milho dos pequenos produtores agrícolas.

 

PJ – Como viveram e continuam a viver estas associações com o estado de emergência e confinamento, devido à corona vírus/covid-19?

PL – O associativismo neste momento está praticamente parado, o que aumenta as dificuldades em alguns casos de honrarem os seus compromissos. Sabemos que têm mensalmente faturas a pagar de eletricidade e telecomunicações e, ao não realizarem os seus eventos e não receberem as catalisações dos associados, é-lhes difícil saldar os seus compromissos. Ainda assim a Associação Vila Maior 3660 publicou sempre o seu jornal mensal e foi organizando a sua feira sempre que a situação sanitária do concelho o permitiu.

 

PJ – Gostaria de saber qual é a sua perspetiva relativamente àquilo que é uma riqueza para todos nós, que é o setor florestal, e as medidas que têm tomado para a sua preservação.

PL – Estamos também a este nível a atravessar graves problemas com as inúmeras pragas e doenças que estão a atacar a floresta. Isto está a afetar a produtividade, nomeadamente de madeira, acarretando a diminuição de rendimentos, sobretudo dos pequenos proprietários florestais. As alterações climáticas também estão a contribuir para a proliferação destas doenças, provocando um crescente desequilíbrio do nosso ecossistema. Urge em apostar em políticas que privilegiem e incentivem a reflorestação com ênfase para as espécies autóctones que certamente são as que mais facilmente se adaptam ao nosso clima e resistem a estes agentes destrutivos.

 

PJ – Quer partilhar connosco outro projeto em que esteja envolvido e ainda não tenhamos falado?

PL – Deixando de lado as lides autárquicas que em si nos envolvem numa série de projetos em prol da comunidade, tenho vários a nível a pessoal que com a diminuição do tempo disponível vão sendo adiados, mas virá o momento de os levar a cabo e nessa altura um ou outro serão do conhecimento público.

 

PJ – Para além das suas ocupações profissionais, que outras paixões nutre, que o completam enquanto pessoa?

PL – É quase um lugar-comum dizer-se nestas ocasiões que se gosta de passear, ir ao cinema, ler, praticar desporto, etc… pois bem, eu não sou exceção. Efetivamente gosto imenso de viajar, partir em busca de sítios desconhecidos, explorar as suas raízes históricas, uma das minhas áreas de eleição, visitar os seus “ex libris”, degustar a gastronomia típica. Também gosto muito de ler, tenho um fascínio por escritores sul americanos, gosto de ver determinados géneros de filmes, gosto imenso de jardinagem (adoro catos), plantar árvores confesso que tenho um carinho especial por oliveiras, etc. Mas, acima de tudo isto está a família, pois é ali que encontramos o nosso porto seguro e só então depois tudo o resto.

PJ – Imagine a sua vida sem a sua ocupação profissional, como seria?

PL – Nunca fiz esse exercício, porque acredito que a vocação de cada um acaba mais tarde ou mais cedo por ditar o nosso caminho.

 

PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?

PL – Humanista.

 

PJ – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?

PL – Que cada dia que passa devemos estar de bem com a vida, porque só assim estaremos de bem connosco e com aqueles que nos rodeiam.

 

PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma enorme honra, Paulo Lima. Desejo-lhe a continuação de um excelente trabalho neste ano de 2021 e MUITO OBRIGADA! Peço-lhe que deixe uma mensagem breve a todos os nossos leitores.

PL – Nesta fase complicada que estamos a viver por causa dos efeitos que a pandemia está a causar a todos os níveis, cria deixar uma palavra de esperança e que continuem a acreditar que em breve podemos voltar a ter uma vida dita normal. Muita saúde para todos vós.

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