João Fraga de Oliveira
A transição digital e o longo braço do trabalho

Todos os dias ouvimos proclamar a “transição digital”. E, mais ou menos associado, o anúncio (ou pelo menos prenúncio) do “fim do trabalho”.
A progressiva informatização, automação, robotização, a “inteligência” artificial (recuso-me a escrever esta palavra sem colocar aspas na anterior), dizem, vai acabar com o trabalho.
Em resumo, o que por aí não falta é quem anuncie e (re)escreva sobre o “fim do trabalho”. Sobre a “transição” total do trabalho humano, presencial, para o “digital”.
“(…) A nova onda de tecnologias digitais pode provocar transformações dez vezes mais rápidas que a revolução industrial e a uma escala trezentas vezes maior. Isto vai afetar o mundo da energia e do trabalho, as empresas, o funcionamento das sociedades e vai condicionar o futuro. Um dos aspetos relevantes é a Robótica. Temos hoje a Robótica avançada, com robots que entendem frases complexas, respondem e fazem formulações complexas (…)”, escreve o professor António Costa Silva no documento apresentado ao Governo como “Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030”[1].
.”(…) Na era da quarta revolução industrial, caracterizada pela digitalização exponencial da sociedade e da economia, a transição digital assume também inegável importância enquanto um dos instrumentos essenciais da estratégia de desenvolvimento do país, em linha com as orientações da Comissão na Comunicação sobre a Construção do Futuro Digital da Europa (COM(2020) 67 final, de 19 de fevereiro), do Pacto Ecológico Europeu e com os investimentos da União Europeia no período de programação 2021-2027.(…)”, escreve o Governo na versão preliminar (já apresentado à União Europeia) do Plano de Reestruturação e Resiliência.2021 – 2026[2].
Sabe-se, também, que um dos critérios de avaliação da aplicação do financiamento europeu já negociado no contexto e relacionado com o combate à pandemia, a tal bazooka, será, justamente, o investimento na “transição digital”.
Não se duvida da potencialidade económica e social, política (até ministro dela já temos) da “transição digital”.
Mas, seguindo o conselho de Alexandre O’Neill implícito num dos seus poemas (“A leitura – brechtiana”[3]), talvez seja sensato perguntar a cada letra desses escritos: “Por que está aqui?”
O que é que, quanto ao trabalho, (nos) propõe a tal “transição digital”?
A diminuição da duração, da intensidade, da penosidade, da insalubridade, da perigosidade, da falta de dignidade de muito trabalho humano?
Ou, pelo contrário, directa ou indirectamente, imediata ou diferidamente, a desvalorização, a negação objectiva do trabalho humano, para lhe baixar (ainda) mais o “preço” (salários) no “mercado de trabalho”?
“Transição digital”? “Fim do trabalho”?
Invísível na caixa negra dos locais de trabalho, muito, muito trabalho humano por aí anda, cada vez mais. Algum, ainda que sob a capa da “evolução tecnológica” e do “digital” da quarta revolução industrial, de facto, no essencial, nada tendo “transitado” para melhor (nalguns casos e dimensões, objectivamente, pelo contrário, “transitou” até para pior) das condições (nomeadamente de sobre-.intensificação e alienação) em que era realizado há mais de 100 anos, na primeira revolução industrial. Para perceber isso, e é apenas um mero exemplo de entre muitos, basta entrar num call center e perceber como (e quanto) lá se trabalha.
“Fim do trabalho”? Não. Mais trabalho: “voluntário”, “eventual”, “à experiência”, por e-mail, por telemóvel, em casa, no restaurante, sobre “plataformas”, algoritmado, sobre-intensificado em duração e em ritmo (em que quem trabalha as oito horas visíveis no mapa de horário de trabalho, realmente, pelo ritmo, organização do trabalho e natureza deste, mete no corpo e na mente o sobre-esforço de carga física e mental de invisíveis 16 ou 24 horas…), dissimulado, subdeclarado. Clandestino (não declarado), até.
Tudo isso, talvez invisível mas, … trabalho. Trabalho humano, em regra, por conta (e interesse) de outrem.
Porque antes, agora e sempre, trabalho é “apenas” aquilo que as máquinas e, agora, os computadores e os algoritmos, não podem nem nunca poderão fazer. Na medida em que o trabalho é, essencialmente, ”um olho que vê, um cérebro que pensa, um braço (ou até só um dedo) que se move. Consubstancia-se nas pessoas que o realizam.
Da automatização, robotização, “digitalização” do trabalho, até se podem vislumbrar benefícios (e alguns já são mesmo evidentes) quanto à menor penosidade, insalubridade e riscos para a saúde e para a vida das pessoas que o realizam.
Contudo, não se pode defender a “transição digital” e, certamente associadas, a automatização e a robotização aceleradas sob um ponto de vista estritamente económico (se não só financeiro), sem assumir também a irracionalidade económica e, sobretudo, os problemas sociais que tal pode induzir no estado actual das nossas economias e comunidades, ou seja, nas pessoas e, por estas, na sociedade.
Neste dilema de perspectiva, de estratégia e de acção sobre a “transição digital”, são naturalmente decisivas as opções e práticas gestionárias e governamentais que determinam o funcionamento das empresas e das instituições, bem como as decisões políticas e a aplicação destas.
Certo é que, para o bem ou para o mal, tal se projecta, desde logo, nos locais de trabalho. Especificando, quanto a condições de trabalho, de remuneração, de organização e duração dos tempos de trabalho, de segurança, de saúde, de dignidade das pessoas que, concretamente, o trabalho ali realizam.
Mas também (se não sobretudo), por aí, pelas pessoas, nas famílias e na sociedade.
Sim, porque, dada a sua inquestionável centralidade social, para o bem e para o mal, “o trabalho tem um braço longo”.
*João Fraga de Oliveira – Inspector do trabalho aposentado
Votos de Boas Festas e melhor Ano de 2021 para todos os leitores da Gazeta da Beira.
[1] https://www.portugal.gov.pt/download-ficheiros/ficheiro.aspx?v=%3d%3dBQAAAB%2bLCAAAAAAABAAzNDAytAQAziD%2fFAUAAAA%3d
[2] https://www.portugal.gov.pt/download-ficheiros/ficheiro.aspx?v=%3d%3dBQAAAB%2bLCAAAAAAABAAzNDAzNgUAu6Z2KAUAAAA%3d
[3] Em : As Horas Já de Números Vestidas, 1981
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