Rui Chã Madeira
Etnografia musical do concelho de São Pedro do Sul - “Cantigas de Manhouce” – Segunda parte
• Rui Chã Madeira (Doutorando em etnomusicologia pela Universidade de Aveiro)
As cantigas de Manhouce como apurado pela etnomusicóloga, investigadora e docente na Universidade de Aveiro Maria do Rosário Pestana trata-se de uma definição (…) “usada pelos próprios manhoucenses para referirem as tradições musicais configuradas pelos grupos folclóricos de Manhouce e uma forma de as cantar, imbuídas da propriedade de serem tradicionais (independentemente de quando e onde se realiza), firmados na sustentação do direito à herança e de uma noção essencialista de territorialidade representada na região administrativa correspondente à freguesia de Manhouce”. As cantigas de Manhouce, cujos principais elementos identificadores são a forma de cantar, de vestir e de estar em palco, são um distintivo autóctone da cultura enraizada no território em que a herança e a legitimidade de herdar e saber herdar assim como o reconhecimento são uma prioridade para os seus habitantes. O direito de herança dessas cantigas, de cantar, de trajar, de ser e de estar é adquirido com naturalidade pelos manhoucenses, de facto subjaz como algo que pode ser interpretado como inato, como uma contínua e constante presença dos antepassados por entre os elementos da natureza que circundam o território. O ethos das cantigas, como referido pela professora Isabel Gomes Silvestre começa desde o (…) “berço, a música, quem quer que seja de Manhouce, a ela esta ligada e a ela liga-se a quem quer que nasça e que passe por cá”. Essa exposição e intenção de salvaguarda, expressa não somente em registos fonográficos, em registos fotográficos e audiovisuais, em publicações, assim como nas alocações dos diversos grupos nas suas atuações, teve o seu momentum de certificação institucional no ano de 1938 aquando da participação de Manhouce no concurso “A aldeia mais portuguesa de Portugal”, contruído na vigência do regime político Estado Novo que, com mais especificidade, tratarei em posterior publicação. As cantigas de Manhouce aqui retratadas, com mais acuidade, podem ser analisadas por intermédio de duas perspetivas com dicotómica aparência, nomeadamente a perspetiva natural, o que brota, de onde brota, de quem brota e a perspetiva instrumental no sentido da apropriação processual dessas cantigas como um objeto que, nas palavras do antropólogo João Leal, consiste na (…) “transformação de determinados traços da vida tradicional em objectos representativos de uma cultura nacional, coisas que só nós temos e outros não, coisas sobre que repousa a possibilidade mesma de se falar de uma cultura nacional como própria, específica, distinta, original”.
Ligações:
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