COISAS E GENTE DA MINHA TERRA por NAZARÉ OLIVEIRA
O LENTEIRO DO RIO (I)
NOTA PRÉVIA: Na minha crónica de 29 de Outubro passado, referindo-me ao “Levantamento Popular de Arcozelo”, escrevi que “eu divulguei em terras de Lafões, com publicação do auto de levantamento”, quando era minha intenção escrever “publicação de extractos do auto”. Faltou-me a palavra “extractos”. Eu só divulguei. O auto integral foi publicado (in Revista Portuguesa de História, Coimbra 1977* Vol. XVI) pelo Prof. Doutor António de Oliveira, que não sou eu apesar da coincidência dos nomes. Em artigo em tempos publicado na Tribuna de Lafões, tive o cuidado de o assinalar. Para que não fiquem dúvidas, aqui fica a ressalva.
Dito isto, vamos ao assunto de hoje.
O LENTEIRO DO RIO (I)
Há milénios, os rios Vouga e o Sul, nascidos respectivamente na Senhora da Lapa e S. Macário, escorregaram pelas encostas das serras, furando granitos e xistos, e encontraram-se em São Pedro do Sul, no Lenteiro do Rio. O Vouga engoliu o Sul e, com ele nas entranhas, lá foi seguindo até às planuras da beira-mar, espraiando-se na Ria de Aveiro.
Não sei como está hoje o Lenteiro do Rio. Há alguma décadas que lá não vou. O que escrevo reporta-se aos anos 40 e 50 do século passado. Da minha juventude guardo vivências inesquecíveis ligadas ao Lenteiro do Rio. Nas tardes calmosas de Verão, ali me estendi na sua relva fresca, ali chapinhei nas águas do Vouga (aprendi a nadar na Toca), ali namorei, dancei, me diverti.
No enquadramento do Lenteiro do Rio, além da Ponte e dos rios Vouga e Sul, mais três elementos completavam o conjunto: a Levada, a Nora e o Moinho.
A LEVADA ficava a deslado do Lenteiro. Era uma ramificação do Rio Sul, para levar a água ao Moinho. Na Levada se juntavam as lavadeiras da Ponte, de saias arregaçadas e pernas na água até aos joelhos, lavando e batendo a roupa, enquanto desfiavam a crónica da vida sampedrense. Ali saltava o tampão das conveniências e se falava de coisas que toda a gente sabia e de coisas que alguns sabiam e se falava em surdina.
As lavadeiras na levada
A NORA, velho engenho importado das Arábias, com a sua chiadeira e cujos alcatruzes bebiam no rio as águas que iam regar as leiras vizinhas.
O MOINHO, com a sua mó ronceira a triturar o grão para a farinha que haveria de encher a taleiga. O Moinho seria mais tarde adquirido pelo consagrado fotógrafo sampedrense em Lisboa António Homem Cardoso que o transformou em residência de férias integrada no turismo rural.
Recordo de forma especial o Lenteiro do Rio no ano de 1948. Eu tinha 18 anos, idade dos devaneios. 23 de Agosto, véspera de São Bartolomeu. Conforme a tradição, era dia de festa. Os da Ponte nunca se esqueciam do seu santo. E os da Vila também não. Para lá rumavam aos magotes, talvez mais para se divertirem do que para rezar. Mas, já que lá iam, também não custava nada fazê-lo. Um padre-nosso e estava paga a quota anual ao santo.
A Nora
Só que a festa já não era como antes. A meio da calçada da feira, ainda se fazia a Feira da Erva, onde se vendiam sementes, cebolas e outros vegetais, de mistura com melões e melancias. Ao fundo, a Capela de São Bartolomeu aberta ao público. Mas o bom do santo tinha de se contentar com as parcas esmolas, as orações dos mais devotos e ouvir a música e os foguetes que vinham do Lenteiro do Rio, para onde, nos últimos anos, se deslocara o arraial.
O Lenteiro estava expressamente iluminado para a festança. A meio do recinto, armou-se um coreto onde a Filarmónica Harmonia esgalhava marchinhas populares, tangos e valsas. À volta, os pares dançantes roçavam-se com maior ou menor intimidade. Música não faltava. Alternando com a Banda, a aparelhagem sonora do Abel Morgado transmitia música, reclames dos patrocinadores e directivas da Comissão de Festas. Improvisou-se uma cozinha, uma espécie be bar, espaço cercado por traves de madeira, um balcão, mesas e cadeiras. Era o lugar dos comes e bebes: bifanas, sardinhas assadas, caldo verde, broa, pirolitos, laranjadas, chá, café, não faltando o vinho de Lafões. A servir às mesas, um grupo de meninas da Vila e da Ponte, dirigidas pelo Presidente adjuvado pelo Mousaco. O Presidente era o meu saudoso amigo Custódio Rodrigues. Não que ele ali fosse presidente de alguma coisa. A alcunha ficara-lhe do tempo em que ele se intitulava “presidente” do clube de futebol juvenil Os Leões da Ponte, por ele fundado. Mas deixemos este desvio de saudade e voltemos à festa. Enquanto a Filarmónica, sob a batuta do meu tio António Nazaré, destilava música, as mulheres da cozinha não tinham mãos a medir para abastecer o bar. A higiene tinha as suas lacunas mas, como “o que não mata engorda”, tudo marchava. E a banca para lavar a louça era grande e água não faltava: era o rio.
Nesse ano, estava em voga a Marcha do 8º Centenário da Conquista de Lisboa, que meses antes se comemorara. A Banda repetia a marcha que toda a gente cantava: “Lisboa nasceu/ Pertinho do céu/ Toda embalada na Sé.” E o estribilho MAS QUE LINDA QUE ELA É! Quem não se lembra desta música, ainda hoje transmitida frequentemente nas estações de rádio e televisão, cantada pela Amália Rodrigues! E eu — para o que me havia de dar — armei em poeta satírico e ali improvisei uma paródia, com versalhada adaptada à música e o mesmo estribilho;
São Bartolomeu,
Hoje o dia é teu,
Vamos lá ao salsifré;
Tudo em corrupio,
Lenteiro do Rio,
MAS QUE LINDO QUE ISTO É!
Há música e dança,
Uns enchem a pança
E os outros dão ao pé;
Riso e falatório.
Estoira o foguetório,
MAS QUE LINDO QUE ISTO É!
Andam as sopeiras,
Lindas e ligeiras,
De serviço na cantina;
Está o Presidente,
Todo sorridente,
A atender uma menina.
Também o Mousaco,
Cara de macaco,
Está sempre a fazer banzé;
Para apertos vários
Não há sanitários,
MAS QUE LINDO QUE ISTO É!
Bifanas grelhadas,
Sardinhas assadas,
Há chazinho e café;
Para os comilões
Vinho de Lafões,
MAS QUE LINDO QUE ISTO É!
Rapaziadas dos 18 anos!
Pela meia noite, era o fogo preso: no alto de postes da madeira, giravam rodas impulsionadas pelos rastilhos da pólvora, ardendo com fogo colorido e motivos vários. Mais umas gaitadas da Banda que mais uma vez tocava a marcha do Centenário, que o nosso grupo cantava com a letra da paródia. Entretanto, os hábeis fogueteiros de Nespereira Alta, em barcos — não eram os barqueiros do Volga, mas os barqueiros do Vouga — punham a boiar as engenhocas pirotécnicas que, dali a pouco, lançariam para o ar foguetes de assobio que estoiravam com lágrimas. A sessão era curta, que o orçamento não dava para mais. Era uma amostra do que a consagrada pirotecnia da vizinha Nespereira Alta era capaz de fazer.
Acabado o fogo, era a hora do caldo verde com chouriço, broa e mais uns copos. Depois, era a debandada. Subia-se a ponte do rio Sul e, chegados ao cimo, era a divisão em dois rumos; Vila e Ponte. E o LENTEIRO DO RIO lá ficava deserto, no silêncio da noite, quebrado apenas pelo murmúrio das águas e o coaxar das rãs.
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