João Fraga de Oliveira
O pensador fora do seu tempo
“Nasci em 1923, em Maio, no dia 23. Mas só fui registado no dia 29. De maneira que estive seis dias fora do tempo”.
É assim que começa, escrito e dito pelo protagonista, o filme (ou, se se quiser, o ensaio documental narrado pela própria pessoa cuja vida e pensamento esse ensaio visa) de Miguel Gonçalves Mendes “O Labirinto da Saudade” (2018).
É uma adaptação da obra homónima (O Labirinto da Saudade: Psicanálise Mítica do Destino Português, originalmente publicado em 1972) cujo autor é o professor, filósofo, escritor Eduardo Lourenço, falecido, com 97 anos de idade, em 1 de Dezembro de 2020.
O filme é “(…) uma viagem única pelo interior de uma mente brilhante (…) em que o escritor e filósofo projecta pelos espaços da sua memória as perguntas que até hoje nele perduram. Que traumas nos definiram enquanto povo? Quem somos? O que fizemos? Que atrocidades cometemos? Quais os caminhos que podemos seguir? (…), um filme sobre uma ‘nação condenada desde a sua origem a esgotar-se em sonhos maiores do que ela própria’, mas também a celebração da vida e obra de um dos maiores autores da cultura Portuguesa. (…)”[1].
Não obstante haja quem discorde (contrapondo-lhe, por exemplo, Jorge de Sena ou António Sérgio), “o maior pensador” português, foi muito o atributo que, especialmente agora na sua morte, ouvimos e lemos quanto a Eduardo Lourenço.
Não obstante conheça alguma coisa da sua obra, julgo ser tão pouco que algo escrever sobre ela seria – entendo eu – desrespeitar essa obra e, sobretudo, a Memória do autor.
Procuro ser, há muito, intransigente comigo mesmo quanto ao respeito pelo princípio formulado por Wittgenstein: “Sobre aquilo que não conhecemos, devemos calarmo-nos”.
Vou procurar conhecê-la melhor, por essa obra em si, mas também pelo autor, como pessoa e como cidadão, sobretudo pelo que sei ter sido, na escrita, nas palavras e nos actos, um humanista.
De qualquer modo, relativamente a coincidências contextuais da sua vida, da sua obra e, mesmo, da sua morte, alguma reflexão me suscita essa distinção daquele filósofo como “o maior pensador”.
Não, não é só a coincidência de ter morrido no aniversário da restauração da independência de Portugal, deste nosso país que foi / é a essência do seu pensamento, do ponto de vista do povo, da cultura, da língua como factores de identidade.
Não, também não é somente a coincidência de ter morrido no dia seguinte ao do aniversário da morte de Fernando Pessoa, cuja obra foi também essência literária do seu pensamento.
É outra coincidência quanto a mim mais triste, perversa, e que, talvez, apesar da sua avançada idade, terá – espero que não – estado presente no seu pensamento, ensombrando-o, no fim da sua vida.
É que se Eduardo Lourenço teve, de facto, durante toda a sua vida, o pensamento como “volúpia”, morre numa altura em que, perversamente, predomina o não pensamento.
Numa altura em que sobressai a negação do “penso, logo existo” como referência intelectual e também, associadamente, a negação do “existo, logo penso”, que entendo ser o seu correspondente contraponto social (quem não come não pensa).
Numa altura em que vinga quem tenda a pressupor (e a agir como tal) que pensando não existe e que, existindo, não tem que pensar. Seja quanto ao que for.
Numa altura em que, enfim, prepondera o “triunfo dos porcos” que cultivam (“bom” exemplo disso são as redes sociais e as caixas de comentários dos jornais online), para se promoverem (e promovem mesmo, como Bolsonaro, Trump e outras reles imitações, inclusive caseiras), a superficialidade, a futilidade, a boçalidade, o primarismo, a sistemática confrontação e provocação gratuita como atributos promotores do seus autores.
Inclusive como atributos profissionais e mediáticos, e temos aí exemplos bem ostensivos em certa “comunicação” comercial, dita “social”, especialmente na televisão.
Mais, da ordem de perigo mais geral, como atributos “políticos” (as aspas significam a sua não afinidade com a Política, com maiúscula, a não ser a afinidade que a esta possa ser subversiva e destrutiva), em que o politicamente correcto passa a ser, não só o “politicamente incorrecto” mas, mais perverso e perigoso, o democraticamente incorrecto.
Uma infeliz coincidência é, pois, a de o “maior pensador” morrer num tempo em que grassa o não pensamento. Portanto, de algum modo, “fora do (seu) tempo”, do tempo em que (e para que) viveu.
A outra coincidência, aliás associada à precedente, remete para a citação inicial deste texto, o início do filme “O Labirinto da Saudade”. Se, ao nascer, Eduardo Lourenço – diz ele no início do filme – “esteve seis dias fora do tempo”, por razões prosaicas, eventualmente administrativas, (presume-se), o “maior pensador”, por más razões sociais, culturais, políticas, morreu também, por isso,“fora do (seu) tempo”.
Eduardo Lourenço, o “maior pensador”: nascer e morrer fora do seu tempo.
[1] Dossier de imprensa sobre o filme -https://www.mgm.org.pt/o-labirinto-da-saudade_dossier-imprensa.pdf
17/12/2020
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