Crónica do Olheirão por Mário Pereira
A caminho do impasse
Entre nós, parece estar a acentuar-se a tendência para os partidos políticos tomarem decisões em função do que consideram serem os seus interesses no momento.
Essa tendência foi clara na discussão do Orçamento de Estado em que as posições dos partidos que chegaram a público pareciam mais relacionadas com o que poderiam achar os seus votantes do que com aquilo que seria necessário para o bem comum.
O PC tal como o BE parecem terem negociado com o governo numa lógica destrutiva de qualquer diálogo. Ficou a ideia de um concurso sobre quem obtinha mais cedências do governo e de que estariam contra tudo que não fossem as suas revindicações.
O PSD e o PS parecem ter chegado a um ponto em que não conseguem falar sobre qualquer coisa importante. O único acordo que fizeram nos últimos tempos foi a partilha das presidências dos CCDR – Comissões de Coordenação de Desenvolvimento Regional.
É neste quadro que se entendem o PSD, neste orçamento de estado, tenha feito bandeira de duas questões em que contradiz tudo aquilo que o partido tem defendido e feito.
Os deputados do PSD já tiveram muitas oportunidades para acabarem ou reduzirem as portagens no interior e votaram contra. Fazê-lo agora e com o argumento de que é para compensar o interior dos benefícios dados aos passes sociais nas regiões de Lisboa e Porto é mero oportunismo e zero de convicção.
Se tivessem essa convicção poderiam ter tomado posição quando o governo decidiu os apoios aos passes sociais em Lisboa e no Porto, mas na altura era preciso agradar ao pessoal de Lisboa e do Porto… Acresce que, embora o PSD não tenha consciência disso, no interior também há pessoas que precisam de transportes públicos e que muito raramente andam nas auto-estradas.
A posição do PSD sobre o Novo Banco parece um exercício de hipocrisia e uma demonstração de falta de coragem para assumir responsabilidades. Quem os ouviu falar até pode pensar que a criação deste monstro não teve a mão do PSD.
A discussão do OE deixou a impressão de que o governo não vai conseguir aprovar o próximo Orçamento de Estado, não por alguma discordância estrutural, mas porque as linhas de diálogo estão cortadas.
Esta falta de diálogo pode tornar-se muito danosa e serve os interesses dos populistas que combatem a democracia.
Os Estados Unidos são um exemplo claro dos problemas que podem surgir se não houver diálogo entre as pessoas e entre as organizações.
Neste momento o presidente eleito está com problemas em fazer uma transição pacífica do governo, mas arrisca-se a ter enormes problemas para formar um governo e preencher alguns cargos de nomeação presencial, que têm de ter a aprovação do Senado.
O ex-presidente Obama dizia, numa entrevista publicada no jornal Expresso, que já na sua presidência havia senadores e membros da Câmara de Representantes do Partido Republicano que em privado lhe diziam concordar com as suas políticas, mas que não podiam votar a favor delas, porque tinham medo da reacção dos seus eleitores.
Ouvimos com alguma frequência as pessoas criticarem os políticos porque depois de uma discussão pública são capazes de almoçar juntos ou de terem uma conversa amigável.
A política, sem esta capacidade, tenderá a tornar-se muito tensa e há sério riscos de levar a bloqueios ou situações em que apenas pode haver governos de maiorias absolutas, o fará da democracia apenas uma formalidade.
A ideia de que a política é um combate boxe, em que objectivo é levar os adversários ao tapete, é mais própria das ditaduras do que das democracias.
Vejo os líderes e militantes dos partidos demasiados orgulhosos, porque criaram problemas aos outros partidos. É pena que não possam orgulhar-se das soluções que conseguem encontrar.
17/12/2020
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