Manuel Silva

O NATAL E A ”SOPA DOS POBRES”

A feira popular do MFA acabou

na sopa dos pobres do FMI.

Vitor Cunha Rego

 

A frase acima exposta foi escrita por Vitor Cunha Rego, próximo do final do ano de 1983, no primeiro número do jornal “Semanário”, de que era director, extinto há muitos anos. Era o tempo do governo Soares-Mota Pinto (bloco central).

A “feira popular” em causa era a época revolucionária de 1974/75, também conhecida por PREC (Processo Revolucionário em Curso), que conduziu muitas empresas à falência, provocou um enorme desemprego e uma grave crise nas finanças públicas.

Após o 25 de Novembro de 1975, houve uma grande austeridade. Na primavera de 1978, o governo PS/CDS, dirigido por Mário Soares, recorreu ao FMI, seguindo-se medidas bem duras para evitar uma possível bancarrota.

Karl Marx dizia que “a História repete-se, não como tragédia, mas como farsa”. No segundo governo da AD, chefiado por Pinto Balsemão, as finanças voltam a registar um descalabro, por um lado, dada a impossibilidade de privatizar empresas, continuando as públicas a dar um enorme prejuízo, por Mário Soares não querer que a Constituição, na parte económica, fosse alterada aquando da revisão constitucional de 1982, por outro lado, dada a crise económica mundial então vivida. O governo Balsemão/Freitas do Amaral cai. Nas legislativas realizadas na primavera de 1983, sai vencedor o PS, constituindo-se o governo Soares/Mota Pinto. Regressa a “sopa dos pobres” do FMI. Nos dois anos posteriores seguiu-se a maior dureza para reequilibrar as finanças públicas. Houve fome, salários em atraso, suicídios de trabalhadores.

Durante vários anos a situação financeira, económica e social melhorou significativamente, para o que contribuiu a integração de Portugal na CEE e, mais tarde, na UE.

Entre 2005 e 2011, o governo de José Sócrates conduziu Portugal a um novo descalabro económico e financeiro. Desta vez, veio a troika, com os resultados conhecidos durante o governo Passos/Portas.

Quando as coisas pareciam correr melhor, surge a pandemia da covid-19, mostrando a fragilidade das instituições, do Estado, da economia e do sistema de saúde.

Chegada a covid-19 a Itália e Espanha, os responsáveis pela saúde diziam que não chegaria a Portugal. Logo a seguir, chegou mesmo. Viu-se a dificuldade e incapacidade de resolução no combate à doença, além da epidemia paralela: pessoas com doenças graves verem adiadas consultas e cirurgias urgentes, que acabaram por falecer em número bem maior que vítimas do “coronavirus”. Tudo isto, em grande parte, devido às cativações na saúde de Mário Centeno e o seu sucessor nas Finanças, João Leão, então secretário de estado, enquanto se emprestadavam (alguém acha que esse dinheiro vai algum dia ser devolvido?) milhões aos bancos falidos, devido ao roubo e à ganância dos seus proprietários e gestores. A propósito, porque é que toda a gente que afirma, em tom populista, “serem todos os políticos uns gatunos” não o diz por banqueiros, empresários e gestores bem conhecidos? Desses o Chega não fala. Porque será?…

Além do novo disparo do défice e da dívida pública, do enorme desemprego, da proletarização, chamando mais uma vez em nosso auxílio Karl Marx, das classes médias, da fome envergonhada, a nossa sociedade mostra um enorme atraso bem anterior à covid-19 e que esta pôs a nu. O “rei” (leia-se governo), vai mesmo nu. O ministro das Infraestruturas disse que a reestruturação da TAP passaria pelo parlamento, António Costa diz que não, pois “quem manda é o governo”. Em Março deste ano, agentes do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) assassinaram barbaramente, à pancada, o emigrante ucraniano Ihor Homeniuk, com a conivência de colegas seus. Que tenha conhecimento, as pessoas mortas pela PIDE foram-no a tiro e não à pancada até cairem para o lado. A directora do SEF, Cristina Gatões, que deveria ser imediatamente demitida e o ministro Cabrita passaram este tempo todo como gato sobre brasas acerca deste crime. Cristina Gatões foi embora. O ministro também está a mais.

Celebrar o Natal, além do convívio familiar, é também reflectir e encontrar soluções para todos estes problemas, acudindo de imediato a milhares de situações de pobreza, miséria e fome, envergonhadas ou à vista de toda a gente, apoiar as instituições que dão a sopa e mais comida aos pobres na noite de Natal.

O verdadeiro espírito de Natal não passa pelas refeições opíparas, nem pelos milhões gastos pelas autarquias em iluminações, o que, numa época de crise, é um insulto a quem é necessitado, àqueles para quem o Natal não existe. Se Cristo viesse de novo, provavelmente correria esta gente à cinturada como fez a quem negociava na casa de Seu Pai.

À administração, direcção, redacção, colaboradores, anunciantes, assinantes e demais leitores, apresento votos de um Feliz Natal.

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