Entrevista a Vitor Simões da Vinha
Treinador de futebol

• Paula Jorge
A rubrica “Gente Que Ousa Fazer “será assente numa entrevista a alguém que tenha algo válido no seu percurso de vida. Gente que sabe o que quer e, acima de tudo, que luta por aquilo que quer. As entrevistas serão sempre encaminhadas de forma a mostrar o lado melhor que há em cada um de nós e, dentro do possível, ousar surpreender o leitor. Serão entrevistas com a marca das nossas gentes, da região Viseu Dão Lafões, de todos os quadrantes e faixas etárias. Vamos a isso!
Ficha Biográfica
Nome: Vitor Simões da Vinha
Idade: 34 anos
Profissão: Treinador de futebol
Livro preferido: Código da Vinci – Dan Brown
Destino de sonho: Maldivas
Personalidade que admira: Josep Guardiola
Muito obrigada, Vitor Vinha, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”.
Paula Jorge (PJ) – Comecemos pelo princípio. Teve a sua infância na aldeia de Santa Cruz/Arcozelo das Mais, no concelho de Oliveira de Frades. Pode descrever o seu percurso académico?
Vitor Vinha (VV)– Antes de mais, quero dar os parabéns ao jornal Gazeta da Beira e à Paula Jorge pela iniciativa. Ao mesmo tempo, agradecer o convite. Espero corresponder ao desafio.
Iniciei o meu percurso académico na escola primária em Santa Cruz/Arcozelo das, mesmo ao lado de casa dos meus pais. Era só atravessar a estrada e estava na escola. Depois fiz o ensino básico até ao oitavo ano na antiga designada “escola de baixo” em Oliveira de Frades (não sei se atualmente ainda é assim). A seguir mudei-me para Coimbra, onde fiz o nono ano e onde concluí o décimo segundo ano na Escola Secundária Infanta Dona Maria. Escola que é, ainda hoje, considerada a melhor escola pública do país. Entrei na faculdade da Universidade de Coimbra em ciências do desporto, mas infelizmente, por um ou outro motivo, ainda não terminei o curso.

PJ – Fale-nos do seu trajeto profissional (do percurso e conquistas que alcançou).
VV – Quando vim para Coimbra, aos treze anos de idade, vim para estudar e também para jogar futebol na Associação Académica de Coimbra – Organismo Autónomo de Futebol (atualmente AAC-OAF/SDUQ). Aqui, ano após ano, consegui destacar-me e aos 18 anos assinei o meu primeiro contrato profissional. Fiz carreira como jogador profissional de futebol, tendo jogado muitos anos na primeira liga em clubes como a Académica, Olhanense, Gil Vicente, e também, na segunda liga, no Beira Mar, Desportivo das Aves e FC Famalicão. O Famalicão foi o meu último clube enquanto jogador. Fiz também o meu percurso nas seleções nacionais, tendo representado o nosso país nos escalões de sub17, sub19, sub20 e sub21. Em 2003, tendo 16 anos, fui campeão europeu de sub17 pelo nosso país. Um campeonato da europa que foi disputado em Viseu.
Enquanto jogador, fiz uma carreira relativamente boa, da qual me orgulho muito.
Aos 29 anos, por opção própria, fui em busca de outro sonho, deixei de jogar e fui em busca de uma carreira de treinador de futebol.

PJ – Como se sentiu e que impacto teve na sua vida a mudança de jogador para treinador, nomeadamente no início da carreira de treinador dos juniores da Académica.
VV – Sinceramente, desde muito cedo que senti que queria ser treinador. Deixei de jogar, porque a certa altura, enquanto jogador estava com o futuro indefinido e nesta altura foi-me proposto pelo presidente da AAC-OAF/SDUQ iniciar carreira de treinador como adjunto na equipa principal da Académica. Não hesitei. Iniciei a minha carreira enquanto treinador adjunto, num clube que disputava e disputa a segunda liga portuguesa, ou seja, num patamar bastante elevado. Permitiu-me trabalhar e absorver conhecimento de treinadores que atualmente estão na primeira liga ou na segunda liga. Ivo Vieira (ex-Guimarães), Ricardo Soares (Gil Vicente), Carlos Pinto (Chaves, 2ªliga). Portanto, ao ter bem presente dentro de mim aquilo que gosto de fazer e ao ter bem presente o meu sonho, foi uma transição bastante fácil. Desde que deixei de jogar que estive sempre a trabalhar enquanto treinador e isso tem sido fantástico.
PJ – Sendo o treinador principal da equipa de juniores da Académica, que ideologia de vida tenta passar aos seus atletas?
VV – Acima de tudo, tento passar-lhes três grandes aspetos: Identidade, cultura pelo esforço inteligente e instalar estados de ânimo vencedores.
Identidade no sentido em que eles têm de descobrir dentro deles próprios aquilo que gostam de fazer, se querem verdadeiramente ser jogadores de futebol, se esse é verdadeiramente o sonho deles. A partir daqui, expressarem-se diariamente dentro do campo através daquilo que é o modelo formativo da Académica. Através daquilo que é a nossa ideia de jogo, que está pensada e é aplicada para que eles se valorizem e que retirem o máximo de prazer naquilo que estão a fazer.
Nada se consegue sem trabalho, nada se consegue sem dedicação, portanto tento incutir-lhes a cultura pelo esforço. Simplesmente não quero que eles trabalhem por trabalhar, não quero que corram por correr, quero que eles maximizem a eficácia dos seus esforços, daí a cultura pelo esforço inteligente.
Por fim, passamos a mensagem da competição, sermos competitivos diariamente, em tudo. A competição na dose certa leva-nos a sermos melhores, leva-nos a querermos ser cada vez melhores e a encontrarmos novas formas de vencer. Não é vencermos a qualquer custo, mas sim vencermos porque simplesmente somos e demonstramos que somos melhores.

PJ – Percebemos que está em constante formação. Pode falar-nos da formação na vida de um treinador e mais especificamente desta última: “Curso UEFA PRO – IV nível de treinador”?
VV – O curso UEFA PRO é o último passo burocrático naquilo que é a formação de treinadores em Portugal. O fundamental dos cursos é sem dúvida alguma o conhecimento e a partilha que existe entre os formandos/treinadores que frequentam os cursos. Por exemplo, neste UEFA PRO, temos treinadores que estão na primeira e segunda liga, temos treinadores que estão em ligas de topo como a premier league e a ligue one e que quando estamos no curso partilham as suas vivências. Para mim, que estou no início da minha carreira e num patamar menos elevado, é riquíssimo. Tento absorver ao máximo todo o conhecimento.

PJ- Como tem gerido e trabalhado com os seus atletas com a situação de pandemia, devido à COVID-19?
VV – Tem sido muito complicado e muito incerto. Nunca sabemos se vamos treinar, se vamos ter os atletas todos para treinar, não sabemos se vamos competir, temos muitas restrições para cumprir. Acaba por ser tudo ao minuto, o que apela a uma grande capacidade de adaptação a todo e qualquer contexto que possa surgir.
Num desporto de contacto torna-se complicado gerir o estado de espírito de todos. Além disso, a pandemia vem afetar sobremaneira a progressão de carreira destes jovens atletas, uma vez que o treino é sempre diferente do jogo, as condicionantes são mais que muitas, como tal a visibilidade e possibilidade de darem nas vistas, condiciona aquilo que é a progressão dos jovens atletas a todos os níveis.
PJ – Pode fazer um diário de bordo de 1 só dia da sua vida?
VV – Todos os dias acabam por ser bastante diferentes. No entanto, de forma geral, acordo cedo. Passo muitas horas no computador ou no tablet, a ver jogos das equipas com as quais me identifico, analisar novas formas de atacar e novas formas de defender, pois a melhor forma de evoluir enquanto treinador é estudando o jogo. Leio artigos ou algum livro de interesse profissional, procuro exercícios de treino ou então passo para formato digital algum exercício que tenha em mente. Vejo vídeos dos nossos treinos ou dos nossos jogos. A análise da própria equipa leva a que sejamos melhores.
Tenho também alguns trabalhos do curso de treinador que vou fazendo consoante a demanda e os prazos de entrega.
Por volta das 16h30 vou para a Academia Briosa XXI onde me reúno com os restantes elementos da nossa equipa técnica. Aqui debatemos aquilo que vai ser o nosso treino e todas as questões relacionadas com o nosso treino e a nossa equipa. Vamos para o campo, colocamos os cones no campo deixando todos os exercícios montados para que o treino flua e decorra sem grandes paragens. 18h15 treinamos. Consoante a duração do treino, enquanto equipa técnica, no final debatemos aquilo que foi o treino. O que correu bem, o que correu mal, aspetos de melhoria e aspetos relacionados com a evolução dos nossos jogadores.
O dia termina estando em família, com a minha namorada, rodeado de afeto.
Sendo treinador, o futebol e a evolução da nossa equipa andam sempre na nossa cabeça. Por vezes é muito difícil não viver futebol 24h por dia.
Outros dias, simplesmente tento desligar, namorar muito, passear, conhecer novos locais, estar em família ou desfrutar de um ou outro hobbie.

PJ – A Académica é um projeto para continuar ou terá outros voos em mente?
VV – A Académica é um projeto que irá durar pelo menos até 30 de junho de 2021, altura em que termina o meu contrato. Continuamos à espera de que haja campeonato nacional e esta indefinição leva a muitas outras indefinições. Como tal, o meu foco é total neste projeto. Procuro aprender ao máximo com toda esta experiência e com todo o trabalho que estamos a desenvolver na Académica.
PJ – Quer partilhar connosco outro projeto em que esteja envolvido e ainda não tenhamos falado?
VV – De momento nada a registar. Apenas tenho tido um interesse maior pelos mercados financeiros e pelo funcionamento do trading. Não se pode considerar um projeto, mas tenho tentado instruir-me nessa área.
PJ – Para além da sua ocupação profissional, que outras paixões nutre, que o completam enquanto pessoa?
VV – Gosto de conhecer novos locais, de conhecer o nosso Portugal e também além-fronteiras. Gosto de jogar ténis e gosto de jogar golfe. Gosto de cinema. Gosto de ler. Gosto de aprender.

PJ – Imagine a sua vida sem a sua ocupação profissional, como seria?
VV – Quando terminei o secundário, na hora de escolher o curso, a minha indefinição foi grande. Tinha uma relativa boa média e também tinha o estatuto de alta competição pelo que poderia ter enveredado por qualquer profissão. Na altura cheguei a ponderar entrar para medicina, no entanto, na hora da verdade, ser treinador de futebol é verdadeiramente a minha paixão. Pelo que não me imagino a fazer mais nada.
PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?
VV –Resiliência.
PJ – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?
VV – Sou um apaixonado pela vida e pelas pessoas que me são verdadeiramente importantes. Tento estar junto delas o máximo de tempo possível. Da minha família, mais propriamente da minha irmã Conceição Vinha, que está também em Coimbra, da minha namorada e dos meus amigos.
PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma enorme honra, Vitor Vinha. Desejo-lhe a continuação de um excelente trabalho e MUITO OBRIGADA! Peço-lhe que deixe uma mensagem breve a todos os nossos leitores.
VV – Agradecer novamente este convite.
Deixar uma palavra de conforto e de ânimo neste tempo de indefinição provocada pela pandemia. Que respeitem as normas de segurança, que se mantenham a salvo, mas que não se privem dos afetos daqueles que vos são próximos. Cumprimentos a todos.
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