Entrevista a Pedro Tiago Duarte Afonso

Pasteleiro e formadorem Pindelo dos Milagres

A rubrica “Gente Que Ousa Fazer“ será assente numa entrevista a alguém que tenha algo válido no seu percurso de vida. Gente que sabe o que quer e, acima de tudo, que luta por aquilo que quer. As entrevistas serão sempre encaminhadas de forma a mostrar o lado melhor que há em cada um de nós e, dentro do possível, ousar surpreender o leitor. Serão entrevistas com a marca das nossas gentes, da região Viseu Dão Lafões, de todos os quadrantes e faixas etárias. Vamos a isso!

• Paula Jorge

Ficha Biográfica

Nome: Pedro Tiago Duarte Afonso

Idade: 39

Profissão:  Pasteleiro e formador

Livro preferido: “Ensaio sobre a cegueira” Saramago e “Contos da montanha” de Miguel Torga

Destino de sonho: Há vários, entre eles India e Vietnam

Personalidade que admira: Admiro varias, por estes dias admiro Stanisic Lubomir, pela sua perseverança e capacidade de luta por um setor e por um país, país esse que nem sequer é o seu de nascença.

 

Muito obrigada, Pedro Afonso, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”. Comecemos pelo princípio.

Paula Jorge (PJ) – Pode descrever o seu percurso académico?

Pedro Afonso (PA) – O meu percurso académico não é longo, pelo contrário. Estudei na escola secundária de São Pedro do Sul até ao 10º ano, entretanto retirei-me para trabalhar, e mais tarde voltei através das Novas Oportunidades para completar o 12º ano. Depois disso aproveitei uns meses que estive parado, devido a um acidente, para fazer formação de formadores.

 

PJ -Fale-nos do seu trajeto profissional.

PA – Esse é fácil. Foi sempre na empresa dos meus pais, na Padaria Pastelaria Afonso, Lda. Sempre fiz um pouco de tudo, (a ideia de se pensar que vida de filho de patrão é fácil não pode estar mais errada) desde panificador, a forneiro, a distribuidor, empregado de escritório, até que me apaixonei pela pastelaria.

Comecei a limpar formas de nata, limpar tabuleiros, (tudo o que os outros não queriam fazer).

Estive 10 anos como ajudante, onde fui tentando aprender as coisas mais básicas e praticando sempre que tinha oportunidade. Depois disso, a equipa foi reduzida e eu assumi a liderança da produção.

Não foi fácil ao princípio, mas eu nunca fui pessoa de baixar os braços.

 

PJ – O Pedro Afonso é muito inovador na sua arte. Fale-nos das formações que frequentou, mas também de onde lhe vem a criatividade.

PA – Frequentei imensas, ainda frequento, sempre que aparece alguma que me agrada. Fiz formação de tudo e mais alguma coisa, desde cake design, a pintura em bolo, flores de açúcar, modelagens de bonecos em pasta de açúcar, pastelaria francesa, éclairs, tarteletes, peças de chocolate, tantas…

Mais recentemente, e depois de vinte e tal anos de pastelaria, fui fazer uma formação de massas folhadas. Apesar de acharmos que é algo básico, e que de facto é, apercebi-me que estava a cometer imensos erros e aprendi imenso. Todas estas formações acabam por dar frutos, como é natural, e dois deles são os nossos pindelinhos e a bôla de cogumelos.

Sabe Paula, acredito que o segredo para o sucesso, além do empenho e do trabalho árduo, é também a humildade de aceitarmos que temos sempre espaço para melhorar, mesmo nas coisas mais básicas.

 

PJ – Falar da vossa Pastelaria, localizada em Pindelo dos Milagres, é falar obrigatoriamente dos “pindelinhos” e da bôla de cogumelos. Pode contar-nos tudo sobre estas nobre tentações?

PA – Quem nos conhece sabe que o nosso forte sempre foram, desde há 41 anos, as entregas porta a porta, o fornecimento de escolas, hotéis, restaurantes e pastelarias, mas desde há 6 anos temos também em Pindelo dos Milagres, na estrada principal, a Pastelaria TrigoDoce, que ganhou visibilidade quase desde início pela nossa participação no programa de televisão “Best Backery” e, claro, pela qualidade dos nossos produtos.

Entre esses mesmos produtos tenho de destacar os meus dois “meninos”, as minhas criações, que são a Bôla de Cogumelos e os Pindelinhos e, claro, algo incontornável que é a qualidade das nossas várias qualidades de pão.

A Bôla é uma combinação suculenta entre carnes, queijo e um salteado de cogumelos shitake que delicia quem gosta de cogumelos.

Os pindelinhos, bem, os pindelinhos são deliciosos também, uma combinação de massa folhada, amêndoa, canela, e mais uns segredos (risos).

Ambos fazem um enorme sucesso entre os clientes que nos visitam.

 

PJ – Participaram há uns anos no programa de televisão “Best Backery” que vos projetou a nível nacional e internacional. Fale-nos dessa experiência.

PA – Bem, dizer que essa experiencia foi incrível, é dizer pouco. Foi… foi espetacular, imensamente compensadora. Ainda mais depois de o programa ter ido para o ar e percebermos o poder que a televisão tem. Vieram pessoas de todo país ver-nos, foi incrível. Ouvir de algumas pessoas que nos viram e adoraram a nossa genuinidade, o facto de sermos pessoas de um mundo rural e de terem percebido que eramos aquilo que mostrámos, pessoas simples, tudo isso foi incrível. Algumas dessas pessoas, ainda hoje mantenho contacto e visitam-nos regularmente.

Recordo a expressão de um casal septuagenário, onde a senhora me diz:

“quando vos vimos na televisão ficámos apaixonados por vocês, disse para o meu marido que quando fossemos à terra iriamos conhecer-vos”. Ouvir isto é… não tenho palavras.

 

PJ – Tem tido alguma dinâmica nas redes sociais, inclusivamente com a família, que o ajuda e está presente. Como é esta “parceria” no mundo dos doces?

PA –  As redes sociais são o que me ajuda a manter os fãs informados do meu trabalho, das minhas evoluções, e dos produtos novos que vou disponibilizando. Faço questão de oferecer aos nossos clientes produtos inovadores, especialmente ao fim de semana. Bem… nem sempre é fácil, esta parceria, sabe como é, os pais e o mano estão sempre lá, a esposa e os miúdos também, mas muitas vezes sofrem pela minha ausência, uma vez que é um ramo complicado, com horários complicadíssimos. Há uns dias um amigo disse-me: “… tu vives ao contrário das pessoas normais.”

 

PJ – Pode fazer um diário de bordo de 1 só dia da sua vida?

PA – Os meus dias nunca são iguais, a minha vida é uma animação (risos), mas garanto-lhe que são de loucos.

 

PJ – Quantas pessoas tem a vossa empresa a seu cargo e como assume essa missão?

PA – Há bem poucos meses eramos 12. Neste momento somos 8 pessoas, devido à pandemia e à consequente quebra nas vendas. Todas as empresas sofreram perdas, vivemos tempos difíceis. As empresas vivem todos os dias na incerteza do “amanhã”. Vamos vivendo dia a dia, sempre esperando que as coisas melhorem e que possamos voltar a contratar pessoas.

 

PJ – Devido à epidemia mundial corona vírus/covid-19, tiveram que se adaptar a uma nova realidade e de se reinventar. Como lidaram e estão a lidar com a situação?

PA – Como respondi anteriormente, tivemos de despedir pessoas, até porque as quebras de vendas foram assombrosas. Vivemos dia a dia, com as medidas necessárias. Os nossos distribuidores foram instruídos para terem o máximo cuidado, assim como os nossos clientes também o foram para nos facilitar a vida, dentro do possível.

Passámos a fazer desinfeções muito mais frequentemente e não permitimos a entrada de ninguém estranho ao serviço nas nossas instalações de fabrico.

 

PJ- Quer partilhar connosco outro projeto em que esteja envolvido e ainda não tenhamos falado?

PA – A título pessoal, tenho alguns na manga. Um deles embora não seja um projeto meu, é um projeto onde colaborei e do qual me deixa imensamente orgulhoso. Está prestes a ver a luz do dia, é um livro, chama-se “Receitas de Autor” e é um projeto da minha querida amiga e formadora Teresa Henriques, a mais incrível profissional do cake design, pastelaria a nível nacional. É um livro com 93 intervenientes, entre eles alguns dos melhores deste país. Deu-me um gozo e uma honra enorme ter sido convidado para este livro, porque além de ter trabalhado com grandes amigos, foi fantástico poder aparecer ao lado dos grandes nomes da pastelaria nacional.

Ainda a título pessoal, tenho dado formação na área da pastelaria.

Quanto a projetos da empresa, devido à situação que vivemos, tivemos de colocar alguns em standby, esperemos poder arrancar em breve com a nossa nova unidade de produção, mas vamos aguardar o desenvolvimento de toda esta realidade que vivemos.

 

PJ – Para além da sua ocupação profissional, que outras paixões nutre, que o completam enquanto pessoa?

PA – Essa é fácil (risos).

Adoro cozinhar em casa, para a família, poder estar com eles é o que mantém a minha sanidade mental.

Para manter a forma física, tenho a minha “quinta”, onde com a minha esposa temos o nosso porquinho, as galinhas, os patos e onde cultivamos a maioria das hortaliças e frutas que consumimos.

Também não dispenso a minha hora de natação semanal.

Como vê não tenho tempo para ter tempos livres (gargalhada)…

 

PJ – Imagine a sua vida sem a sua ocupação profissional, como seria?

PA – Não seria, de todo.

Digo muitas vezes a brincar, ou nem por isso, que descobri a minha paixão pela pastelaria aos 30 anos. É a mais pura das verdades.

Até essa idade eu trabalhava, porque tinha de pagar as contas, entende? Sou muito mais feliz depois dos 30, aprendi a amar aquilo que faço para que os outros se deliciem, só assim faz sentido para mim continuar.

 

PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?

PA – (gargalhada) em duas, pode ser?

Mau feitio (mais uma gargalhada) quem me conhece sabe do que falo.

 

PJ – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?

PA – Uso muito uma expressão que adoro: “se no final tiver conseguido inspirar uma pessoa que seja, já valeu a pena toda a caminhada”.

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