Coisas e Gente da minha Terra por Nazaré Oliveira
PARA A HISTÓRIA DO TEATRO AMADOR EM SÃO PEDRO DO SUL (VI)
O CÉNICO — GRUPO DE TEATRO POPULAR DE SÃO PEDRO DO SUL
(continuação)
Na meia dúzia de crónicas que escrevi sobre este tema, baseei-me em informações documentais e nas minhas vivências pessoais relativas ao período temporal das minhas crónicas, entre finais dos anos 30 e meados dos anos 50 do século passado.
Em 1956, por razões profissionais, deixei de residir em São Pedro do Sul e ficou reduzido o meu contacto e vivência directa das coisas da minha terra. Mas e ela fiquei sempre ligado, através das relações familiares, amizades e da investigação histórica e da escrita.
Lafões é um Jardim, texto e encenação de Jaime Gralheiro
O teatro amador continuou e, sobretudo a partir do começo da década de 70, surge um teatro novo e com uma continuidade que nunca tivera. Um nome está na origem deste renascimento: o DR. JAIME GRALHEIRO. E foi um Renascimento, no sentido histórico do termo. Tudo é novo: novas formas de fazer teatro, novos temas, novos autores, nova linguagem, nova gente, novas encenações.
Eu não podia terminar as minhas crónicas sobre este tema sem uma referência ao CÉNICO – GRUPO DE TEATRO POPULAR DE SÃO PEDRO DO SUL. Não vou fazer a sua história, porque não a vivi de perto. Outros poderão fazê-la melhor do que eu. Apenas as linhas fundamentais do seu trajecto.
O CÉNICO nasceu em 1971, encostado à União Desportiva Sampedrense. Era o futebol a camuflar a arte que naquele tempo não era livre.
O seu primeiro espectáculo foi o Auto da Compadecida de Adriano Suassuna, numa encenação de Jaime Gralheiro e José Oliveira Barata. Em 1972, o Grupo foi obrigado a legalizar-se. O segundo espectáculo foi A Sapateira Prodigiosa de Federico Garcia Lorca, espectáculo depois proibido pela Pide/Dgs, e a dieecção do Cénico teve mesmo de responder em tribunal. O terceiro espectáculo, em 1973/74, foi Na Barca com Mestre Gil, da autoria de Jaime Gralheiro. Também foi proibido pela Censura.
Veio o 25 de Abril e o CÉNICO, livre de peias, levou à cena, em São Pedro do Sul e noutras localidades, várias peças escritas por Jaime Gralheiro e interpretadas por gente da terra, de variadas idades, inclusivamente em teatro infanto-juvenil.
Lafões é um Jardim (levantamento de Arcozelo), texto e encenação de Jaime Gralheiro
De entre as várias peças de Jaime Gralheiro, destacam-se Arraia Miúda e Onde Vaz, Luís? A primeira foi também apresentada em Coimbra, pelo TEUC, numa encenação de José Oliveira Barata, teatrólogo muito ligado a Lafões e que veio a ser professor da Universidade, onde leccionou, para além de outras disciplinas, História do Teatro. Foi também representada pelo Grupo da Academia Almadense e pelo TEC, numa encenação de Carlos Avilez, que também encenou para o TEC Onde Vaz, Luís?
Só assisti à representação de duas peças trazidas a Viseu: Arraia Miúda, feliz teatralização da histórica Crise de 1383/85, apresentada no recinto da Feira Franca, e Lafões é um Jardim, no Teatro Mirita Casimiro. Este espectáculo, ao ritmo de revista popular, tocou-me especialmente, porque nos trouxe a festa da nossa terra, através de danças e cantares, factos históricos ou anedóticos, caricaturas de figuras típicas, tricas locais e tantas coisas que fazem parte da vida de um povo. Tivemos ocasião de recordar as lendas de S. Macário, de S. Frei Gil de Vouzela, do Tributo das Donzelas com a canção do Figueiral Figueiredo. Tudo isto eu tinha tratado em publicações e na imprensa lafonense. E o facto histórico do LEVANTAMENTO POPULAR DE ARCOZELO em 1635 contra o domínio filipino, que eu divulguei em terras de Lafões, com a publicação do auto do levantamento. Tudo isto e muito mais, eu via-o agora teatralizado. Não admira que Lafões é um Jardim me tenha sensibilizado de forma especial, já que passei a vida a estudar a História de Lafões e a escrever sobre ela e o espectáculo era a História cantada e dançada descontraidamente por gente da nossa terra.
Jaime Gralheiro soube utilizar a caricatura, a sugestão e a ambiguidade do segundo sentido com a necessária dose de “sal e pimenta” indispensáveis numa revista popular. E os actores corresponderam.
Com a morte prematura do Dr. Jaime Gralheiro, o CÉNICO — GRUPO POPULAR DE TEATRO POPULAR DE SÃO PEDRO DO SUL foi amputado da sua peça fundamental. Nestes tempos de pandemia mundial, está paralisado. Mas o flagelo há-de passar e o Cénico há-de ressurgir da semente deixada pelo seu criador.
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