Francisco de Almeida Dias

Rubrica Portugal é mátria

A casa de Maria Helena Portugal (1923-2015) no bairro de San Saba, em Roma, não parecia certamente uma tradicional casa de família, muito mais uma torre de conto de fadas. A alta colina do Aventino, onde o mito da fundação de Roma colocou Remo decifrando mágicas revelações no voo das aves (leitura, aliás, bastante vã, como nos conta a vitória do gémeo Rómulo, fundador da Urbe), é verde e destacada, embora embutida no coração arqueológico da cidade. As ruas parecem adormecidas por encanto, indiferentes perante o caos do movimento quotidiano, como que sonhando uma realidade diferente da realidade.

Com Luciana Stegagno Picchio, nome maior da Lusitanística em Itália

E foi nessa torre que Maria Helena determinou passar os últimos anos da sua vida, mantendo vivo o seu interesse pelo mundo externo, mas apartada dele, protegida dele, envolta na frescura do bairro e no seu esquecimento. Mistura-se, na minha ideia, a imagem de uma fidalga antiga, de torre, à de uma diva do cinema que não quis expor o público à injúria que o tempo operou na sua beleza – conquanto a sua grande beleza tivesse sempre evoluído, sem nunca se degradar. Todavia, numa espécie de esconjuro relativo a esse mesmo tempo, lá estava à porta, comovente na sua singeleza e completamente descontextualizado, o azulejinho nacional-popular: “De hora a hora Deus melhora”.

Com-o-marido-Prof.-Roberto-Barchiesi-em-Santo-António-dos-Portugueses

Paradoxalmente, é a ela – autoexilada na sua torre e, portanto, humanidade que foi conquistando o mito ainda em vida – a quem eu devo a melhor definição de liberdade, a quem mais limpidamente ouvi o som dessa palavra. Nela, liberdade era mais que modernidade – e se bom exemplo há, na sua geração, de mulher moderna e emancipada pela força da sua personalidade e inteligência, é sem dúvida Maria Helena. Nela, a liberdade era sabedoria adquirida nos anos, era terreno conquistado com esforço quotidiano, tanto em gestos e atitudes de independência, quanto nos momentos em que as circunstâncias a privaram dessa liberdade, “coisa” que me garantiu ser, de todas, a mais preciosa.

Fotografada por Marc Le Noir

Para além disso, surge a meus olhos evidente e perfeita a associação entre Maria Helena Portugal e este quadrissílabo de ascendência latina, acentuado naturalmente na penúltima, como de regra – quase a revelar o verbo “dar” escondido em si, numa terceira do singular do presente do indicativo: li.ber.da.de. Palavra feminina, no italiano como no português, palavra à qual sem dúvida o seu amor filológico pelas coisas deste mundo regressou muitas e muitas vezes.

Aliás, penso que, se se lhe pedisse para se identificar com um “livro da sua vida” – como naqueles ingénuos jogos que se faziam à mesa, depois das refeições, no fim do século XIX – ela não hesitaria um instante em dar resposta redonda: DICIONÁRIO. Desses tomos, em todas as formas e de todas as línguas, havia-os aos montes no nº 8 da Via Ercole Rosa: colecionava-os, manuseava-os, estudava-os, punha-os numa estante baixa que tinha ao pé de si, na saleta em que recebia, e estabelecia com eles uma relação de íntima amizade, que, como sabemos, implica compreensão profunda, entreajuda, respeito e, justamente, liberdade.

O seu apelido, Portugal, tinha origem ilustríssima, vindo em linha direta do segundo Condestável do reino, o tal forte Nun’Álvares Pereira de que Camões fala no canto VIII – «Ditosa Pátria que tal filho teve!» – antepassado em que tinha o maior orgulho e de quem lhe vinha, talvez, genética ou humanamente, a santidade do seu coração e a elevação da sua inteligência. Recordo bem a sua alegria quando Bento XVI canonizou São Nuno de Santa Maria em abril de 2009… Apesar desse santo na linhagem, a vida de Maria Helena esteve longe de ser fácil, pois o dinheiro nunca acompanhou em abundância a sede da sua alma, a sede de saber, de estudar e viajar, a sede de ser.

O reencontro com a amiga de juventude Maria de Jesus Barroso em 1995

Do Liceu (então feminino) Filipa de Lencastre – onde conheceu e ficou amiga de Maria de Jesus Barroso, que haveria de reencontrar, emocionadamente, muitos anos mais tarde, em Roma – passou para a Faculdade de Letras de Lisboa, onde cursou de 1940 a 1944 e se licenciou com brilhantismo em Germânicas. Vêm dessa altura amizades que cultivou e manteve toda a vida, apesar de todas as distâncias geográficas e temporais, que diversamente do que hoje acontece, não eram encurtadas pelas facilidades técnicas da comunicação imediata. Vem dessa fase o conhecimento e amizade com o poeta Sebastião da Gama (também ele aluno de Letras, por esses anos), que recordava sempre na Arrábida, a mágica Serra Mãe (1945) por ele cantada e onde não logrou recuperar da doença, que tão cedo o levou.

É pouco mais tarde, no início dos anos 50, que chega a Lisboa o jovem professor Roberto Barchiesi (1929-2002) para ocupar o lugar de Leitor de italiano na Faculdade de Letras de Lisboa e ensinar no Instituto de Cultura da Rua do Salitre, onde uma bela aluna o cativa de forma especial: era já fluente num número considerável de línguas e aprestava-se então a aprender a de Dante, só para poder manter correspondência com um “amigo” italiano, que conhecera numa viagem a Barcelona… Naturalmente, a tal correspondência ficou interrompida pelo casamento com Maria Helena Portugal em 1954, a que se seguiu imediatamente o nascimento dos dois filhos mais velhos, Paulo e Alexandre.

O almejado regresso dos Barchiesi a Roma em 1962 (e ao bairro de San Saba, tradicional berço desta família, que contou vários e notáveis poetas romanescos, isto é, escritores no antigo dialeto romano) não foi imediatamente coroado de sucesso. Necessidades económicas, acrescidas do próximo nascimento da mais nova filha do casal, Daniela, levaram-nos a partir dois anos depois para Tel Aviv, onde, de novo, Roberto Barchiesi lecionou no Instituto Italiano e nas Escolas públicas. Será apenas no verão de 1966 que a família se irá instalar definitivamente em Roma onde, não vendo os seus diplomas reconhecidos na sua segunda pátria, Maria Helena é obrigada a licenciar-se de novo – e de novo com brilhantismo, na Universidade La Sapienza.

E, tal era a sua qualidade académica e humana, que Giuseppe Carlo Rossi, o primeiro catedrático de Língua e Literatura portuguesas na prestigiada Universidade l’Orientale de Nápoles, convidou Maria Helena para reger essas cadeiras no início dos anos 70. Talvez tenham sido em parte as convenções da época, ou a inteligência de uma harmónica gestão familiar, ou simplesmente o generoso desapego que tinha às suas coisas – o que é certo é que Maria Helena abdicou dessa oportunidade e propôs que o convite fosse feito ao seu marido. Roberto Barchiesi tornou-se, assim, o homem que ensinou com garbo e rigor científico gerações e gerações de estudantes, sendo hoje um nome incontornável entre os pioneiros da lusofilia em Itália.

Entretanto, Maria Helena Portugal deixa também a sua marca indelével nas centenas de alunos que tiveram a sorte de a ter como professora de Português na Universidade La Sapienza e no Instituto Português de Santo António (o polo cultural da nossa Embaixada junto da Santa Sé) onde, com o marido, estruturou e dirigiu durante mais de 40 anos os cursos de língua e cultura. A sua maestria transpirava de todos os seus poros, até no modo elegante como caminhava e no tom de voz com que falava, até na forma com que iniciava invariavelmente as suas aulas para alunos estrangeiros, que nunca haviam contactado com a nossa língua: e era com as primeiras estâncias d’Os Lusíadas, «As armas e os barões assinalados (…)». Um dia explicou-me o motivo de tão insólita e ousada forma de começar um curso básico – é que se encontravam ali concentradas todas as sonoridades fundamentais da nossa fonética!

Feminina, no que de mais forte há no termo, nessa grandeza discreta com que soube estar ao lado de um homem importante. Feminina, como como mãe firme e amorosa e como avó interveniente na educação dos netos, apesar de Valentina e Riccardo viverem na Suécia. Feminina, enfim, como mulher de uma beleza e de uma elegância que pareciam contraponto perfeito da agudeza do seu espírito, da profundidade da sua inteligência, da sua generosidade. Cristã no sentido completo do termo, identificada nessas sabedoria e bondade, mas também no sofrimento, que suportou sempre com uma dignidade de rainha.

Maria Helena, aliviada das dores e das preocupações que a tolhiam, terá certamente encontrado aquela leveza ampla e luminosa que tão profundamente condizia consigo e que me apetece chamar – rimando com eternidade – de LIBERDADE.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *