António Bica

O PARTIDO "CHEGA" E OS CIGANOS (4)

O auto-preconceito de os judeus serem o povo eleito por Deus e de a terra de Israel lhes ter sido destinada (4)

Foto de João Pereira (http://jlplive.blogspot.com/)

 

Quanto aos judeus, demorarão, nas palavras citadas de Gilad Atzmon, a abandonar o conceito de constituir povo eleito por Deus para se transformarem em seres humanos comuns. Para isso têm que tomar consciência de que esse conceito de serem gente escolhida por Deus de entre todos os outros é mítico e lhes é prejudicial.

Porque sempre se têm apegado a ele, sendo, desde a antiguidade e em significativo número, estudiosos dos seus livros religiosos, consequentemente letrados, não se considerando no dever de observar em relação aos não judeus as regras de convivência que devem observar entre eles, depois de a classe dominante judaica ter sido forçada a abandonar a Judeia e a dispersar-se pelo Império no século 1 pelos imperadores romanos Vespasiano e depois Adriano, onde se fixaram, prosperando economicamente e em influência social.

Os judeus que então viviam do seu trabalho na Judeia como agricultores, pastores, artesãos e outras actividades humildes, tendo deixado de ser enquadrados religiosa e culturalmente pela classe dominante judaica forçada a dispersar-se pelo Império Romano, vieram a converter-se ao cristianismo com a sua adopção como religião oficial do Império no século 4 e depois ao islamismo após a conquista da Palestina, no século 7, pelos árabes. Os descendentes desses antigos judeus, que desse modo perderam a identidade religiosa e cultural judaica, constituem o povo que actualmente vive na Palestina convertido ao islamismo e sofre a opressão dos descendentes dos judeus dispersos pelo Império Romano no século 1.

Os judeus, por se considerarem distintos e superiores aos povos onde viviam e prosperavam, tenderam a tornar-se arrogantes com esses povos, embora subservientes com as classes dominantes que serviam como administradores de bens, cobradores de impostos, prestamistas, quadros administrativos do poder público, cobradores de impostos e outras actividades. Isso sempre levou o povo comum a sentir grande hostilidade contra os judeus.

Quando, por razões diversas, as classes dominantes e o poder público passaram a achar conveniente abater a influência judaica, fizeram-no com apoio popular, frequentemente com massacres. Assim aconteceu na Idade Média na Inglaterra, na França, na Alemanha e na Itália pelos séculos 12 a 14 e pelo século 15 e começo do 16 na Espanha e em Portugal; no século 19 em países eslavos; no século 20 na Alemanha nazi.

 

O Estado que os judeus, baseados nesse mítico conceito de serem o povo escolhido por Deus, talharam pela força na Palestina em 1948, tem vindo a ser alargado pelo mesmo método desde então contra o povo palestiniano, assenta a sua “legitimidade ideológica” na sua concepção tribal de serem o povo escolhido por Deus único e de o Deus único lhes ter miticamente prometido essa terra. Mas é ilegítimo à luz do direito internacional, nomeadamente de resoluções do Conselho de Segurança.

Não se lembram os judeus que a ocupação pelas Cruzadas europeias das terras palestinianas e sírias começou em 1097 com a tomada de Niceia, prosseguiu com a conquista de Jerusalém em 1099 reconquistada pelo poder islâmico em 1244, até acabar na perda de S. João de Acre em 1291 última ocupação de terra da Palestina pelos Cruzados, quase 300 anos depois da tomada de Niceia.

É de admitir que a ocupação da terra palestiniana pelo Estado judaico de Israel não resista à progressiva tomada de consciência pela população mundial da injustiça da violenta expulsão do povo palestiniano das suas terras, em 1948, para nelas se instalarem os que se autoconsideram judeus e ao provável futuro abandono pelos EUA do seu até agora incondicional suporte, apesar dos sucessivos atropelos pelos judeus dos direitos dos palestinianos, que constituem crimes contra os direitos humanos.

O actual (2020) desenvolvimento da extracção de petróleo nos EUA e o progressivo desenvolvimento de tecnologias de produção de energia a partir de fontes energéticas renováveis poderá vir a fazer perder interesse aos EUA em o Estado judaico de Israel continuar a desempenhar a sua função de testa de ponte militar para o controlo estratégico norteamericano do petróleo e do gás natural do Médio Oriente.

 

Outras comunidades humanas menos conhecidas, mas numerosas, mantêm cultura tribal por todo o mundo, na Ásia, na África, na América, na Austrália e nas ilhas do Pacífico. Em cada caso há que ter em conta as especificidades da sua cultura de modo a respeitá-las e a adoptar as medidas necessárias respeitadoras da sua dignidade para a sua integração nos valores dos países em que vivem de acordo com o princípio da igualdade entre todos os humanos.

Nota: O texto segue em próxima edição da Gazeta

Ed 791 (15/10/2020)

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