Entrevista a Tiago Manuel da Silva Marques da Costa

Farmacêutico em São Pedro do Sul

A rubrica “Gente Que Ousa Fazer “será assente numa entrevista a alguém que tenha algo válido no seu percurso de vida. Gente que sabe o que quer e, acima de tudo, que luta por aquilo que quer. As entrevistas serão sempre encaminhadas de forma a mostrar o lado melhor que há em cada um de nós e, dentro do possível, ousar surpreender o leitor. Serão entrevistas com a marca das nossas gentes, da região Viseu Dão Lafões, de todos os quadrantes e faixas etárias. Vamos a isso!

 • Paula Jorge

 

Ficha Biográfica

Nome: Tiago Manuel da Silva Marques da Costa

Idade: E isto passa tão rápido… 42

Profissão: neste momento e em exclusivo farmacêutico

Livro preferido: Não tenho livro preferido, para mim a formação humana e cultural de cada um é feita ao longo dos anos, e, como tal, a personalidade da adolescência não será a mesma do homem, e mais tarde do pai ou avô. Os livros também têm essa influência.

Destino de sonho: Tantos, o mundo está cheio de lugares maravilhosos.

Posso enumerar rapidamente um trekking nas montanhas de Virunga, no Ruanda para observar os gorilas no seu habitat natural, ir à Islândia ver o fenómeno da aurora boreal, nepal e tibete, Parque Nacional de Serengeti na Tanzânia, Japão, route 66… Tenho muitos…

Personalidade que admira: o meu pai pelos valores que me transmitiu. A Família que eu escolhi, a Teresa e o meu filho pelo amor e carinho.

 

Muito obrigada, Dr. Tiago Costa, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”.

Paula Jorge (PJ) – Comecemos pelo princípio.

Pode descrever o seu percurso académico?

Tiago Manuel da Silva Marques da Costa (TMdC) – Toda a minha vida de estudante foi passada na vila de São Pedro do Sul, agora cidade, e como era agitada a vila de São Pedro do Sul! Fiz aqui o ensino básico e secundário. Sempre tive uma atração por Lisboa, foi onde nasci e onde acabei por entrar na Universidade.

Em 2002 conclui licenciatura em Nutrição e Engenharia Alimentar pelo ISCS, Faculdade Egas Moniz.

Em 2007 conclui a licenciatura em Ciências Farmacêuticas. Fiz uma pós-graduação em Gestão Farmacêutica, uma parceria entre a Universidade Católica e a Cooprofar e no ano seguinte concluí o mestrado em Ciências Farmacêuticas, com o tema: farmacêutico comunitário: um profissional de saúde ou um dispensador qualificado de medicamentos.

Gosto de várias áreas da saúde e como profissionais de saúde penso que podemos ajudar o utente de variadas formas, aliás, como se pode constatar pelo meu currículo. A atualização e aquisição de conhecimentos é fundamental, por isso, voltei aos estudos recentemente e em 2014 concluí a licenciatura de Ciências da Nutrição e em 2015 concluí o curso de Medicina Tradicional Chinesa e Ryodoraku – Acupunctura.

Em traços gerais foi este o meu percurso académico, com bastantes desafios, mas muito interessante.

 

PJ – Fale-nos do seu trajeto profissional.

TMdC – Iniciei o meu percurso profissional ainda enquanto estudante em Lisboa, a trabalhar no call center do banco BPI. Depois de finalizar a minha primeira licenciatura, estagiei na empresa Próvida, onde trabalhei como engenheiro alimentar. Entrei como o único engenheiro alimentar da empresa, um enorme desafio para um recém-licenciado. Aprendi muito com Cesaltina Sousa, a proprietária da empresa, uma senhora fantástica, de uma simplicidade e humildade notáveis e uma trabalhadora incansável. Lá dediquei-me a implementar um sistema de HACCP, mas para além disso, ela incentivava-me a passar por diversas áreas. Foi, literalmente, meter as mãos na massa, porque até pão, bolos e empadas fiz. Foram uns meses muito giros.

Após concluir a licenciatura em Ciências Farmacêuticas em 2007, inscrevi-me na ordem dos farmacêuticos a 6 de março desse ano, curiosamente no mesmo dia em que a farmácia Arminda Silva (onde trabalho atualmente) faz anos, e comecei a trabalhar com o meu pai na farmácia Elvira Coelho. Como tínhamos um posto em Manhouce, deslocava-me algumas vezes a Manhouce, posto esse que passou anos mais tarde a farmácia, e, farmácia essa que a 6 de fevereiro de 2017 abriu portas em São Pedro do Sul, na rua 25 de abril, com o nome da minha avó materna, Arminda Silva.

 

PJ – Lida diariamente com dezenas de pessoas/clientes/amigos. Muitas histórias terá guardadas durante todo o seu percurso profissional. Quer partilhar connosco aquela que mais o marcou?

TMdC – Existem inúmeras HISTÓRIAS sim, mas as histórias que mais me marcaram e ainda marcam hoje em dia, é o carinho e admiração com que me falam da minha avó Elvira Coelho, de como na altura era a farmacêutica, a médica, a enfermeira, sempre disponível para ajudar a população, até mesmo salvar vidas. É muito bom sentir que a minha avó é lembrada com tanta admiração, que através da dedicação às pessoas do nosso concelho, marcou gerações. Note-se que estamos a falar em 1918, há mais de 100 anos atrás, que foi quando ela obteve o diploma de farmacêutica, nesta altura talvez uma das poucas mulheres deste país licenciada.

Fico muito comovido quando ainda hoje em 2021 assisto a pessoas, utentes e amigos, que se emocionam e me emocionam a falar dela.

Sem dúvida que deixou um legado muito grande, e todos os dias existe um esforço no meu trabalho de forma a respeitar esse legado e de alguma forma, dar-lhe continuidade, mantendo vivo o que ela representou para as pessoas.

 

PJ – Que lições tirou desta marcante experiência?

TMdC – A maior lição que tirei é que devemos ser humildes, honestos, temos que ser profissionais e perfeccionistas naquilo que fazemos. Mas, essencialmente, temos que ajudar os outros. Não vivemos sós, hoje em dia existe um egoísmo muito grande, uma pressão enorme para nos centrarmos somente nas nossas vidas, acabando por se perder muita da interajuda, da vizinhança e companheirismo que se vivia nas vilas. Todos temos deveres perante a sociedade.

Sempre ouvi a minha avó Elvira dizer: quando vamos trabalhar os nossos problemas ficam no tapete de entrada da farmácia. Isto para que possamos exercer o nosso trabalho da melhor forma, ajudar as pessoas que nos procuram, porque de uma maneira geral as pessoas que se deslocam à farmácia precisam da nossa atenção, precisam dos nossos cuidados, dos nossos conhecimentos.

 

PJ – O que é ser um bom profissional na sua área, ao serviço de uma comunidade, neste caso a comunidade de S. Pedro do Sul?

TMdC – Ora um bom profissional o que é? Melhor, o que é um bom profissional de farmácia comunitária? O que são farmácias comunitárias?! Muito resumidamente, as farmácias comunitárias desempenham funções de verdadeiro serviço público na área da saúde. Garantem um serviço de proximidade, de estreita relação com os utentes e com as comunidades locais, de apoio e aconselhamento. Inclusive, são nestas que os portugueses conseguem ter um maior apoio no controlo das suas doenças crónicas e encontram um acompanhamento continuado. São nestas que se criou uma relação de confiança entre o farmacêutico e o utente.

Citando Heplerc, Strand l 1990 – um bom profissional através dos cuidados farmacêuticos, faz uma dispensa responsável da terapêutica farmacológica com o objetivo de alcançar resultados definitivos que contribuam para a melhoria da qualidade de vida do doente.

Um bom profissional tem um papel fundamental na prevenção e gestão da doença, bem como da manutenção do bem-estar psicológico e físico.

Para além das valências que já referi, os cuidados farmacêuticos envolvem outros aspetos importantes, nomeadamente, prevenir, identificar e resolver potenciais problemas relacionados com os medicamentos.

E como fazemos isto? Passa por fazermos um acompanhamento farmacoterapêutico, por exemplo, na farmácia Arminda Silva não queremos dar por concluído o nosso trabalho no momento da dispensa final, o acompanhamento durante o tratamento é essencial.

Respondendo então, à sua pergunta, estas são as maiores diferenças entre um bom profissional e um dispensador de medicamentos.

 

PJ – Normalmente os farmacêuticos têm sempre um ombro amigo, servem de psicólogos e gestores de emoções à população. Concorda com esta afirmação?

TMdC – Claramente. O fácil acesso que a população tem ao farmacêutico, e/ou às equipas de farmácia, fazem dele ou destas a 1ª linha de socorro, digamos. Em muitas zonas do território nacional, as farmácias são a única estrutura de saúde disponível capaz de prestar cuidados de proximidade, sendo nestes locais o farmacêutico o único profissional capaz de evitar deslocações desnecessárias a outros serviços de saúde perante situações de doença, através da dispensa e aconselhamento sobre o uso correto de medicamentos não sujeitos a receita médica e medicamentos de venda exclusiva em farmácia. Temos um papel muito determinante na promoção da literacia em saúde. O papel do farmacêutico na área da saúde pública tem vindo a revelar-se determinante. O farmacêutico comunitário tem uma posição privilegiada para poder contribuir em áreas como a gestão da terapêutica, administração de medicamentos, determinação de parâmetros, identificação de pessoas de risco, deteção precoce de diversas doenças e promoção de estilos de vida mais saudáveis… e confidentes também.

Para além disto e na qual a sua preparação académica lhe aporta certamente uma maior diferenciação face aos restantes profissionais de saúde sempre foi, continua a ser e será a área do medicamento. O Farmacêutico é altamente competente em farmacoterapia, sendo assim determinante o seu papel na promoção do uso responsável do medicamento, sempre em articulação com os outros profissionais de Saúde.

Esta articulação, onde cada profissional dá o melhor das suas competências e esta interajuda entre todos, faz do nosso sistema de saúde um dos melhores do mundo. Só não é melhor, porque lamentavelmente tem havido um enorme desinvestimento na saúde.

A título de curiosidade, estudos realizados por inquérito a amostra da população portuguesa em junho e dezembro de 2019 as farmácias são a 2ª rede mais valorizada enquanto prestador de cuidados de saúde. Em primeiro estão os centros de saúde, USF.

PJ – Como lidou com a situação de pandemia, devido à covid-19, que afetou enormemente todos os setores da sociedade?

TMdC – Todos temos sido uns guerreiros na luta que esta pandemia nos obrigou a combater e para a qual não estávamos preparados. Muito rapidamente aquilo que para nós era um dado adquirido deixou de o ser.

Acredito que o mundo tem de mudar sobre a forma como encara a vida, nomeadamente a forma como encaramos os recursos limitados do nosso planeta e como enfrentamos as alterações climáticas.

Gostaria de deixar um muito obrigado à minha equipa da farmácia Arminda Silva que teve um comportamento profissional e humano enormes.

 

PJ – Para além da sua ocupação profissional, que outras paixões nutre, que o completam enquanto pessoa?

TMdC – Sou um homem de variadíssimas paixões, entre elas o desporto que sempre pratiquei desde muito cedo, pela mão do meu pai, que me levou a praticar várias modalidades desde criança (kung-fu, natação, atletismo, salto em altura, lançamento de peso, corrida fundo, meio fundo, velocidade, andebol), até ter descoberto o meu grande amor, o basquetebol. Desde então, as restantes modalidades passaram para segundo plano. Fui muito feliz a jogar, primeiro no Sampedrense, de onde guardo recordações fantásticas, com os meus colegas de equipa, com os dirigentes, que sempre foram incansáveis connosco, nessa altura uns adolescentes a transbordar de hormonas e paixão pelo basquetebol.

Outra das minhas paixões são as viagens, algumas já fiz, outras que ainda quero realizar. A leitura, a música, o cinema e o teatro também ocupam um espaço importante na minha vida.

 

PJ – Imagine a sua vida sem a sua ocupação profissional, como seria?

TMdC – Gosto muito de ser farmacêutico, gosto mesmo muito do que faço, dá-me alegria e satisfação. Tenho muita sorte por isso. Mas se, por algum motivo, tivesse escolhido outra área, decerto iria profissionalmente seguir os pilares que me acompanham na vida, e provavelmente iria gostar.

 

PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?

TMdC – ATENTO.

 

PJ – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?

TMdC – O meu coração… bem!! Citando Sebastião da Gama “O sonho comanda a vida”. E se eu pudesse dizer algo ao meu coração, talvez lhe dissesse para continuar a bater por mais uns bons anos, porque ainda tenho muitos sonhos por realizar, um em especial que é acompanhar o crescimento do meu filho.

 

PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma enorme honra, Dr. Tiago Costa! Desejo-lhe a continuação de um excelente trabalho e MUITO OBRIGADA! Peço-lhe que deixe uma mensagem breve a todos os nossos leitores.

TMdC – Felicidade é quando o que pensamos, o que dizemos e o que fazemos estão em harmonia”- MAHATMA GANDHI

Gostaria muito de agradecer o CONVITE. Foi um enorme prazer.

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