DA FESTA DO AVANTE AO CUBO MÁGICO

Carlos Vieira e Castro

DA FESTA DO AVANTE AO CUBO MÁGICO

À memória da minha amiga e camarada Maria do Carmo Bica.

O PCP faz 100 anos no dia 6 de Março de 2021. É o mais antigo partido político português sem qualquer interrupção temporal. Não nasceu, como sucedeu com a maior parte dos partidos comunistas, de uma qualquer cisão de um partido socialista filiado na II Internacional (que em Portugal praticamente não existia, uma vez que o Partido Socialista, fundado em 1875, não passava de um grupúsculo sem implantação social e, face a divergências quanto à participação de Portugal na I Guerra Mundial, rapidamente se dividiria e seria ultrapassado pelo Partido Republicano), mas  brotou da influência entre o operariado português, e em particular de sindicalistas revolucionários, anarquistas e anarco-sindicalistas, da Revolução Russa de 1917, o mais importante acontecimento histórico do século XX, a par da derrota do nazi-fascismo, o braço armado do capitalismo internacional que, descontrolado pela paranóia de Hitler, se haveria de virar contra o próprio promotor, derrotado, também devido, em grande parte, ao pesado sacrifício do povo soviético. Pela primeira vez na história, os trabalhadores de um país tomaram o poder e conservaram-no, apesar de invadidos por 16 exércitos de países estrangeiros (alguns ditos democráticos, como os EUA, o Império Britânico e a França) em apoio das classes aristocráticas e capitalistas que tinham apoiado a brutalidade repressiva do czar contra o seu próprio povo e, a pretexto de obrigar os comunistas a entrar na Grande Guerra de 1914, de que se tinham retirado por a considerarem contrária aos interesses dos povos europeus, promoveram uma  guerra civil que, contudo, os trabalhadores russos e o seu exército vermelho haveriam de vencer, unindo na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas os povos cansados de fome, de guerra e da selvagem exploração económica.

É certo que a URSS, orgulhosa das suas vitórias e do desenvolvimento sócio-económico que a levaria  a ultrapassar os EUA em várias áreas, incluindo a corrida espacial, acabaria por criar uma privilegiada classe dirigente  apostada em a transformar numa superpotência imperialista (ou “social-imperialista” como a designavam os partidos “maoistas”).

Contudo, o PCP foi o principal partido a resistir à repressão do fascismo salazarista. Mas não foi o único. Muitos grupos comunistas dissidentes do PCP também lutaram heroicamente contra o fascismo e sofreram as prisões e torturas da PIDE. Em 1999, alguns destes souberem unir-se a outros dissidentes mais recentes e  construir um partido – o BE –  que se impôs na vida política nacional pela sua coerência e competência na apresentação de propostas e em fazer aprovar soluções para os principais problemas que afectam a vida dos portugueses.  Hoje, o PCP já não é tão hegemónico na esquerda, mas continua a ser essencial para a construção de uma alternativa progressista, como aconteceu com a “geringonça” que pôs fim aos desmandos austeritários da direita de Passos e Portas.

Por tudo isto, o PCP não precisava de se ter posto em bicos de pés, alardeando a participação de 100 mil pessoas na Festa do Avante, para, após uma polémica à boa  maneira da “silly season”, recuar para as 30 mil pessoas e acabar por ser obrigado pela DGS a reduzir para 16 mil.

Pior na fotografia ficou Rui Rio, que à falta de propostas construtivas resolveu liderar os ataques à Festa do Avante, enquanto se calava perante os jantares e comícios do Chega com centenas de pessoas sem a devida distância física e medidas sanitárias adequadas. Já para não falar das 50 mil pessoas no 13 de Setembro em Fátima. Mas Rui Rio já se tinha posicionado como possível aliado do deputado populista, apoiado por fascistas nacionais e internacionais como Marine Le Pen,  mandando assim às urtigas a sua alegada estratégia do “bloco central”. É o “remake” do filme que já vimos um pouco por toda a Europa. A direita, incapaz de conter a transferência de votos para partidos populistas, racistas, xenófobos e fascistas paridos por ela própria (casos do Vox e do Chega), acaba resvalando para a extrema-direita.

Quem, como eu, já foi várias vezes à Festa do Avante, talvez a maior festa nacional, e conhecendo as dimensões do espaço, agora ampliado, não duvidou da capacidade da organização em fazer cumprir as normas sanitárias da DGS.

Também em Viseu há quem acuse o Cubo Mágico de pôr em risco a saúde dos viseenses, face à ameaça da Covid 19, mas a verdade é que este sucedâneo da Feira de S.Mateus está organizado de modo a respeitar as regras da DGS, com excepção dos “comes e bebes” da Rua Direita, como a organização acabou por reconhecer. As diversões cumprem as regras de higiene e segurança sanitária e os  espectáculos, tanto no Parque da Cidade como no Palco da Feira, têm as entradas limitadas e controladas e as cadeiras e os espectadores são higienizados e afastados por grupos familiares. Felizmente para os artistas, técnicos do espectáculo, empresários e para tantas pessoas cansadas de confinamento, das crianças aos idosos todos puderam assistir a concertos dos mais importantes artistas e grupos de música portuguesa da região, alguns reconhecidos nacional e internacionalmente.

Não é por aqui que o executivo camarário deverá sair do palco, mas sim pela incompetência das propostas e pelas  obras prometidas e eternamente adiadas e, eventualmente, pelas cenas escondidas por detrás do pano.

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