Francisco de Almeida Dias
Rubrica Portugal é mátria
Foi com grande choque que recebemos a notícia do desaparecimento da nossa diretora, Maria do Carmo Bica (1963-2020) engenheira agrícola, ativista política em prol do desenvolvimento da região, autarca e dirigente do Bloco de Esquerda. Tinha apenas 57 anos de idade e lutava há vários meses contra um cancro, como foi já amplamente divulgado pela imprensa.
Numa interessante entrevista que deu enquanto candidata à presidência da autarquia de São Pedro do Sul – disponível na net em https://www.archive.binauralmedia.org/portfolio-items/sao-pedro-do-sul-maria-do-carmo-bica/ – recorda a precocidade com que tomou consciência cívica do mundo, a que a influência familiar, com vários membros próximos ativos na militância comunista na clandestinidade, não foi alheia. Nessa mesma entrevista, e a propósito da hostilidade que sentia contra os Comunistas no pós-25 de abril, lembra a postura social a que se sentia então obrigada, para legitimar a sua convicção política: «Desde cedo eu percebi que tinha que ter uma atitude na vida completamente irrepreensível. Para viver aqui e ser respeitada, afirmando-me como comunista, eu tinha que ser boa aluna, eu tinha que vestir de forma discreta, eu tinha que ter uma atitude na vida de forma a que ninguém me pudesse apontar nada.»
Maria do Carmo Bica
E assim foi, de facto, a vida de Maria do Carmo Bica: irrepreensível. Depois dos primeiros estudos em Vouzela e São Pedro do Sul, formou-se na Escola Superior Agrária de Coimbra e pós-graduou-se na Faculdade de Economia da mesma Universidade, tendo ingressado, no início dos anos 90, no Ministério da Agricultura, trabalhando ultimamente na Rede Rural Nacional da Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural. Para além disso, dirigiu durante 18 anos a Associação de Desenvolvimento Rural de Lafões; presidiu à Cooperativa 3 Serras de Lafões; foi dirigente da ANIMAR – Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Local; fundou a Associação Regional de Agricultores de Viseu, que representou na Confederação Nacional de Agricultura. Militante comunista nos anos 1980 e 1990, passou pela UEC e pela JCP, foi deputada municipal em Vouzela entre 1989 e 1993, candidata às legislativas de 1991 e 1995, encabeçando a candidatura à autarquia de Vouzela em 1997 e, em 2013, à autarquia de São Pedro do Sul, na lista do Bloco de Esquerda.
O que mais ressalta, pois, do seu percurso profissional e político, é a coerência com que seguiram ambos a sua grande preocupação: «a defesa de uma sociedade mais justa com igualdade de oportunidades para todos e que isso era absolutamente fundamental para a minha região», como diz, na já citada entrevista.
A aproximação ao Bloco de Esquerda, que se dá em 2004 a convite de Miguel Portas, e que a verá integrar vários órgãos concelhios e distritais do partido, leva-a também a dinamizar, nos últimos anos, o Grupo de Trabalho de Agricultura, Alimentação e Desenvolvimento Rural do BE, e a coordenar o Grupo de Trabalho de Agricultura do Partido da Esquerda Europeia – em cujo âmbito se multiplicou em atividades sobre economia social e solidária.
Via dei serpenti
Entre 2014 e 1 de julho deste ano assinou mais de três dezenas de artigos, publicados em https://www.esquerda.net/ versando sobre temas da floresta, do ambiente e da alimentação (“O vírus dos grandes incêndios já tem vacina”, “O sistema alimentar global, a crise climática e o aumento da pobreza e das desigualdades”, entre os mais recentes), de defesa do interior, dos agricultores e da democracia local, de economia social e solidária e sobre um dos temas que mais caro tem sido à família Bica, o dos baldios (“Desconstruir a demagogia sobre as ‘terras sem dono’”). A 6 de março do ano passado um documentado, lúcido e combativo artigo eleva-se como verdadeiro manifesto de defesa dos direitos e proposta de criação do Estatuto da Mulher Agricultora e Rural:
«Para além das desigualdades que atingem as mulheres em geral, as que estão ligadas à agricultura e ao rural sofrem ainda de maior invisibilidade, isolamento, conservadorismo, machismo, violência doméstica, falta de reconhecimento profissional. Tudo isto resulta em grave prejuízo para as condições de vida destas mulheres, no acesso ao sistema da segurança social e outros serviços públicos, nos problemas de saúde específicos, na fraca mobilidade e nos vários problemas associados à profissão. Cada vez mais há mulheres imigrantes nos territórios rurais, recrutadas para as atividades agrícolas. Algumas para trabalho temporário, mas outras que ficam e acabam por se fixar nas povoações junto às explorações agrícolas. A todas é preciso assegurar direitos laborais e sociais.»
Apetece-me fazer uma rápida e inusitada associação entre a figura de Maria do Carmo Bica e a de Mario Monicelli (1915-2010), um dos mais célebres realizadores italianos da sua geração, autor de I soliti ignoti, La grande guerra, L’armata Brancaleone e Amici miei. Tal associação nasce, não só da sensibilidade social e política que une estes dois personagens e pelo papel ativo com que cada um deles, com o seu trabalho e a sua obra, puseram em ação essa mesma sensibilidade, mas também por este pequeno detalhe inspirador: na parede do prédio onde o vencedor em 1999 do Leone d’oro alla carriera no Festival de Veneza viveu os últimos anos de vida, no número 29 da via dei Serpenti (a rua de Dona Guiomar, de quem se falava na última “Mátria”), uma placa colocada pela edilidade romana recorda-o como “HOMEM LIVRE”.
Observando a vida de Maria do Carmo Bica, é também essa a sensação que se tem também – a de uma combatente pela liberdade. E bem será que os poderes públicos da nossa terra não esqueçam a filha dos agricultores de Paços de Vilharigues que tanto se bateu, ao longo dos seus anos de atividade política, a favor do desenvolvimento rural da região onde nasceu e contra a desertificação do interior, e a venham em breve a homenagear devidamente, como MULHER LIVRE.
Termino a comovida e inesperada “Mátria” desta quinzena com alguns versos de Tolentino Mendonça, da poesia “Estações”, na sua obra de 1999 publicada pela Assírio & Alvim, Baldios:
A velha ponte de madeira
entre estações
os caminhos que fizemos pelo bosque
marcas luminosas
eventuais
longe de tudo
estendemos minuciosas reservas
mesmo ao que se revela de súbito
cercas em redor das casas
a multiplicação dos ancoradouros
os baldios vigiados da torre
no meio do silêncio
Até sempre, Maria do Carmo Bica, MULHER LIVRE!
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