COISAS e GENTE da MINHA TERRA por Nazaré Oliveira

INSPECTOR HILDEBRANDO PINHO DE OLIVEIRA

Há 15 anos escrevi sobre ele. Completavam-se então 10 anos após o seu falecimento. Por que volto a escrever? Porque no próximo dia 10 de Outubro de 2020 se perfazem 25 anos. Recordá-lo é para mim devoção de amigo e obrigação de sampedrense que recorda outro sampedrense que foi figura marcante no Concelho de São Pedro do Sul. E um quarto de século é momento privilegiado para fazê-lo.

Hildebrando Pinho de Oliveira nasceu em Mourel, freguesia de Carvalhais, no ano de 1925. Conheci-o em meados da década de 40, quando ele frequentava o primeiro curso da recém-criada Escola do Magistério Primário de Viseu que, no primeiro ano, funcionou provisoriamente no Colégio da Via Sacra, onde eu frequentava o ensino secundário. Ali nos cruzámos e demos conta que éramos conterrâneos.

Concluído o curso, o Prof. Hildebrando iniciou a sua carreira docente em terras do seu Concelho. O seu perfil de professor desde logo se impôs. Mas estava destinado a novos rumos. O Dr. Pinho Leónidas, primeiro Director da Escola do Magistério de Viseu, foi chamado a Lisboa para uma tarefa de vulto, que lhe mereceu o título de Pai da Telescola, pelo qual ainda hoje é conhecido. Chamou a colaborar consigo alguns dos seus melhores alunos. Entre eles o Prof. Hildebrando, que foi nomeado Inspector e colaborou activamente na montagem da nova modalidade de ensino. Posteriormente prestou serviço na Inspecção do Ensino Particular. Nessa altura convivemos bastante, ele como Inspector, eu como Professor.

Paralelamente, desenvolveu importante actividade na vida pública do nosso Concelho. Vice-Presidente da Câmara, no dobrar dos anos 50, logo revelou qualidades que haveriam de credenciá-lo para o cargo de Presidente da Câmara Municipal de São Pedro do Sul que assumiu em 1963 e desempenhou durante mais de uma década, durante a qual desenvolveu acção preponderante nas mais diversas realizações para o progresso de Concelho. Obstáculos não lhe faltaram. Em 1967, um pavoroso incêndio devorou o edifício dos Paços do Concelho, onde também funcionavam outros serviços — Tribunal, Finanças e outras Repartições. Além da destruição material, ali se perdeu também uma vida humana, o jovem Manuel Farreca, que abnegadamente ajudava no combate ao incêndio.

Extintas as chamas, logo o Presidente da Câmara, homem de acção e ânimo forte, lançou a palavra de ordem — RESSURGIR — que estampou na imprensa e na proclamação ao Conselho. Iniciou as obras de reconstrução, arranjou soluções para o funcionamento dos serviços e, em quatro anos, os Paços do Conselho estavam recuperados e a Domus Municipalis com óptimas e funcionais instalações. Ao mesmo tempo, pugnou pela construção de um edifício de raiz para os serviços de Justiça.

Tudo o que dizia respeito à educação e ao ensino lhe mereceu especial atenção. Como Inspector, foi o difusor da Telescola na Região. Como Presidente da Câmara, teve acção preponderante na criação da Escola Preparatória, em 1971, e Escola Secundária, em 1972. Acompanhei de perto a primeira porque, por sua instância e do Eng. Armínio Quintela, então Governador Civil, fui encarregado da sua instalação e direcção. Com ele me desloquei à Direcção Geral do Ensino Preparatório, a tratar de assuntos relativos à montagem da Escola. Tive, então e depois, oportunidade de melhor apreciar a eficiência da sua acção, nomeadamente no apoio que me deu. Tenho presente um episódio que não esqueço: num dia em que com ele conversava no seu gabinete de Presidente da Câmara, reparei que na sua secretária tinha uma artística fotografia da nora do Lenteiro do Rio; notando o meu interesse, disse-me: “sabe por que tenho aí essa fotografia? É para nunca esquecer que os alcatruzes da vida política são como os alcatruzes da nora — ora estão em cima ora estão em baixo; assim, se um dia por qualquer motivo inesperado tiver de me ir embora, estou sempre preparado.”

Dir-se-ia que adivinhava! O 25 de Abril encontrou-o quando estava à beira de completar 12 anos de Presidência da Câmara e, por força da lei vigente, a terminar o seu último mandato. A sua inteligência e visão da História logo lhe fizeram compreender a importância do acontecimento e a irreversibilidade da mudança. Sem renegar o seu passado político (e não havia razões para o fazer), soube terminar e manter-se com dignidade. Por isso, pela sua obra e pela forma liberal como exerceu os seus mandatos, teve sempre o respeito de toda a gente dos vários quadrantes políticos.

Retomou a sua actividade profissional de Inspector e continuou a sua intervenção cívica nos mais variados sectores da vida sampedrense, nomeadamente em instituições de solidariedade social. Presidente da Assembleia Geral da Misericórdia, onde já antes havia tido acção relevante na organização dos Cortejos de Oferendas a favor do Hospital; Associações de Bombeiros; Adega Cooperativa de Lafões; Caixa de Crédito Agrícola Mútuo e outras instituições. Por último e na sua vocação de Pedagogo, teve papel relevante na criação da Escola Profissional de Carvalhais, de que foi Director Pedagógico.

Jornalista de qualidade, com ele convivi na Tribuna de Lafões, onde foi colaborador desde o primeiro número. Intensificou a sua actividade jornalística e assumiu o cargo de Director Adjunto do jornal, dando-lhe um segundo fôlego. A Tribuna está repleta de escritos seus: reportagens, artigos de fundo e de opinião, relatos e notícias sobre o que de mais importante acontecia no Concelho e na Região de Lafões. Dominando muito bem a arte da escrita, lia-se com interesse e agrado, pela correcção da forma, pela argúcia e pertinência da análise e, algumas vezes até, pela fina ironia do comentário crítico.

Quando ainda muito havia a esperar da sua acção, a morte levou-o. Com pena minha, por estar a ser preparado para uma operação cirúrgica, nem sequer pude acompanhá-lo no seu funeral. Dele fica a recordação do Amigo, do Homem e do Cidadão que passou pela Vida mas deixou marcas indeléveis da sua passagem, especialmente no seu Concelho.

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