Entrevista a Maria Celeste da Silva Coutinho Carvalho

A rubrica “Gente Que Ousa Fazer” será assente numa entrevista a alguém que tenha algo válido no seu percurso de vida. Gente que sabe o que quer e, acima de tudo, que luta por aquilo que quer. As entrevistas serão sempre encaminhadas de forma a mostrar o lado melhor que há em cada um de nós e, dentro do possível, ousar surpreender o leitor. Serão entrevistas com a marca das nossas gentes, da região Viseu Dão Lafões, de todos os quadrantes e faixas etárias. Vamos a isso!

• Paula Jorge

 

Ficha Biográfica

Nome: Maria Celeste da Silva Coutinho Carvalho

Idade: 59 Anos

Profissão: Empresária

Livro preferido: Todos, mas preferência para os livros de Fernando Pessoa

Destino de sonho: visitar outro planeta

Personalidade que admira: Papa Francisco

 

Muito obrigada, Celeste Carvalho, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”.

Paula Jorge (PJ) – Comecemos pelo princípio. Descreva-nos o seu percurso académico.

Maria Celeste Carvalho (MCC) –  Nasci em Rocas do Vouga – Sever do Vouga, descendente de uma família numerosa, o meu pai teve dezoito irmãos. Na altura os meus avós foram homenageados por serem o casal com mais filhos do distrito de Aveiro.

Vivi com a minha família: pais e irmãos, depois de concluir a escola primária, que era mesmo ao lado da casa onde vivia frequentei o Colégio de Sever do Vouga. Na altura, o Colégio de Sever do Vouga era uma escola de referência, com excelentes profissionais, uma direção muito rigorosa e exigente. Disponibilizava várias atividades: musicais, dança popular, visitas guiadas, desportivas com intercâmbio com outros Colégios. No fundo, preparavam os alunos para a vida e para se inserirem na sociedade. Frequentei este Colégio até ao antigo quinto ano, como neste colégio não havia a área que escolhi, humanísticas, os meus pais resolveram colocar-me em São Pedro do Sul para continuar os estudos, na altura o Liceu ainda funcionava no Solar da Lapa, onde  fiz o 12º Ano. Como não frequentei a faculdade, fui para o Porto, onde fiz o curso de datilografia.

 

PJ – Pode partilhar connosco o seu percurso profissional?

MCC – Iniciei o meu percurso profissional como secretária nos escritórios de uma empresa de construção civil, em Sever do Vouga, durante mais ou menos dois anos. Entretanto casei e regressei à Região de Lafões, precisamente a Caveirós de Baixo, terra natal do meu marido. Foi em Vouzela que continuei o meu percurso profissional, no início com a primeira perfumaria de Vouzela e um salão de cabeleireira, SALÃO MARILETE, onde se formaram várias pessoas que hoje em dia estão no ativo. Não havia esta formação nas Escolas Profissionais e os jovens aprendiam e praticavam nos próprios estabelecimentos, eram verdadeiras escolas. Em simultâneo, abri um antiquário, O ARCAZ VELHARIAS, na Rua Comendador Correia de Oliveira, o segundo antiquário da vila de Vouzela e uma casa de artigos para decoração, A PRENDA. Passado algum tempo, abri outro antiquário ARTITRADIÇÃO na Praça Morais Carvalho, o qual ainda está aberto ao público. Nos anos 90, Vouzela era um autêntico centro de antiguidades, chegava  gente de todo o país para visitar os antiquários, existiam seis casas de antiguidades  e uma galeria de arte. A par com estas atividades, continuo ligada ao turismo com a CASA AIDO SANTO em Nespereira de Oliveira de Frades, Turismo no Espaço Rural, desde o ano 1998 e com A CASA MUSEU HOSPEDARIA em Vouzela desde 2008. Para este ano, está previsto inaugurar a CASA DAS AMEIAS em Vouzela, uma casa quinhentista no centro da Vila que esteve em ruínas mais de quarenta anos. Quero dar-lhe vida e uma nova imagem, pois esta casa é das mais emblemáticas da Região de Lafões.

 

PJ – A sua primeira estadia por terras de Lafões foi no Lar feminino de S. Pedro do Sul. Pode falar-nos dessa sua experiência?

MCC – Nós, as meninas, que nos anos 80 vieram da zona de Sever do Vouga estudar para S. Pedro do Sul, tratávamos a Residência de Estudantes “antigo IASE” Instituto da Associação Social Escolar por Lar, porque era a nossa casa. Esta casa era pertença do Conselheiro da Rainha Dona Amélia. Tinha por finalidade alojar jovens de outras regiões, nós vínhamos na automotora da estação de Pessegueiro do Vouga para a estação de S. Pedro do Sul e era uma viagem maravilhosa, tenho muitas saudades desses tempos e muita pena que tivessem desativado a linha do comboio. O “Lar”, disponibilizava tudo, as refeições, os atoalhados, a roupa de cama, havia horários para tudo, para estudar, para as refeições, havia disciplina, ordem, respeito e assistentes permanentes, noite e dia. A Diretora na altura, uma religiosa, Dona Maria de São José dava-nos apoio nos estudos, mas era muito exigente, em contrapartida nós fazíamos-lhe muitas partidas. Depois éramos castigadas. A minha estadia, não foi muito longa, foram dois anos, mas de facto foram muito marcantes, porque foi a primeira vez que saí de casa dos meus pais, fiz muitas amizades e foi aqui que conheci o meu marido.

PJ – Integra há muitos anos a Confraria dos Gastrónomos da Região de Lafões. Fale-nos da sua prestação neste grande projeto.

MCC – Pertenço à Confraria dos Gastrónomos da Região de Lafões há onze anos, no início como relações públicas, depois, sempre ligada à direção, ultimamente como vice-presidente agora como Grã-Mestre desde 2019. Desde que sou confrade, tenho sugerido e colaborado em vários projetos e várias atividades, como a CARTA GASTRONÓMICA DA REGIÃO DE LAFÕES, editada em 2016, que tem sido um exemplo para outras confrarias. Um testamento, um testemunho e um legado das gerações ancestrais às vindouras. É a preservação e a ponte para manter viva a tradição de uma culinária que foi criada com os produtos da terra e um saber fazer que se foi mantendo ao longo do tempo. Na pesquisa de boas práticas gastronómicas e da procura de novos conhecimentos, tendo a natureza como pano de fundo, boa conselheira e excelente amiga, a confraria publicou também em 2018 o livro “AROMAS DA TERRA”, ervas aromáticas do vale de Lafões.

Neste momento, estamos a trabalhar para a edição de uma nova obra, em homenagem ao Chefe Silva, um dos fundadores e também o grande motor da nossa confraria. Com uma ligação especial a Lafões onde fez muitos e bons amigos e que todos os anos organizava o almoço convívio na Pedra da Broa, em Oliveira de Frades.

A criação da Rota dos vinhos de Lafões que passa por toda a região, começa no Museu Municipal de Oliveira de Frades, Museu Municipal de Vouzela, pelas quintas de vinho, Adega cooperativa e acaba no Balneário Romano das Termas de São Pedro do Sul, irá ser apresentada brevemente, assim como o livro dos vinhos da Região de Lafões.

Mais recentemente, a direção da Confraria, está com uma proposta para a criação de um Centro Interpretativo da gastronomia para a Região de Lafões.

A Confraria dos Gastrónomos da Região de Lafões, com sede em Vouzela, foi fundada em 20 de dezembro de 1996, com a finalidade de investigar e promover o património gastronómico da Região, a defesa da autenticidade da sua Gastronomia, bem como da sua divulgação e promoção Nacional e Internacional. Divulgamos os nossos produtos de excelência, a região tem pratos típicos únicos e deliciosos, a não perder a vitela certificada de Lafões, de raça arouquesa e mirandesa ou cruzamento das duas, o cabrito da serra, o frango do campo criado ao ar livre, a sopa seca, entre outros. Na doçaria, a região é rainha, com doçaria regional e conventual variada e com muita qualidade, como por exemplo o pastel de Vouzela.

O vinho de Lafões, medianamente alcoólico e de ótimas propriedades digestivas, pela sua frescura e especiais qualidades, é um vinho que apetece sobretudo na época quente, sendo este um produto único, com agulha em tudo semelhante aos verdes. Verde é a cor que predomina na Região de Lafões, que tem no rio Vouga e nas paisagens um forte elo de ligação entre os três concelhos: São Pedro do Sul, Vouzela e Oliveira de Frades.

 

PJ – Está também ligada à Vouzelar. Qual foi o seu percurso dentro deste projeto e a função que desempenha atualmente?

MCC – Sim, estou ligada à Vouzelar, há quase quatro anos. Atualmente ocupo o cargo de vice-presidente, temos por missão a preservação e a promoção do Concelho de Vouzela. A Vouzelar nasceu em dezembro de 2015 para promover o concelho de Vouzela, os nossos produtores, agentes turísticos, potenciar o turismo, a região e divulgar os nossos eventos culturais. Ambicionamos ser uma plataforma criativa, onde a marca Vouzela seja promovida com conteúdos digitais e com estratégias de promoção adequadas. A nossa missão é levar Vouzela a todos os cantos do país, fazer com que todos conheçam a identidade do concelho de Vouzela, as suas tradições e costumes. Queremos trazer os de fora e ajudar a potencializar Vouzela como um destino turístico. Promovemos campanhas de divulgação do concelho nomeadamente a edição de vídeos promocionais que despertem a vontade de “Redescobrir Vouzela…” em diferentes temáticas: atividades na natureza, património histórico e cultural, gastronomia, entre outras. Todo o material produzido alimentará os canais a criar, nomeadamente, as redes sociais. Conscientes da relevância do património, enquanto elemento diferenciador do nosso território, entendemos ser uma área estratégica a atuar com ações que proporcionem a sua preservação, valorização e promoção na expectativa de contribuirmos para o reforço da nossa atratividade.

A valorização dos produtos endógenos assume-se como uma ferramenta primordial para o desenvolvimento sustentável das zonas rurais. Para além da criação de riqueza revela-se fundamental na caracterização e desenvolvimento do nosso território. Assim, entendemos ser uma prioridade valorizar estes recursos e o saber-fazer local, redescobrindo os produtos tradicionais como instrumento de valorização territorial, dinamizando projetos locais que estimulem o turismo e a procura dos produtos locais.

 

PJ – Esteve envolvida na criação da Rota do Pastel de Vouzela e na edição do livro “O Pastel de Vouzela”. Pode partilhar connosco como tudo aconteceu?

MCC – A rota foi inaugurada em agosto de 2014 para dar a conhecer melhor um dos ex-libris da Região de Lafões, não foi fácil reconstruir a história do Pastel de Vouzela, pois não há registos escritos, acreditei muito na sabedoria popular, fazendo entrevistas e um trabalho de campo exaustivo e demorado, mas consegui compilar muita informação, que nos permite compreender a origem do Pastel de Vouzela.

A Rota é uma viagem no tempo, para percorrer o caminho da Rota, existem duas opções: pode ser conduzida pelo Conselheiro Morais Carvalho e a esposa Maria Soares de Morais, figuras importantes e de grande destaque na sociedade daquela época, (século XIX) altura do início da confeção do pastel de Vouzela. As personagens são interpretadas pelo ator Pedro Giestas e por mim, vestidos a rigor, encenam e explicam toda a história deste doce conventual, noutra vertente a rota é conduzida apenas por mim em representação da Casa Museu de Vouzela. Todas as pessoas vestem uma capa para fazerem a Rota, com início no Largo do Convento, a Rota passa por doze pontos da Vila de Vouzela que estão identificados em placas. Alguns deles fulcrais na história deste pastel, outros ajudam a compreender todo o processo e não só. Mostram também os pontos mais emblemáticos que marcam a história desta vila, detentora de um grande património cultural e arquitetónico.

A Rota pretende contar a história do pastel de Vouzela, dar mais visibilidade ao Pastel de Vouzela e não só, pretende também divulgar a doçaria conventual e tradicional e trazer mais turismo a esta região que tem muito para oferecer desde a excelente gastronomia, ao património natural, ao ar puro…

Depois de ter feito toda esta pesquisa para a Rota, dei conta que este tema devia ser mais aprofundado achei que era necessário deixar um testemunho escrito para as gerações vindouras, então surgiu a ideia do livro, “O PASTEL DE VOUZELA EM LIVRO” editado em 2017. Para este projeto tive a ajuda do Daniel de Melo do Nuno Marques e o apoio do município de Vouzela, a quem eu muito agradeço. Convidei a minha querida amiga Maria de Lourdes Modesto, grande embaixadora da gastronomia portuguesa e grande admiradora dos pasteis de Vouzela, para dar um testemunho escrito para este trabalho, o que gentilmente aceitou fazer, honrando este livro com o seu prefácio. Depois de tanto falar no Pastel de Vouzela, de tanto pesquisar de tanto fotografar achei que o título do meu texto para esta obra era “A talha dourada e Vouzela.” Este livro foi uma homenagem às pessoas com mãos divinas que transformam, açúcar, gemas, água e farinha num autêntico doce dos Deuses.

 

PJ – Está ligada profissionalmente às Artes, à Decoração, às Antiguidades e ao Turismo. Como se situam estas vertentes na sua vida e qual a importância que têm para si?

MCC – Na área das artes, fui responsável pela curadoria de algumas exposições, principalmente com obras da pintora Helena Liz, além de ser também responsável pela execução e revisão dos catálogos das exposições. Profissionalmente nunca estive ligada a uma só área, ao longo destes anos, dei conta de que a área das antiguidades e do turismo são as mais abrangentes e as que ocupam mais o meu tempo. Nos dias de hoje, para se ter sucesso, é preciso ser muito profissional, estas áreas são muito sensíveis, exigem muita informação, muita formação, pesquisa e experiência, naturalmente.

 

PJ – Como estão a viver a atual situação, devido à covid-19, dentro das instituições culturais das quais faz parte?

MCC – Estamos a viver um momento histórico. Devido à pandemia covid-19, a situação é muito delicada a nível nacional e a nível mundial, mas não podemos parar. Nas associações culturais, das quais faço parte, nunca se deixou de trabalhar, tanto na Vouzelar, como na Confraria dos Gastrónomos da Região de Lafões, estamos a cumprir com o nosso plano de atividades. Em relação ao turismo é o momento oportuno para dar um tratamento especial e mais personalizado aos hóspedes, por não haver tanta afluência de pessoas. Aproveitamos o tempo de confinamento para renovar a imagem dos espaços e adiantar os novos projetos.

 

PJ – Para além de todas as vertentes que fomos enumerando, que outras paixões nutre, que a completam enquanto pessoa?

MCC – Gosto de viajar, de descobrir o que é de mais genuíno em cada território, dos costumes, do contacto com as pessoas, de apreciar as paisagens. Gosto de todo o género de música, gosto de dançar e de me divertir com os amigos e a família.

 

PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?

MCC – Sensível.

PJ – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?

MCC – Que o caminho faz-se caminhando…

Vamos viver a vida…

Que quero agradecer aos meus pais por me terem criado e educado, agradecer ao meu marido e ao meu filho todo o apoio que me têm dado.

Que haja paz em todo mundo!

 

PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma enorme honra, Celeste Carvalho. Desejo-lhe a continuação de um excelente trabalho e MUITO OBRIGADA! Peço-lhe que deixe uma mensagem a todos os nossos leitores.

MCC – Eu é que agradeço, para mim foi uma enorme honra receber este convite para dar esta entrevista a um jornal tão distinto como é a Gazeta da Beira.

Aos leitores, dizer que para estarem informados é necessário ler, ler muito, e já agora gostava de apelar para que não esqueçam os autores portugueses e que apostem na literatura nacional.

Bem-haja a todos!

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