Francisco de Almeida Dias
Rubrica Portugal é mátria
Fernando-Quartin©
Confinar e desconfinar – os dois verbos que passaram a ser, desde há pouco, tão de nosso uso quotidiano – bem se podem aplicar à arte de Mónica Quartin. Os seus traços rebelam-se às margens que ela mesma cria para os proteger, os elementos extrapolam os universos para onde foram concebidos, tudo se torna exercício de liberdade e de fuga a regras autoimpostas, um delicioso jogo em que nos redescobrimos crianças – crianças a brincar à solta (embora protegidos pelo muro do jardim) com uma Mónica-menina, inventora das histórias de que queremos fazer parte.
Do primeiro jardim, na África do Sul dos seus primeiros quatro anos de vida, a memória é mais que nebulosa e em parte sugerida pelos relatos da mãe, onde os macacos atravessam impudicos o jardim da casa. Curiosamente, o mais impactante contacto com a natureza virá a acontecer naquela que é a Cidade por antonomásia, a primeira capital histórica do mundo ocidental – Roma. Luís Quartin Bastos (1932-2013), diplomata, habitava na Villa Lusa, a nossa Embaixada junto da Santa Sé e Mónica, com seis anos e tornada “filha única” por decisão paterna (o irmão mais velho, o fotógrafo Fernando Quartin, ficara em Lisboa com a avó, e só alguns anos depois viria a nascer outro irmão), vive uma infância solitária e mágica nesse maravilhoso, imenso, secreto parque, onde descobre um sem-número de formas de vida, que se lhe foram tornando amigas e familiares.
Foi também em Roma que, primeiro, o seu talento artístico foi notado: a professora da Escola Americana pô-la em frente de uma grande folha lisa de papel pardo – e a menina, sem qualquer temor ou timidez, logo ali desenhou uma imensa árvore. Pouco depois, quando os pais decidiram contratar um professor para lhe ensinar a nova língua, este chegou um estojo de canetas de feltro novinho em folha e uma estratégia de ensino: havia de desenhar e legendar em italiano aquilo que ia desenhando. Quase esquecido do seu intento vocabular, um dia veio extasiar-se perante os pais da pupila: «Per Monica, soltanto l’arte!» E assim foi, desde esse tempo – como teve ocasião de constatar a própria avó materna da artista, numa ocasião em que a foi visitar ao novo posto diplomático do pai, Paris; Mónica havia desenhado, com aquela aplicação miniatural que tanta satisfação lhe dá e ainda hoje mantém, os cantinhos de todos os seus cadernos!
Um antegosto da fama experienciou-o em Lisboa, no último ano do Lycée français Charles Lepierre, quando ao entrar no pátio, uns dias depois da prova final de desenho, sentiu os colegas, aqui e ali, a cochichar o seu nome. Desenvoltamente (como na Escola Americana de Roma) esboçara, em poucos minutos a BIC preta, o perfil de um casario urbano – que lhe valeu 19/20 valores. Pareceu-lhe então óbvia, dotada como se relevava, a decisão de ingressar na Escola Superior de Belas-Artes, mas o excessivo academismo da velha instituição maçou-a imediatamente. Maior interesse achou no contacto direto e manual com a matéria, que pôde experimentar num workshop de verão sobre a arte de tecer ao tear… E assim, Penélope contemporânea, mito renovado, símbolo arquetípico da linha de vida que corre de cá para lá e se faz tela, vem a encontrar em Maria Flávia de Monsaraz (1935-2019), pioneira da “Nova Tapeçaria” em Portugal – uma mestra, em cujo atelier de Campo de Ourique irá trabalhar durante dois anos, até ao casamento e à primeira gravidez, que lhe fez enjoar o cheiro das lãs. Teve ainda tempo, contudo (e refere-o, orgulhosa), para participar na última tapeçaria daquela que, daí em diante, se viria dedicar à Astrologia Humanista e Transpessoal.
Depois do nascimento dos gémeos, Inês e Tiago (que se virá a tornar o grande herdeiro da sua sensibilidade estética), decide construir o seu próprio tear, para poder ir trabalhando nos intervalos da sua vida de dona de casa, onde teve a sorte de encontrar estímulos à sua atividade artística no marido, José Maria Leal da Costa, e no sogro, ambos arquitetos trabalhando em decoração e angariando, por isso, novos clientes para Mónica, que entretanto fora mãe mais uma vez – do Luís. É por esses anos que iniciará uma atividade expositiva intensa e com grande sucesso comercial – na sua primeira individual, em 1988, na galeria A Janela Verde em Lisboa, vende tudo quanto apresenta. E assim, ano se soma a ano até chegarem a vinte, executando também encomendas para diversas entidades públicas e privadas. Mas o trabalho da tecedeira, minucioso e em constante tensão muscular, tem uma dureza e um desgaste físico, que a obrigariam a parar. A questão é que um artista nunca pode parar…
Quando os filhos começam a sair de casa e “herda” do mais velho, formado Arquitetura, os restos dos materiais dos seus projetos – vegetais, compassos e esquadros desirmanados, pastéis de óleo – ganha o espaço e aproveita o estímulo para dar um salto. Num grande bocado de papel de cenário que fixa à parede com pioneses passa um dia inteiro a desenhar, deixando de boca aberta o marido quando regressa a casa, ao fim do dia: «– Agora sim, Mónica: és mesmo uma mulher feliz!»
Todos os personagens do seu imaginário estético irrompem selvagens, finalmente libertados da comprimida arte de tecer; soltam-se, enfim, e de forma explosiva se multiplicam em pássaros que abrem as asas e querem extrapolar a composição, tartarugas e peixes fogem em todas as direções, os macacos e as zebras dos confins da infância africana, que zombam do espetador ou se mimetizam elegantemente na paisagem, fugindo dos perigosos felinos de olhos acesos. Entre o gesto solto e a contenção das manchas de cor em rigorosas linhas de contorno, Mónica Quartin vive, em poucos anos, a sua grande evolução – a fase transitória que a traz para onde hoje se encontra.

É pelo ano de 2013, diante a uma folha de formato A3 e empunhando uma simples caneta de tinta da china, que começa a desenhar uma espécie de filigrana de prata sobre fundo branco. O trabalho é minudente, liga-se àquele rigor da aprendiza de Penélope: dentro de espaços que vai construindo em formas geométricas, a partir de um círculo central, começamos a ver nascer universos, povoados de constelações e de formas orgânicas, depois de animais e enfim de casas – cidades inteiras, florestas recheadas, sortilégios cósmicos, que não têm nem fim, nem princípio, alinhados em dinâmica circularidade, que oferecem ao olhar esse estímulo constante, o de ver sempre coisas novas consoante a angulatura da visão. A pouco e pouco liberta-se das simetrias e já não sabemos se as cidades são construídas sobre céus internos ou se são folhas que voam das copas das árvores, as presenças ganham liberdade de si mesmas e começam a ocupar espaços que lhe não tinham sido destinados…
Em 2017, respondendo ao repto lançado por amigos e admiradores do seu trabalho, decidiu aventurar-se na estampagem dos seus desenhos – a cuja filigrana inicial juntou, entretanto, cores ricas em conjugações por vezes intuitivas e outras vezes ousadas, mas sempre de uma inata elegância. Com a colaboração e o saber técnico de Tomás Cabral da Câmara, surgiram primeiro as sedas de grande formato, para envolver num abraço os pescoços das senhoras, e em versão reduzida, para sorrirem do bolso de peito dos casacos masculinos; seguiram-se-lhe, com a estampagem sobre algodão, almofadas, aventais, bolsas… A arte de Mónica Quartin (apresentada numa grande exposição em 2017, na Fundação Medeiros e Almeida, em Lisboa) torna-se, assim, acessível a todos, qualificado esteticamente a vida de todos.
A questão, agora, é: o que virá a seguir? A artista tem em mãos a ilustração de alguns contos infantis escritos pela mãe – que leu aos filhos quando eram pequenos e que agora quer “vestir” de novo para os netos – e exprime vontade de explorar novos territórios e novos materiais. Uma coisa é certa: tudo o que faz parte do universo de Mónica Quartin exprime a harmonia dos quatro elementos e a intuição de um quinto, enche de luz as cores e de alegria as formas e os espaços.
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