Crónica do Olheirão por Mário Pereira

A relação entre trabalho e riqueza

O debate em torno dos programas da União Europeia para a recuperação da economia pós COVID 19, veio relançar um debate de sempre na Europa. A ideia dos países ricos que estão contra o apoio aos países do sul, nomeadamente Portugal, Espanha e Itália é que estes países são mais pobres porque as pessoas trabalham menos.

Esta é uma ideia que também tem seguidores em Portugal e no mundo todo. É habitual ouvirmos dizer de uma pessoa pobre que não trabalha ou gasta mal o dinheiro.

Se perguntarmos a um sueco, a um holandês ou a um austríaco se eles trabalham mais do que trabalhavam os seus avós e os seus pais eles terão a honestidade suficiente para dizer que os seus pais e avós trabalhavam mais arduamente e não eram tão ricos.

Ninguém dirá que o operador de uma grua no porto de Roterdão, que descarrega um barco, trabalha mais do que os operários que o carregaram na Indonésia ou em África e também é fácil perceber que o 1% dos mais ricos, que acumula 90% da riqueza mundial, não trabalha mais, nem mais horas, do que os 90% mais pobres do mundo.

Há dois ditos, bastante populares na nossa região, que sintetizam o senso comum e a sabedoria popular em torno desta questão. Um diz que quem não rouba ou não herda não chega a rico e o outro diz que quem trabalha muito não tem tempo para ganhar dinheiro.

Os países que são ricos ou receberam uma herança deixada pela natureza, desde logo, a sua localização, depósitos de minerais ou de petróleo ou conseguiram montar esquemas de poder político, económico e, muitas vezes também, militar que lhes permite apoderarem-se de riquezas que pertenceriam a outros povos.

Acresce a isso que quanto mais recursos um país ou uma pessoa tem mais fácil se torna organizar as coisas para atrair ainda mais recursos.

Assim, a riqueza disponível num dado país tem mais relação com a natureza e os esquemas de poder do que com o trabalho e o esforço que cada pessoa, por si, possa fazer.

Isto vale também para as empresas.

Para fazerem negócios na Alemanha as empresas holandesas ou austríacas apenas precisam de atravessar a fronteira. É facto, que um camião chega mais depressa da Holanda a Berlim do que de Portugal à fronteira da França, por isso conseguir custos de transporte inferiores não requer nenhuma capacidade ou esforço extraordinário dos seus trabalhadores ou gestores.

Todos, nós quando estamos numa posição melhor do que outros, acreditamos que isso é mérito nosso, merecido e normal. Muito raramente, alguém pensa que aquilo que tem é fruto de um privilégio e pode não era proporcional ao esforço que faz.

É por isto que é tão difícil haver maior solidariedade entre as pessoas e os povos e é tão difícil criar uma sociedade mais justa e equitativa.

Na verdade muitos dos cidadãos austríacos, suecos, holandeses ou finlandeses que se opõem ao apoio aos países do sul são mais beneficiários da riqueza que existe no seu país do que produtores da mesma.

O mesmo discurso pode ser feito a propósito da Europa e dos refugiados, etc.

Mesmo agora com o COVID 19 vemos que os trabalhadores com baixos salários estão mais expostos porque têm de continuar a fazer os seus trabalhos, enquanto os que dispõem de maiores rendimentos podem ficar em casa.

Quem apanhou o COVID foram os trabalhadores da base logística do Continente na Azambuja, porque tinham de continuar a trabalhar. Eles e as pessoas que estiveram nas caixas e a repor os produtos na nas prateleiras dos supermercados formaram a linha da frente, mas quando chegar a altura de partilhar os lucros que o Continente fez à conta da pandemia aposto que serão outros a formar a na linha da frente.

Mais do que uma relação o que há entre o trabalho e a riqueza é um divórcio.

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