António Bica

O Moço de Recados e as três Donzelas (continuação)

O Moço de Recados e as três Donzelas (continuação)

Estava longe a madrugada quando Xerazade recomeçou:

Uma grande onda arrastou-me e deixou na praia. Contente por me ter salvo enxuguei as roupas ao sol, que rompera as nuvens. Deitei-me extenuado ao abrigo de uma rocha e dormi o resto do dia e toda a noite. De manhã, com a roupa enxuta, percorri o largo vale que desembocava na praia. Vi que tinha chegado a pequena ilha. Pensei comigo: «Não pereci no mar, mas não puderei daqui sair». Enquanto assim cogitava, vi aproximar-se uma barca. Com receio de serem ladrões escondi-me no cimo de uma árvore, dentro da frança. Da barca sairam homens com pás e alviões. Cavaram junto a uma colina e encontraram uma porta de cobre. Abriram-na e trouxeram da barca vasilhas com alimentos, cestos com roupa, sacos cheios e grandes caixas que, pelo esforço dos que as transportavam, não estavam vazias. No fim saiu da barca um velho enxuto de carnes, de vestes longas finamente trabalhadas, que trazia pela mão um adolescente. Entraram na porta de cobre. Mais tarde todos sairam menos o rapazinho. Cobriram cuidadosamente a porta com terra e pedras e tudo disfarçaram como se ali ninguém tivesse cavado. Entraram na barca e remaram até desaparecer no horizonte. Desci e tirei a terra e as pedras a descobrir a entrada. Como tinham acabado de ser mexidas, consegui-o sem a ajuda de ferramentas além das que improvisei de ramos de árvores. Abri a porta e desci por  escada de pedra até uma sala de paredes revestidas de preciosos tapetes, iluminada com velas de cera. Junto às paredes, potes de porcelana com flores coloriam-na e, no meio, bandejas de metal amarelo ofereciam variados frutos e doces. No centro estava o jovenzinho. Assustou-se ao ver-me. Saudei-o com palavras de paz. Acalmou-se e saudou-me também. Quando o vi confiante, disse: «Embora não pareça por as ondas furiosas terem dilacerado as minhas roupas, sou rei e filho de rei. Vi que te encerraram nesta prisão e venho, se consentires, libertar-te». O rapazinho sorriu, convidou-me a sentar e disse: «Trouxeram-me aqui, não para me aprisionar, mas para que não morra. Sou filho de joalheiro a quem muitos reis compram joias preciosas. Nasci na velhice do meu pai e sou o único filho. Ansioso por saber o futuro contratou, quando nasci, adivinhos e os que pelos astros o desvendam. Sem discrepância todos disseram: «Morrerá antes do pai e da mãe. O rei e filho de rei que derrubar o cavaleiro de cobre da Ilha da Montanha Magnética matá-lo-á nos quarenta dias seguintes a tê-lo derrubado». Quando, há pouco, fiz quinze anos, o meu pai soube por adivinho que o cavaleiro de cobre da Ilha da Montanha Magnética acabara de ser derrubado. Decidiu trazer-me para este esconderijo debaixo da terra, nesta ilha deserta, para que ninguém me encontre até o perigo passar». Pensei: «Como é vã a ciência da adivinhação. Mesmo que fosse violento e de ímpetos assassinos, como poderia tirar a vida a este jovem encantador? Antes a tiraria a mim». Disse: «Deus não pode querer que, antes de dar fruto, uma haste florida seja cortada. O duro coração do mais empedernido assassino abrandaria ao ver-te, como a cera ao calor. Permanecerei aqui para que nenhum mal te aconteça». Respondeu: «Passados os quarenta dias da ameaça, o meu pai voltará para me buscar e estarei livre do perigo». Jurei não o deixar dia e noite e protegê-lo até o prazo ser corrido. Conversámos longamente, comemos e bebemos e adormecemos. Depois de acordar e de me lavar, levei-lhe numa bacia água perfumada para as abluções. Conversámos longamente, comemos carneiro recheado com amêndoas e, cansados, adormecemos de novo. Tornámo-nos amigos e o tempo correu até que chegou a manhã do quadragésimo dia depois de ter derrubado o cavaleiro de cobre da Ilha da Montanha Magnética. Nesse dia o pai do adolescente vinha buscá-lo. Preparei-lhe um banho de água perfumada e adormeceu. Velei para que nenhum mal lhe acontecesse. Quando acordou, fui descalço buscar  uma  melancia em bandeja de cobre, trazendo ao lado uma afiada faca para que, sem esforço, a cortasse. Aproximei-me cheio de alegria por estar a terminar o cativeiro. Contente pela  amizade e companhia fez-me inesperadamente cócegas por baixo do pé direito. Dei, sem querer, um grande salto. A bandeja desequilibrou-se e a faca caiu de ponta sobre o coração e matou-o. Entrei em desespero por, contra a minha vontade, o acaso me ter feito matar quem eu queria que vivesse. Pedi a Deus que me livrasse da vida. Mas as preces não são atendidas, nem para o bem nem para o mal. Sem coragem para explicar ao pai a desgraça, saí do esconderijo e subi à árvore donde antes tudo vira. Amargurado, lembrei-me do poeta:

«Nada sabemos do vasto mundo/ largo e cheio de complexidade./ Afadigamo-nos a pôr/  cada pedra sobre pedra,/ a construir a fortuna/ e o imprevisível/ tudo faz ruir./ Somos como cegos./ E porque assim é/ quase todos seguem/ os que se dizem mestres;/ mas nenhum mestre nada sabe/ senão viver dos que o seguem./ Por mim, vou só,/ certo de que não sei,/ tacteando, tacteando/ as veredas da vida,/ errando por minha conta/ até por fim chegar/ donde se não regressa.»

Ao fim do dia a barca chegou. Abriram a porta de cobre e deram com a desgraça. Com grande pranto e aflição trouxeram o cadáver ao pai que, entre lamentos, o enterrou ao pé da árvore donde eu escondido observava. Esvaziaram o subterrâneo e deixaram a ilha. Procurei um tronco grande e sólido que me levasse na corrente do mar para a vida ou para a morte, pois permanecer ali era insuportável. Quando achei o que me pareceu azado, lancei-o à água, prendi-me a ele com corda de folhas de palmeira e fui na corrente do mar.

O negrume da noite desmaiara. Nas montanhas do oriente anunciava-se o sol. Xerazade calou-se e Xariar deixou o leito.

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