Crónica do Olheirão de Mário Pereira
Confinadas, mas uns mais do que outros
Com o confinamento aconteceram algumas coisas que são reveladores das desigualdades estruturais da nossa sociedade e também da duplicidade com que são encaradas algumas situações.
Na prevenção do contágio pelo COVID o que se fez com os idosos , nomeadamente, os que viviam nos lares foi encarcerá-los, proibindo-os de sair e de receberem visitas, enquanto, ao mesmo tempo, se deixavam sair das prisões cerca de dois mil reclusos.
Acredito que com os reclusos foi feita a coisa certa, por isso custa-me entender a razão porque não se fez nada para diminuir a sobrelotação dos lares de idosos.
Durante a pandemia, quando até os hospitais puderam diminuir o seu trabalho corrente para se dedicarem ao cuidado dos doentes infetados pelo COVID, os lares de idosos foram os únicos serviços que tiveram de aumentar o seu trabalho e os seus cuidados.
Sabendo-se que o COVID encontra o terreno ideal em locais onde duas ou três pessoas dormem num quarto e 40 ou 50 pessoas fazem refeições e convivem nos mesmos espaços, foi pena que não tivesse ocorrido a ninguém, no Ministério da Segurança Social ou num partido da oposição, que alguns hotéis, em vez de fecharem, pudessem continuar a funcionar recebendo idosos, nomeadamente, aqueles que ainda têm alguma autonomia.
Por tudo isto parece-me que a resposta à pandemia não cuidou devidamente dos mais velhos, ainda mais quando sabemos que, não só em Portugal, cerca de 40% das pessoas que morreram com COVID 19 viviam em lares de idosos.
As organizações sociais, que gerem lares de idosos, vivem uma crise de sub financiamento há muitos anos, mas apesar disso fizeram os impossíveis para cumprirem orientações que só puderam ser cumpridas impondo aos seus trabalhadores e residentes condições de muito duvidosa legalidade.
Espero que, agora que se fala em atribuir compensações aos profissionais de saúde, não esqueçam estes, porque merecem tanto ou mais.
Penso que há duas fortes razões para que não tenha havido uma mobilização social para reduzir o número de residentes nos lares.
Por um lado os trabalhadores do setor social não têm sindicatos com o mínimo de capacidade reivindicativa, tivessem eles um sindicato como os guardas prisionais e outro galo cantaria, por outro as instituições do setor social, desde há anos, que assumem como suas responsabilidades que são do Estado e de toda a sociedade.
Por vezes, esquecemos que o cuidado aos idosos não é responsabilidade das instituições sem fins lucrativos, mas sim de um ministério que se diz da Segurança Social.
Os problemas dos lares de idosos são muito anteriores à pandemia. O COVID 19 só veio mostrar de forma dramática um problema estrutural que tem muitos anos: demasiada gente em pouco espaço.
É uma indignidade que uma pessoa, ao chegar ao fim da vida, seja obrigada a partilhar o seu quarto com um estranho e não tenha o mínimo de privacidade.
Este não é uma problema das entidades que gerem os lares, sociais e privados, mas sim de toda a sociedade e do Estado que assegura um financiamento claramente insuficiente para que os lares possam ter a dignidade que todos merecemos.
Este subfinanciamento faz com que os recursos humanos sejam poucos e muito mal pagos e as instalações não garantam o mínimo de privacidade.
A isto acresce o facto da maioria dos idosos serem pobres e alguns que têm alguma coisa preferirem deixar aos filhos uma herança do que gastar o dinheiro em benefício próprio.
Temos de olhar para os lares como um direito das pessoas e um meio de dar dignidade aos nossos últimos anos de vida e deixar de vê-los como uma solução assistencial.
Se não avançarmos neste sentido, lamento dizê-lo, mas quando a crise passar, ninguém vai fazer o que é preciso ser feito para que todos tenhamos assegurada a dignidade que merecemos nos últimos anos da nossa vida.
Mário Pereira Maio de 2020
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