Francisco de Almeida Dias
Rubrica Portugal é mátria
Com o marido em Malta
Antes da presença, foi um apelido algo temível para mim, jovem estudante de História: “A Drumond Braga”. Não tinha nome, como acontece muitas vezes com as mulheres verdadeiramente poderosas – e esse apelido, duplo e elegante, precedido apenas do artigo definido, pressupunha, no vago imaginário coletivo dos corredores da Faculdade de Letras, uma personalidade contundente completada por um figurão intimidatório…
Imagine-se qual não foi o meu espanto quando, muitos anos volvidos sobre esse período feliz na Cidade Universitária (e tendo conseguido evitar as cadeiras de História Moderna em Lisboa com A Drumond Braga, por terem coincidido com o meu ano de Erasmus), vim a conhecer em Roma uma jovem senhora deliciosa, com um sorriso cativante e o olhar luminoso de uma menina, que era, afinal, A Drumond Braga – e que me convidou imediatamente a tratá-la simplesmente por Isabel.
Desde aí, não só se deu a vitória do nome sobre os apelidos (com os quais não voltei a referi-la, nem a pensá-la), mas teceu-se uma amizade sólida, que incluiu desde logo o seu marido, o Prof. Doutor Paulo Drumond Braga, e que, para além da simpatia e do afeto imponderáveis dos encontros, se tem cimentado numa crescente admiração pelo seu percurso científico – que cumpre em outubro próximo 33 anos.
Se o lado mais visível de Isabel Maria Ribeiro Mendes Drumond Braga é a carreira docente – sucessivamente Assistente, Professora Auxiliar e Agregada da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, membro integrado de vários centros académicos em Portugal e no estrangeiro (Universidade Federal do Rio de Janeiro, Université Sorbonne Nouvelle – Paris 3, etc.) e arguente de inúmeras provas de mestrado e de doutoramento no País e em Espanha, Brasil e Itália – a sua maior paixão é a investigação. E é exatamente esse o modus operandi que considera fundamental transmitir aos alunos: depois de uma preparação cuidada, assente nas aulas e no trabalho individual, cada estudante deverá encontrar o seu próprio caminho, a sua linha de investigação, testando-a no Mestrado e concretizando-a no Doutoramento. Uma estrada que necessariamente irá evoluindo e desvendando percursos paralelos ou alternativos, como, de resto, aconteceu a si mesma.
A dissertação de Doutoramento de Isabel Drumond Braga versava sobre História Económica e Social dos séculos XV a XVIII – foi publicada em 2001, sob o título Um Espaço, duas Monarquias (Interrelações na Península Ibérica no Tempo de Carlos V) – mas, desse tema inicial e abrangente, veio a surgir aquele que se tem revelado uma das linhas fundamentais da sua investigação e um dos grandes contributos que tem dado à historiografia portuguesa – a história da Inquisição e da religiosidade, sobre o que veio a lume recentemente o essencial Viver e Morrer nos Cárceres do Santo Ofício (Lisboa, A Esfera dos Livros, 2015).
Em Roma, no ano passado
Um outro exemplo de como o estudo lhe foi sempre apontando novos caminhos a partir de uma estrada fundamental relaciona-se com o convite que lhe foi feito pelo saudoso Prof. A. H. de Oliveira Marques (1933-2007), para participar na Nova História de Portugal, que dirigia com Joel Serrão (1919-2008). Aqui, Isabel Drumond Braga achou-se a dar um duplo salto: no tempo, relativamente à época histórica que privilegia, adentrando-se pelo século XIX; e no tema, dando início a uma nova linha, que viria a privilegiar no seu percurso – a da história cultural da alimentação e da sociabilidade à mesa. E assim, antes mesmo da saída dos seus dois breves capítulos nos volumes IX e X da referida obra (Portugal e a Instauração do Liberalismo e Portugal e a Regeneração, respetivamente), a historiadora havia de publicar a importante Portugal à Mesa. Alimentação, Etiqueta e Sociabilidade (1800-1850) (Lisboa, Hugin Editores, 2000). Desde então, um sem-número de artigos, conferências – até ao recente volume Das origens do vegetarianismo em Portugal: Amílcar de Sousa (1876 1940), o ‘apóstolo verde’, publicado pela Biblioteca Nacional de Portugal no ano passado – fizeram dela uma autoridade absoluta nestas matérias que dão sabor, cheiro e cor à nossa História, por vezes demasiado “desidratada” entre nomes, datas e títulos esforçados na memória.
Também acontece por vezes – naquelas raras vezes em que sentimos a seriedade do nosso trabalho e a sinceridade do nosso esforço compensados por uma inominada harmonia cósmica – recebermos um prémio ao fim de um longo percurso. O seu interesse pela História das Práticas do Quotidiano, que a levara a investigar a documentação da Casa Real e a apresentar a comunicação “Os ‘Pretos da Rainha’. Serviçais Exóticos na Corte de D. Maria I” no IV Congresso Histórico de Guimarães em 2006, pô-la em contacto com algumas notícias sobre o que foi o primeiro jardim zoológico de Corte. Grande amiga que é de todos os animais, que protege e acarinha desveladamente, foi-lhe muito natural ir notando (e anotando, e acumulando) uma grande quantidade de referências a eles, surgidas por entre a documentação mais variada que ia estudando com os fins mais diversos… E eis que, em 2015, surge a publicação de Animais e Companhia na História de Portugal, obra que reuniu os contributos de vários académicos, coordenada por Isabel e Paulo Drumond Braga (Círculo de Leitores) – estudo rigoroso e absolutamente inovador em Portugal, onde pouquíssimas obras tinham abordado, e muito parcialmente, o tema.
Grande amiga dos animais
Desde que, há alguns anos, surgiu “a moda” da avaliação de desempenho dos professores universitários, o resultado de Isabel Drumond Braga tem sido, invariavelmente, excelente. Mas, muito mais eloquentes que as estatísticas, são os testemunhos dos seus alunos e ex-alunos que (mais corajosos que o autor destas linhas) tiveram A Drumond Braga às cadeiras de História Moderna de Portugal, História Cultural: práticas e representações, Quotidianos Femininos (séculos XVI-XIX), Construção do Estado Moderno ou Inquisição e Sociedade. Graças à mobilidade Erasmus, também alguns estudantes universitários italianos (Università degli Studi Internazionali di Roma, Università degli Studi della Tuscia – Viterbo e Università per Stranieri di Siena) têm tido ocasião de fruir das suas lições e da sua presença tão harmoniosa e solar. De resto, a carreira internacional de Isabel Drumond Braga é tão notável quanto a que tem feito em Portugal – com impressionante quantidade de artigos publicados em revistas indexadas nacionais e internacionais e como investigadora em projetos científicos coletivos financiados por instituições públicas ou privadas no estrangeiro em redes internacionais formalizadas.
Se um tal curriculum bem poderia justificar o inicial temor pel’A Drumond Braga a sua humanidade generosa e sensível tem a capacidade de nos encantar. E não só a nós…
Quando foi até ao Porto, em 1988, para participar no Congresso Internacional Bartolomeu Dias e a Sua Época (onde apresentou a comunicação “Portugal e o Mosteiro de Guadalupe. Relações Históricas na Segunda Metade do Século XV”) estava longe de imaginar a importância que essa viagem e esse encontro científico haveriam de ter na sua vida pessoal. Foi exatamente aí que Isabel conheceu Paulo, com quem casou três anos depois – uma união sólida e feliz, tão bem simbolizada no escritório-biblioteca de sua casa, onde as secretárias de uma e de outro, ao centro, estão frente a frente, como que em íntima conversação e profundo entendimento. Um diálogo constante, enriquecedor porque também é crítico, marcado pela partilha dos interesses comuns e pela ajuda mútua que liga marido e mulher que são, ainda, colegas de Academia.
Bem haja, Isabel Drumond Braga, por estes anos de tão profícuo contributo para a História de Portugal e para o ensino universitário neste país. Bem haja, Isabel, por reafirmar com a sua biografia que Portugal é, realmente, Mátria.
Comentários recentes