Crónica do Olheirão por Mário Pereira
A América que fez Trump

Há a ideia de que personagens como Trump e Bolsonaro são fruto das redes sociais e de circunstâncias momentâneas, mas, infelizmente, eles são produto de uma sociedade que se tornou profundamente desigual e que deixou de se guiar por valores morais.
Há dias li, na internet, um artigo publicado num jornal americano sobre o líder do Partido Republicano no Senado dos EUA Mitch McConnell, um político com 78 anos de idade e 50 de carreira política de alto nível, no qual, basicamente, se dizia que os seus princípios se resumem a fazer o que for preciso para ganhar a próxima eleição.
Nos Estados Unidos, e por cá também, não falta quem considere que o número de ricos é um bom indicador para medir a prosperidade de um país.
Uma mão amiga enviou-me por email uma citação do escritor Mia Couto, que deveria ser mais divulgada, pois diz: “a maior desgraça de uma nação pobre é que em vez de produzir riqueza produz ricos”.
Os Estados Unidos são nisso hoje muito semelhantes aos países pobres. Têm cada vez mais ricos, mas a larga maioria das pessoas fica afastada do usufruto da riqueza.
Na wikipedia pode ler-se que 1% dos mais ricos nos Estados Unidos têm mais rendimentos que os 90% da população mais pobre e estatísticas, anteriores ao início da crise do COVID 19, mostram que existiam cerca de 40 000 000 de pessoas a viver na pobreza.
As desigualdades nos Estados Unidos, tal como em todo o lado sempre existiram, mas acentuaram-se a partir da década de 1980, quando o presidente Reagan adotou políticas que diminuíram o financiamento dos serviços públicos e reduziram os impostos sobre os ricos.
Como consequência dessas políticas bens essenciais como a educação e a saúde tornaram-se grandes negócios e não são assegurados a todas as pessoas em condições com o mínimo e equidade. Apesar dos efeitos desastrosos dessas políticas, elas tornaram-se o ideário político dominante e foram também adotadas na Europa e no mundo em geral.
As sociedades com grandes desigualdades tendem a gerar a medos, angústias e frustrações que são usados pelos que têm muito para fragilizarem ainda mais os que têm pouco.
Os presidentes democratas Clinton e Obama, provavelmente, pressionados pelo pensamento dominante na política e na economia nunca reverteram o essencial dessas políticas.
O presidente Barak Obama, que é anti Trump pelo discurso, pela postura, pela educação ou pela sua cultura, não conseguiu, em oito anos, inverter essa tendência para o aumentos das desigualdades.
Apesar dos seus discursos Obama, sem alarido, foi construindo muros na fronteira com o México, teve uma política ativa de deportação de pessoas sem documentos (apesar do seu programa de proteção para os jovens que cresceram nos Estados Unidos) e também teve uma política muito ativa na utilização de drones para assassínios seletivos no estrangeiro (não foi só Bin Laden).
Talvez, por isso muitos americanos tenham preferido alguém que assuma o que quer fazer e o faça sem vergonha e pensado que era melhor tomar o mal todo de um vez do que em pequenas doses.
Mais do que as políticas, o que é novo nos Estados Unidos, é terem um presidente que assume essas políticas sem vergonha e as aplica dizendo que é mesmo isso que quer fazer.
A reação desastrosa dos Estados Unidos à pandemia, que veio expor ainda mais as desigualdades, é consequência da fanfarronice do presidente Trump, mas sobretudo da destruição dos serviços públicos em geral e dos serviços de saúde em particular.
A situação, além de todos os perigos que comporta, ganha contornos, caricatos porque os americanos escolheram para presidente um palhaço que agora se acha o dono do circo.
A América, a Europa e também Portugal precisam de presidentes e de políticos que adotem políticas promotoras da igualdade e da equidade e o façam sem vergonha nem medo de pisarem algum calo aos poderosos, porque eles não têm medo nem vergonha de pisarem os mais pobres.
Mário Pereira Maio de 2020
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