António Gouveia

Nada será como dantes - III

Insisto neste grito de alerta e prenúncio de António Scurati lançado num belíssimo texto que correu mundo quando a pandemia assolou a sua cidade adotiva, Milão, reino da moda italiana, da riqueza e do design, já o escrevi antes, não sei se aqui: “uma era terminou, outra está a começar”. Cada vez mais tomamos consciência deste grito que devemos interiorizar para acreditar num novo, melhor, menos apressado e mais pacífico futuro. Andamos, passados dois meses, transtornados, algo lé lés da cuca, não há pachorra para tanta estatística, tantos números a sair e desmentir, tantas conferências e tempos de antena, uma encenação de propaganda eleitoral com vista às autárquicas, apesar de faltar um ano para arrancar, uma das maiores campanhas de sempre, logo veremos. Para já, neste primeiro desafio – as sondagens o demonstram -, António Costa sai vencedor, é um sortudo, a seu lado dois ajudantes inexpetáveis, o PR Marcelo e o líder PSD Rui Rio. O primeiro quer ser reeleito com o apoio do PS na maior votação de sempre; o segundo, não gosta de fazer política rasteira num momento cruel como este, por isso ‘não dá para tal peditório’. Goste-se ou não do estilo, são políticos sérios e com sentido de estado, rigorosos e diferentes da maioria que por aí pulula, o país e nós ficamos a ganhar. Nesta corrida de atrelagem e de fundo, o PS também, na diluição de algumas gafes.

Deixando o Covid-19 de lado – repito, já chateia, assim estúpido e agressivo, inimigo e armas desconhecidos , mas não o devemos desvalorizar. ‘Mata que se farta’ noutros países, agora no Brasil e EUA dos amigos tontos do peito, mas por cá, o número de mortos é comparável ao de outros surtos de gripe e pneumonia mais fortes em anos recentes. Admito que dá jeito à comunicação social, mais subserviente e dependente do poder que nunca e  também ao PS, tal a encenação político-televisiva, o massacre diário, muitos milhões de ajustes diretos, negociatas, gel, máscaras, luvas e ventiladores, logo veremos quando somarem as faturas, a pancada será forte na economia em recessão, mais ainda, aquando do segundo desafio de novo cruel, da economia, com a TAP, o Novo Banco, mais milhares milhões euros que somam aos do desemprego adiantado no calendário do ciclo económico, do lay-off, da penúria de famílias carenciadas e desprotegidas, com mais impacto nas grandes cidades onde há poucas hortas comunitárias e é fraca a economia de subsistência, comparando as que existem nas aldeias, vilas e pequenas cidades, a reforçar, mais o rol imenso de pequenos empresários e comércios, pequenas e médias empresas, tudo e todos a tremer. Preparados para este choque, há outras consequências que a pandemia trouxe consigo, não estávamos habituados. Não me lembro, neste confinamento a que fomos forçados e nos afeta psicologicamente, direta e indiretamente, tamanho bloqueio das nossas liberdades, a ansiedade, pânico e medo que provoca, a insegurança e, sobretudo, a desconfiança, já se exigia saber o nome dos vizinhos infetados e das ruas onde moravam, ânsia de os velhos desocuparem ventiladores nos hospitais, muita estupidez e impiedade juntas, falta de solidariedade, diria mesmo, de caridade, preocupante, criminosa e apavorante. Fascista, o nome adequado. Neste momento de transição, o que mais me preocupa é esta crise de confiança. Sempre me ensinaram que a confiança é um valor absoluto, sem ela ficamos todos perdidos, desnorteados e abandonados, falhando, deixamos de ser credíveis, morre a fidúcia, nasce o descrédito. Nunca como agora, sofremos tantos abalos, nunca tantos valores a que estivemos habituados tantos anos foram cerceados e postos em causa. Precisamos muito de confiança em nós, entre nós e no futuro, para, torno a repetir, ser mais pacífico, mais solidário, menos apressado e mais tempo para olhar, tranquilamente, a natureza e a vida que nos rodeia. Para vencer de novo, promovamos a liberdade e a confiança.

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