A lenda do Vira-Lobos (S. Miguel do Mato)

Texto de Vouzelar

Conta uma lenda que, há muitos, muitos anos, viveu na zona de S. Miguel do Mato, um peculiar individuo que ficou conhecido pela sua bravura.

Tratava-se de um jovem rapaz agigantado, com 130kg e 1,95m de altura, bem parecido e com uma personalidade impecável.

Era popular entre as raparigas casadoiras e junto dos demais rapazes da

povoação por causa da sua alegria e pacatez. Era aquilo a que se dá o nome de um “paz d´alma.

Não bebia, nunca participava em zaragatas, ajudava a família e os vizinhos e colaborava nas atividades da aldeia, fosse a desfolhada, a malha do centeio, o carnaval ou o S. João. Estava sempre pronto a participar e a ajudar.

Era um defensor da natureza, adorava contemplar as flores e era incapaz de maltratar um animal. Dizia-se que, por vezes, andava a pé para não carregar a burra, a “Orelhuda“.

Na região era conhecido por Zé Leal. Zé era o diminutivo de José; e Leal era um atributo pela sua calma e bondade (já que o apelido da família era Pereira).

Sucede que nessa época longínqua, nas serras caramulanas, em volta da aldeia, andava uma alcateia de 5 lobos que atacava os rebanhos e deixava as povoações em grande alvoroço. Atacavam com frequência e havia mesmo quem afirmasse que tinha visto os lobos a comerem cães.

O povo dizia que o lobo alfa, o líder da alcateia, era um lobo corpulento, acastanhado, impiedoso e com uns dentes caninos do tamanho da lâmina de uma navalha de enxertia.

Por serem animais muito agressivos, o povo andava assustado e poucos se atreviam a sair à rua depois de o sol se pôr.

Certo dia, assim que o sol despontou, o Zé Leal, acompanhado pela burra, saiu da aldeia e dirigiu-se a um pinhal, com o propósito de apanhar tojo e caruma para fazer uma cama nova à “Orelhuda“.

Ainda não tinham passado os terrenos cultivados que circundavam a aldeia quando se depararam, o Zé e a burra, a uns três metros de distância, com a

tão temida alcateia, liderada pelo lobo acastanhado, que lhe mostrou os dentes em sinal de ataque eminente.

A burra, amedrontada, empinou-se nas patas traseiras, bufou e fugiu

rapidamente em direção à aldeia.

O Zé Leal, quando se recompôs da surpresa, virou-se calmamente para os

lobos e disse-lhes:

– O melhor é irem pregar a outra freguesia! É que hoje não me encontro muito bem disposto e as asneiras que vocês têm andado por aí a fazer merecem uma boa lição.

O lobo alfa olhou para os restantes lobos, dando ordem para o ataque.

Abriu a boca e saltou sobre o pescoço do Zé Leal, preparando-se para uma

investida mortal e sem piedade.

Sucede que o Zé não recuou. Apesar de ser bondoso não tinha fama de ter

medo.

Sem vacilar, meteu, com toda a força, o seu braço direito pela boca abaixo do lobo.

Empurrou, empurrou, até lhe encontrar a ponta do rabo; e depois, puxou,

puxou, até virar o lobo do avesso.

Quando olhou em volta já não viu o rasto às outras quatro criaturas!

Desapertou as botas e com os atacadores pendurou o lobo, pelas patas

traseiras, num ramo de uma oliveira, a secar ao sol.

Desde esse dia, o povo deixou de o chamar de Zé Leal para lhe chamar Zé

Vira-Lobos.

E esta história, seja uma lenda ou não, de tão impressionante, sobreviveu a

muitos anos e chegou até aos nossos dias.

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