COISAS e GENTE da MINHA TERRA por Nazaré de Oliveira
O ZÉ DA FARMÁCIA
JOSÉ DE ALMEIDA se chamava. Nunca lhe conheci outra profissão: farmacêutico da Farmácia Dias, na Rua Direita, encravada na ilharga do Palácio de Reriz.
Foi intensa e duradoira a minha relação com o Zé da Farmácia. Ele e o meu pai eram amigos de infância, companheiros de carteira na Escola Primária da Negrosa. Meu pai confiava na competência do amigo, que velava pela saúde da família. Eu era magrito e enfezado e o Zé da Farmácia carregava-me com o óleo de fígado de bacalhau. Às colheradas, tomei muitos litros da mistela. Por volta dos meus 11 anos, uma furunculose salpicou-me a parte superior do tronco e o cachaço. O Zé da Farmácia entrou em acção: lá ia eu todos dias à botica, para ser espremido, besuntado com uma pomada preta, pensado e crivado de cruzes de adesivo.
A seguir, um tifo levou-me à cama. Todos os dias lá vinha o Zé da Farmácia aplicar-me uma injecções. Depois, veio uma pleurisia. Recomeçaram as idas diárias à botica. O Zé da Farmácia fervia a seringa, eu arriava as calças e lá vinha a estocada nas nádegas. Ensinou-me a pôr ventosas: eram uns copinhos de vidro grosso, com bordos arredondados; metia-se dentro um pedacinho de algodão embebido em álcool, acendia-se e chapava-se sobre as costelas do lado da pleura infectada; o algodão apagava-se, fazia-se o vácuo e a ventosa chupava que nem um desentupidor de bacias. Meia hora depois, fazia-se uma ligeira pressão junto ao bordo, o ar entrava e a ventosa descolava, deixando marcas circulares, a lembrar pinturas rupestres. Mas a coisa estava renitente e o Zé da Farmácia, sempre zeloso, aconselhou meu pai a consultar o Dr. Almeida Ferreira, que iniciava a sua carreira de tisiologista, em Viseu. O pulmão estava a dar de si. E lá vão mais picadelas, a fazer pneumotórax, para insuflar ar entre a pleura e o pulmão; mais injecção de cálcio e lá volto diariamente à Farmácia. Felizmente, apareceu um medicamento novo: a estreptomicina. Como era preciso aplicar uma injecção três vezes ao dia e eu não podia andar a caminhar para a botica de 8 em 8 hora, o Zé da Farmácia ensinou-me a injectar-me. Foi remédio santo. Arribei e, ao cabo de pouco tempo, estava são como um pêro. Mudei o rumo da agulha e acabou a minha convivência assídua com o Zé da Farmácia, que não a minha relação de amizade e gratidão que ficou para toda a vida.
Era proprietário e director de Farmácia Alberto Dias (Pai). Era uma figura imponente que já tinha passado pela política: fora Presidente da Câmara entre 1920 e 1925. Quando do relógio da Torre de Santo António pingavam as 4 horas, Alberto Dias saía da Farmácia, Rua Direita abaixo, na sua passada lenta e porte de faraó egípcio, Adro, calçada das retretes e enfiava na porta do Clube. Era a hora de aquietar o motim intestinal. Despejada a tripa, ficava por lá a ler os jornais. O Zé da Farmácia ficava sozinho. E dava conta do recado. De resto, com director ou sem ele, o Zé da Farmácia era o fulcro da Botica. Toda a gente se dirigia a ele.
A Farmácia era um espaço relativamente pequeno. Ao centro, uma mesa-balcão com tampo de mármore, sobre a qual assentava uma balança de precisão; de cada lado, uma grande estante de mogno repleta de grandes frascos bojudos, com drogas variadas; ainda havia médicos antigos que receitavam pelo formulário da velha farmacopeia. Estou a lembrar-me do Dr. Álvaro, que dava consulta na sua casa de Ansiães, onde uma vez me levaram: corria tudo a pontas de fogo e papas de linhaça. Para aviar a receita, estou a ver o Zé da Farmácia a pesar o bicarbonato e outras drogas, que misturava num almofariz a que juntava umas gotinhas que pingavam de um grande frasco conta-gotas; trabalhava depois o pilão e estava feita a mistela que, entre os dedos do Zé da Farmácia, ia transformar-se em pílulas, para muita gente remédio milagroso. Esta cena já era rara. A indústria farmacêutica liquidou por completo a velha farmacopeia dos tempos de João Semana. O Zé da Farmácia terá sido dos últimos a manipular medicamentos.
Nas minhas esperas para ser atendido, vi passar pela Farmácia gente de todas as conduções sociais e económicas. Por ali vi passar o clero, a nobreza e o povo, que recorriam à sabença do Zé da Farmácia. Um dia, quando ia espremer os meus furúnculos, encontrei-me com o velho Vigário, já nos últimos tempos da sua vida, lento, pesadão, pé de chumbo, a arfar e a tossir o catarro. Eu tinha sido seu menino bonito na catequese e, em vão, tinha tentado convencer-me a ir para o seminário. Mas ficámos sempre amigos. Conversámos e entrámos os dois na Farmácia. Cumprimentou o senhor Alberto Dias e o Senhor Almeida (como ele tratava o farmacêutico), sentou-se um pouco a descansar e disse ao que vinha: era tempo de fazer a sua purga anual.
De outra vez, vi entrar o Marquês de Reriz, com o seu porte fidalgo. Tinha um casal que o servia com zelo: o António e a Ilda; o António era por alguns chamado o Escudeiro do Marquês. Não que D. Diogo Reriz fosse um D. Quixote e o António um Sancho Pança. De modo algum! Mas o título de Marquês arrastara a alcunha de Escudeiro. Havia uma razão para o Marquês ir pessoalmente à Farmácia: é que ela ficava encravada no flanco do seu palácio e era uma oportunidade para visitar aquela parte da sua propriedade. D. Diogo cumprimentou, conversou, aviou a receita e regressou à sua residência senhorial e às suas actividades artísticas, os seus desenhos e pinturas. E eu, metido no meu casulo, a apreciar aquela conversação mais cerimoniosa que o habitual.
A contrastar com a pose aristocrática e a linguagem fidalga do Marquês, entrou pouco depois a personagem aburguesada do Adelino Pereira, comerciante sócio da firma Adelino e Silva. Só estava eu e o Zé da Farmácia. E o Adelino Pereira, na sua linguagem por ele considerada vernácula: “ó Zé, tenho andado com uma caganeira do caraças. Arranja-me aí alguma coisa para tapar a tripa”.
De outra vez, foi o Fradique Carvalhas, próspero comerciante com loja de fazendas e modas na Rua Serpa Pinto. Entrou e disse: “Ó Bissaia, ando à rasca, sempre a arrotar, com o estômago e os intestinos cheios de gases; arranja-me lá uma droga para resolver isto”. A princípio, fiquei intrigado com aquele “Ó Bissaia”; depois compreendi: Bissaia Barreto era um célebre médico de Coimbra que deixou nome. Era assim que o Fradique Carvalhas tratava familiarmente o seu amigo, para destacar a sua competência. Mais umas lérias, o Zé da Farmácia aviou-lhe o medicamento, deu-lhe as instruções e o Fradique Carvalhas saiu e lá foi, Rua Direita abaixo, a olhar para a biqueira dos sapatos. Por alguma razão lhe chamavam o “Marquês de Mira-Butes”.
E tantas outras personagens eu vi passar pela Botica! Era a menina que tinha lombrigas e vinha buscar remédio para as bichas; a viúva com cara de pêsames que sofria de flatos… Mas havia um mal em que o Zé da Farmácia era especialista: o mal secreto das partes íntimas dos homens. Mais do que uma vez vi entrar alguns e pedir para falar com ele em particular. Mandava-os entrar para o reservada onde fazia, os curativos. Passado algum tempo, o homem saía, trazendo na mão uma caixinha e o Zé da Farmácia dizia-lhe: “agora toma juízo e tem cuidado”. Era o tempo em que comprar preservativos ainda não se fazia às claras. E ainda nem se falava em sida! O Zé da Farmácia era bombeiro e tinha a seu cargo os serviços de saúde da Corporação, pelo usava sobre a farda uma braçadeira com a cruz vermelha. Alguns dos que o procuravam para este efeito seriam seus colegas da Bomba e recorriam a ele para lhes reparar a agulheta.
O Zé da Farmácia não se limitava ao serviço na Vila. Fechada a Botica, deslocava-se para as Termas, onde passara a residir com sua esposa D. Maria Amélia, funcionaria do Balneário. Ia sempre munido de uma rima de medicamentos encomendados, sobretudo na época balnear. Ali, continuava a ser o farmacêutico, sem farmácia.
JOSÉ DE ALMEIDA, para toda a gente o ZÉ DA FARMÁCIA, foi um profissional competente e dedicado que à comunidade sampedrense prestou valiosos serviços. Pela minha parte, esta crónica é uma homenagem à sua memória, pelo apoio que me deu em tempos difíceis da minha juventude.
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