EDITORIAL 782
Aprender com quem mais sente a crise
• Maria do Carmo Bica
Esta edição da Gazeta da Beira publica um trabalho sobre a situação económica que se vive na região de Lafões, iniciado na edição anterior sobre a situação da agricultura e do abastecimento de alimentos. Prevemos, na próxima, fazer trabalho semelhante sobre as questões florestais e a “época de incêndios”.
Quase todos os espaços comerciais e muitos prestadores de serviços estão fechados desde que foi decretado pela primeira vez o estado de emergência em 18 de março e alguns fecharam antes dessa data, por sua iniciativa.
As medidas disponibilizadas pelo Governo não estão suficientemente adaptadas à realidade das pequenas e microempresas que, frequentemente, vivem da tesouraria do mês e ficam sem condições para pagar, mesmo em lay-off, a parte que lhes cabe dos salários dos trabalhadores. O recurso ao crédito também não é solução para este tecido empresarial, porque a banca só empresta dinheiro mediante garantias e porque recorrer a empréstimos é adiar a crise.
“Encontro-me preocupado com a situação atual, porque não está fácil gerir as despesas com o comércio fechado”, afirma um empresário da restauração de São Pedro do Sul.
“Tem sido um forte golpe para o cenário económico local. Estou encerrada desde o dia 13 de março, suportando todas as despesas, sem qualquer tipo de apoio estatal até ao momento”, afirma uma esteticista de Santa Cruz da Trapa.
“Na minha opinião, devia existir apoio governamental e também autárquico, de forma a que o impacto económico nas pequenas empresas fosse salvaguardado, sem que com isso entrássemos em insolvência económica”, conclui a empresária.
Esta empresária propõe que seja lançada “uma dinâmica geral de promoção do comércio local como um todo, incutindo as pessoas a valorizarem o comércio local que não só as grandes superfícies comerciais, fazendo escolhas locais para a aquisição de produtos e serviços”.
“Fechámos o salão a 14 de março, porque achámos que era a melhor atitude a tomar devido à situação atual. Logo depois, foi decretado o estado de emergência e somos uma das atividades que não podem abrir. Não temos forma de conseguir contornar a não faturação. Não sei se vamos conseguir recuperar tão cedo, principalmente porque somos sócias gerentes e pelos vistos não somos abrangidas pelos apoios. Vamos ver…”, declara uma cabeleireira de São Pedro do Sul.
“A grande dificuldade que julgo ser geral, são as despesas certas mensalmente, numa altura em que a faturação é zero, já para não falar em perdas em produtos que as marcas não assumirão. Recebemos com bons olhos as medidas promovidas pelo Governo para ajudar a economia, mas francamente consideramos muito pouco. Das medidas propostas, existem aquelas de acesso muito restrito e outras que de alguma maneira “adiam” despesas certas, acrescidas ainda de juros, para a pós-pandemia, o que nos parece impensável, face à incerteza que se irá viver. Sabemos que há municípios que estão também a apoiar quer os cidadãos, quer as empresas locais, e vemos com bons olhos que isso aconteça futuramente no nosso concelho”.
Outro empresário, entrevistado no âmbito deste trabalho de Paula Jorge, Sub-Diretora da Gazeta da Beira, não tem dúvidas que “esta pandemia poderá ser a machadada final no comércio de rua. Como se pode entender que tenham obrigado a encerrar o pequeno comércio, quando autorizam a abertura das médias e grandes superfícies?!”
Estes depoimentos reforçam a ideia, por muitos defendida, que decretar o estado de emergência não resolveu o problema, foi mais uma manobra do PR para liderar todo este processo de resposta à crise, em vez do Governo através da declaração do estado de calamidade, conforme prevê a Lei de bases da Proteção Civil, que era a medida adequada para enfrentar esta pandemia. Estes depoimentos revelam também uma grande consciência das pessoas que, mesmo antes de decretadas as medidas de confinamento, decidiram por sua iniciativa protegerem-se e protegerem os seus clientes.
Comentários recentes