Entrevista a Mário do Carmo Pereira

A rubrica “Gente Que Ousa Fazer” será assente numa entrevista a alguém que tenha algo válido no seu percurso de vida. Gente que sabe o que quer e, acima de tudo, que luta por aquilo que quer. As entrevistas serão sempre encaminhadas de forma a mostrar o lado melhor que há em cada um de nós e, dentro do possível, ousar surpreender o leitor. Serão entrevistas com a marca das nossas gentes, da região Viseu Dão Lafões, de todos os quadrantes e faixas etárias. Vamos a isso!
• Paula Jorge
Ficha Biográfica
Nome: Mário do Carmo Pereira
Idade: 63
Profissão: Psicólogo/gestor
Livro preferido: Não há livro, mas no meu escritório tenho duas prateleiras onde guardo alguns livros de que não quero desfazer-me, porque, a qualquer momento pode apetecer-me ou precisar de voltá-los a ler, são livros como: O que Diz Molero, de Dinis Machado; O Acaso e a Necessidade de Jacques Monod e outros de García Márquez, António Damásio, Jorge Amado, Paulo Freire e alguns outros.
Destino de sonho: Por razões de natureza familiar fiz várias viagens de carro entre Portugal e a Holanda, no tempo em que andar de avião era caro, e ainda hoje me acontece ao vir de Aveiro na A25 dizer para a minha esposa: “e se seguíssemos em frente…”
Personalidade que admira:
Tenho tido o privilégio de conhecer algumas pessoas do topo mundial na minha área de atividade, ao pé das quais sentimos a nossa insignificância, mas que foram capazes de me sentir grande, mas cujos nomes pouco dirão aos leitores.
• Paula Jorge

Muito obrigada, Dr. Mário Pereira, por mostrar disponibilidade para esta entrevista da rubrica “Gente Que Ousa Fazer”. Comecemos pelo princípio.
Paula Jorge (PJ) – Descreva-nos o seu percurso académico.
Mário Pereira (MP) – O meu percurso académico começou na escola primária de Rebordinho, Campia.
Como nos idos de 1967 a melhor hipótese de estudar era ir para o seminário, eu fui para os Capuchinhos no Porto. Agora o tempo parece passar muito rápido, mas nessa altura de outubro ao Natal ou do ano novo à Páscoa era uma eternidade.
– Quando acabei o que agora se chama secundário, as minhas ideias era tudo menos claras.
– Como em 1974 o ISPA que era ao tempo a única escola de psicologia em Portugal, abriu, enquanto as outras universidades ficaram fechadas, eu fui para lá.
Sair de um internato onde tudo era devidamente controlado e organizado e cair no epicentro da revolução, em Lisboa onde nunca tinha ido antes, foi um bocado difícil e não desisti porque houve umas amigas que me convenceram a continuar. Com o tempo comecei a gostar das reuniões e da confusão, acabando por serem tempos em que aprendi imenso. Talvez mais da vida que da psicologia.
O que aprendi nas aulas teve a sua importância, mas aprender a conduzir reuniões bem como o hábito de não aceitar nada como definitivo ou certo foram igualmente úteis na minha vida profissional.
Hoje tenho pena que os jovens na universidade só aprendam o que dizem os professores e os livros, ficando-se a aprendizagem da vida pela obediência das praxes e as bebedeiras das queimas.
PJ – Pode partilhar connosco o seu percurso profissional?
MP – Fiz o meu curso como trabalhador estudante.
Comecei a trabalhar no colégio S. Francisco de Sales, onde trabalhei como o que hoje poderia ser auxiliar de ação educativa, que era propriedade do professor Antonino Amaral, de Rebordinho, o qual seria uns anos depois foi integrado no Instituto Jacob Rodrigues Pereira, que era e ainda é a escola para alunos surdos da Casa Pia de Lisboa.
O meu primeiro trabalho como psicólogo foi na ARCIL na Lousã – uma associação que apoia pessoas com deficiência – onde trabalhei de 1981 até ser desafiado para colaborar no projeto da ASSOL, o que levou a mudar-me para Lafões em 1989.

PJ – Enquanto Diretor Executivo da ASSOL (Associação de Solidariedade Social de Lafões) quais os seus principais objetivos dentro desta grande instituição?
MP – O grupo de fundadores tinha preocupações que iam no sentido de criar apoios para que as pessoas com deficiência tivessem acesso a direitos básicos, como a saúde, educação ou trabalho. A ASSOL sempre foi um projeto de combate por direitos e não apenas pela criação de serviços de assistência a pessoas com deficiência.
Foi este lado de militância social que me cativou e é a ideia da ASSOL como projeto de militância e de transformação social que tenho tentado ajudar a crescer e fortalecer-se.
O objetivo não é criar um mundo especial para as pessoas que apoiamos, mas sim capacitá-las e apoiá-las para que sejam reconhecidas como cidadãos com direitos e valores.
Também sempre quisemos mobilizar e potenciar o contributo de toda a comunidade para este processo de inclusão social e por isso hoje a ASSOL não funcionaria sem apoios financeiros do estado, mas também não funcionaria sem as cerca de 450 parcerias com empresas, IPSS, autarquias e serviços públicos que tem.
Algumas pessoas que conhecem bem o que é apoios às pessoas com deficiência em Portugal dizem-nos que o que temos em Lafões, comparado com realidade da generalidade do país, é um paraíso, o que naturalmente nos deixa orgulhosos.
PJ – O Dr. Mário Pereira tem uma obra feita. Como começou esta paixão pela escrita?
MP – Tarde.
– Lembro de na escola ter apanhado algumas reguadas por causa de erros ortográficos e as “composições” que escrevia não se distinguiam pela originalidade, pelo tamanho nem pela correção ortográfica.
– os livros em que tenho estado envolvido têm todos ligação à minha atividade profissional, pois não tenho jeito para contar histórias.
O primeiro livro de que sou coautor chama-se “Uma Perspetiva de organização Curricular para a Deficiência Mental” e data de 1992 e foi editado pela Fundação Calouste Gulbenkian.
Na altura havia muito pouca literatura de apoio para os professores de educação especial fazerem programas educativos para os seus alunos e quando comecei a trabalhar como psicólogo os professores vinham, frequentemente, pedir que os ajudasse a fazer os programas dos seus alunos.
A grande motivação para escrever o livro, com o meu amigo Fernando Vieira, foi fazer um livro onde os professores pudessem ir ver como fazer programas e não me viessem perguntar.
Nesta linha e com o mesmo grupo de pessoas escrevemos em1996 “Se houvera quem me ensinara …” também editado pela Gulbenkian e que veio a ter 5 edições.
Fomos tão bem ou tão mal sucedidos que nunca mais me pediram para ajudar a fazer programas para alunos com deficiência.
PJ – Pode falar-nos do seu percurso na escrita enunciando as suas publicações?
MP – Na ASSOL desde muito cedo começámos a perceber a importância de escrever o que pensamos. Porque escrever obriga-nos a pensar mais e a refletir, também nos ajudava-nos a enquadrar a pessoas que chegavam à ASSOL e além disso dava uma imagem mais consistente do nosso trabalho junto dos financiadores e no nosso setor de atividade.
Para os leitores da Gazeta mais do que os títulos dos livros que podem encontrar no site www.assol.pt poderá interessar a ideia que os atravessa.
Os meus primeiros livros assentavam na ideia de conseguirmos ensinar às pessoas com deficiência o que nós achávamos que elas precisam.
Os trabalhos que temos feito na ASSOL fundam-se abandonaram essa ideia, pois passamos a acreditar que aquilo que é importante é ajudar cada pessoa alcançar o que ela deseja e ajudá-la a construir um futuro com esperança.
O passado é importante porque nos permite aprender, mas não podemos alterá-lo. O futuro é uma página em branco que podemos ajudar a escrever. Por isso é muito estimulante poder ajudar alguém a construir o seu futuro, sobretudo ajudar pessoas com passados negros a imaginarem futuros com alguma cor e com esperança.

PJ – Tem também um percurso ao nível da coordenação. Pode referir quais as edições que coordenou, quer ao nível de livros, quer ao nível de revistas?
MP – Nos últimos anos tenho sido, em representação da ASSOL, presidente da direção da FORMEM, que é uma federação nacional de entidades que promovem a formação profissional e o emprego das pessoas com deficiência, e nesse âmbito temos feito um esforço para todos os anos fazermos uma publicação.
Pois a única forma de partilhar o pensamento é registá-lo e para mim a forma mais fácil de fazer esse registo ainda é a escrita.
Uns anos são coisas nossas outras são trabalhos de outras pessoas que estavam perdidos e a que procuramos dar vida.
PJ – O Dr. Mário Pereira tem uma larga experiência como conferencista em Portugal e no estrangeiro. Fale-nos das diversas etapas desta experiência na sua vida.
MP – Falar em público era uma coisa que durante muitas anos me assustava.
Hoje não me assusto, mas ainda me enervo, e uma das coisas que gosto de fazer é chegar cedo, experimentar se tudo funciona e ver as pessoas a entrar na sala.
Se há coisa que é particularmente irritante é quando me convidam para ir falar num evento e me dizem que falo às duas da tarde e quando lá chego às 13 e 30 ainda estão a falar os conferencistas da manhã.
PJ – É ainda Formador Certificado do Conselho Científico da Formação Contínua de Professores. Quer partilhar connosco esta sua vertente?
MP – Sou um formador acidental e regra geral limito-me a temas da minha atividade profissional. Não sou bom a ensinar e não gosto de fazer cursos de longa duração.
PJ – Como estão a viver esta atual situação do estado de emergência, devido ao covid-19, dentro da instituição ASSOL?
MP – Penso, que como toda a gente, lidamos mal.
Eu próprio, tinha um plano belíssimo para uma reunião de família na Páscoa que foi por água abaixo, pese embora continue a trabalhar na ASSOL, praticamente todos os dias, para dar resposta às coisas que continuam a acontecer e para organizar o trabalho dos colegas que trabalham à distância e tenha o um quintal, já começo a estar fartinho do COVID e da quarentena.
A nossa grande preocupação é que a cura não se torne pior que a doença. Temos pessoas que precisam de apoio com as quais vai para dois meses não podemos fazer atividades presenciais.
A nossa esperança é que no princípio de maio possamos começar a fazer algumas coisas, ainda que isso implique muitas adaptações.

PJ – Para além da sua vertente profissional, que outras paixões nutre, que o completam enquanto pessoa?
MP – A escrita das Crónicas do Olheirão com o tempo transformou-se num vício. Devo dizer que de certo modo é uma escrita difícil, mas também estimulante. Ter um tempo limitado para escrever um texto, também ele limitado, dá uma certa pica.
Sou um psicólogo com interesse pela economia e a agricultura. Se a vida tivesse sido outra talvez fosse um agricultor com interesse pela economia e pela psicologia ou um economista com interesse pela agricultura e pela psicologia.
Além disso interessa-me a política e gosto de ir participando na política local de formas variadas., pois uma das minhas dificuldades é obedecer a líderes e às normas de organizações partidárias ou outras.
Eu acho que uma das belezas das leis da organização social é que ela se pode mudar se a gente pensar nisso e se organizar. Cada um de nós vai tendo oportunidades de colocar alguns pauzinhos na engrenagem que a façam ir virando-se para uma melhor direção.
PJ – Apenas numa palavra, pode descrever-se?
MP – Há quem diga que sou casmurro e teimoso.
O que traduzido em palavras mais simpáticas poderia dizer-se: persistente, alguém que precisa de ser convencido para mudar de ideias, mas leal.
PJ – Para fechar esta entrevista, o que me diz o seu coração?
MP – Dar é sempre mais fácil e mais agradável do que receber.
Por isso, neste tempo de crise é bom pensar que regra geral as pessoas que recorrem à ajuda precisam de mais coragem e força do que quem dá.
PJ – Quero, em meu nome pessoal e em nome da Gazeta da Beira, dizer-lhe que foi uma enorme honra, Dr. Mário Pereira! Desejo-lhe a continuação de um excelente trabalho e MUITO OBRIGADA!
Peço-lhe que deixe uma mensagem a todos os nossos leitores em particular e aos sampedrenses em geral.
MP – Cada um de nós pode sempre ser importante para alguém. Aproveitem as oportunidades que tiverem.
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