Entrevista a José Pinto Carneiro integrada no projeto “Da Serra para a Fábrica”

• Arquivo Digital Binaural Nodar (www.archive.binauralmedia.org)

Publicamos mais um documento audiovisual integrado no projeto “Da Serra para a  Fábrica”

Publicamos mais um documento audiovisual integrado no projeto “Da Serra para a Fábrica” da Binaural/Nodar e da Biblioteca Municipal de Castro Daire, o qual visa resgatar, pensar e expressar criativamente sobre as memórias da diáspora migrante para a zona oriental de Lisboa ao longo do século XX, com a particularidade de a maioria dessa gente ser oriunda da Beira Alta, nomeadamente dos concelhos de Castro Daire, Cinfães, Resende e São Pedro do Sul. O projeto faz parte da rede cultural “Where the city loses its name” co-financiada pelo Programa Europa Criativa e que junta a Binaural Nodar, os parceiros espanhóis/catalães da LaFundició e os romenos da Fundatia Altart.

José Pinto Carneiro é um contador de histórias com uma memória prodigiosa. Nascido na aldeia de Cetos (freguesia de Pinheiro, concelho de Castro Daire), teve uma infância difícil de trabalho e de uma relação complicada com seu pai e suas irmãs. Conta ele que certo dia estava a junguir uma junta de vacas com uma das irmãs e esta acabou de junguir a sua primeiro e empurrou-o para que se despachasse com a outra vaca. Dominado pela revolta, acabou por bater na irmã com uma aguilhada de chamar as vacas, situação que apenas a sua mãe compreendeu, já que foi o culminar de anos de humilhação.

José Carneiro é também, tal como sua mãe foi, um poeta popular que conta versos de memória de situações da sua vida. A propósito da sua infância difícil, fez o seguinte poema:

As minhas irmãs eram más

Muita porrada me davam

Palavrões eram sem conta

Até lambão me chamavam.

O meu pai não se importava

Por vezes ele até se ria

Porque de mim não gostava

A sua menina era a Maria.

Perdoo mas não esqueço

Tudo quanto me fizeste

Os desgostos que me deste.

Sem eu nada disso merecer

Só esquecerei tudo isso

Quando um dia morrer.

Depois de fazer a tropa em Viseu rumou até Lisboa onde começou por viver numa barraca no Bairro Chinês enquanto era servente de limpeza no Hospital Júlio de Matos e nas folgas trabalhava na estiva a “alombar” sacas de 60, 70 e até 80 quilogramas. Certo dia foi inscrever-se na Sociedade Nacional de Sabões em Marvila e com a ajuda de um conterrâneo, o José “Gordo” de Feirão (concelho de Resende), conseguiu que a sua ficha de inscrição fosse passada para cima da pilha, tendo assim sido contratado, inicialmente para o departamento de cargas e descargas de sacas de miolo de coco, girassol, soja, etc. para fazer sabões e outros produtos de limpeza. Esta empresa era um grande conglomerado onde trabalhavam mais de mil empregados, sendo José Carneiro o empregado nº 756. No perímetro da fábrica havia para além da SNS, a Fábrica Nacional de Margarinas, as Rações Vitamil, as Resinas Cires, mais tarde a Colgate-Palmolive e outras.

José Carneiro e a sua família viveram quatro anos numa barraca tendo, por alturas do 25 de abril de 1974, respondido positivamente a um inquérito da Cáritas Portuguesa sobre o interesse em fazerem parte de um cooperativa de habitação de renda económica, a PRODAC. As casas pré-fabricadas foram construídas em pouco tempo, tendo os acabamentos sido aplicados pelos próprios inquilinos com materiais cedidos gratuitamente.

A vida não era só trabalho e José Carneiro partilhou retalhos interessantes da vida social de Marvila, como os bailes do Solidó, os convívios nas tabernas para jogar cartas ou damas e o futebol no Clube Oriental de Lisboa, onde se recorda ter visto grandes jogos e alguns jogadores emblemáticos como o guarda-redes Azevedo que num jogo com o Benfica defendeu um pénalti marcado por Eusébio, Carrapito, Viriato ou o brasileiro Sapinho.

Quase a terminar a entrevista, José Carneiro resumiu a sua vida em Lisboa num poema que se aproxima da epopeia pessoal:

Fiz a recruta em Viseu

Em Abrantes especialidade

Na Guiné vinte e um meses

Bem contra a minha vontade.

Quando regressei da tropa

Pensei logo em emigrar

Mas o destino foi Lisboa

E aqui me encontro a trabalhar.

O meu primeiro trabalho

Aqui na grande Lisboa

foi na estiva a alombar sacas

Coisa que não era boa.

Depois mudei de serviço

Fui trabalhar para o hospital

Mas também não me agradou

Pois cheirava lá mal.

Chamava-se Júlio de Matos

Hospital onde trabalhei

O ordenado era pouco

E para eu não ficar louco

Por isso de lá abalei.

Depois mudei de trabalho

Fui ganhar mais uns tostões

Era uma fábrica em Marvila

A Sociedade Nacional de Sabões.

Foi durante muito tempo

Que lá ganhei os meus tostões

Hoje já está na falência

Porque já não tem patrões.

Depois mudei de trabalho

Fui trabalhar para a Henkel

Mas não conheci o patrão

Produzia-se mais e melhor

Porque tinha boa gestão.

“Entrevista parte do Arquivo Digital Binaural Nodar (www.archive.binauralmedia.org) com o código NODAR.00771 e integrada no projeto “Da Serra para a Fábrica” da Binaural/Nodar e da Biblioteca Municipal de Castro Daire, o qual visa resgatar, pensar e expressar criativamente sobre as memórias da diáspora migrante para a zona oriental de Lisboa ao longo do século XX, com a particularidade de a maioria dessa gente ser oriunda da Beira Alta, nomeadamente dos concelhos de Castro Daire, Cinfães, Resende e São Pedro do Sul. O projeto faz parte da rede cultural europeia “Where the city loses its name” co-financiada pelo Programa Europa Criativa e que junta a Binaural Nodar, os parceiros espanhóis/catalães da LaFundició e os romenos da Fundatia Altart. Entrevista realizada por Luís Costa (Binaural/Nodar) na Biblioteca Municipal de Castro Daire, no dia 14 de janeiro de 2020.

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