António Gouveia

Vivemos um tempo bíblico, também de esperança

“Os problemas sociais em 1340 pareciam preocupar reis (em Portugal, Afonso IV) e conselheiros. A aristocracia gastava demais e tendia a arruinar-se, uma burguesia próspera rivalizava com os nobres, a terra já não bastava como fonte suficiente de rendas por não poder competir com os lucros do comércio e artesãos. À falta de outras fontes, a peste negra de 1348 trouxe um sinal muito mais claro do que se estava a passar. Não sabemos em que medida a epidemia traduziu uma causa ou apenas um fator de aceleração, contudo, as provas da crise mostraram-se depois de 1348 a uma luz diferente”(1).Foi a mais mortífera de todos os tempos, dizimou um terço da população portuguesa e chegou à Europa vinda do Mar Negro, desde o cerco de Caffa, na Crimeia, cidade sitiada pelos mongóis que a trouxeram da Ásia e a usaram como guerra bacteriológica, arremessando para dentro das muralhas os cadáveres dos pestíferos e  dizimando, só na Europa entre 30 e 50 milhões(2). Esta pandemia do corovid-19, uma de muitas da história, avaliada como brutalidade apocalítica, faz-nos refletir seriamente, minimizá-la é estupidez, a informação que nos cai em catadupa, as imagens de gente angustiada, temerosa e desconfortável que vemos na TV, desde a China – felizmente, já em regressão -, é um sinal de esperança. Mas que continuamos a ver na Itália, na Espanha e outros países, violenta e transversal a todas as regiões e classes sociais, arrasadora e mortal como percebemos.

Basta, por isso, não quero vestir a pele do mensageiro de Temístocles na  catástrofe das Termópilas, apenas olhar o futuro. O perigo não passou, bem ao contrário, devemos refugiar-nos, fugir da rua e contactos sociais, aproveitar o tempo de quarentena para meditar e rezar, uma das muitas formas de autoajuda sempre que a humanidade se confrontou com guerras e catástrofes. Falo em meditar, temos tempo, devemos parar um pouco, andamos cheios de pressa, é preciso pensar nas nossas vidas, também nos problemas ambientais e dos outros, sentimo-los e não ligamos, esquecemo-nos que são sinais de alerta as alterações climáticas a que temos assistido, não acontecem por acaso, a natureza anda revoltada com as nossas asneiras e distrações, não ouvimos os alertas de Bill Gates, o filantropo americano, desde 2005, mais que uma vez, nos falou nesta pandemia, relemos o que escreveu e pasmados com esta nossa imbecilidade muito nefasta. Estamos de novo sitiados. Duplamente, não por guerreiros mongóis, mas por um exército de biliões de vírus que se multiplicam e transmutam, soldados microscópicos e invisíveis nesta guerra bacteriológica e devastadora, com várias frentes e  flancos de combate pronta a dizimar aldeias, vilas e cidades. E, dela, duas consequências brutais: uma, muito perigosa e cruel, sobre as nossas vidas; outra, sobre a economia, não só a nossa, mas global, mais grave do que a que se abateu em 2008 e, por tabela, em 2011, no envidamento público e privado (particulares e empresas) que começará a trepar de novo com esta paralisação empresaria, o PIB a sofrer um abalo longe ainda de avaliar. As taxas de juro subirão, também a inflação; o poder de compra e a capacidade produtiva das nossas empresas diminuirá, tudo cenários  problemáticos que requerem da nossa parte muita coragem, sorte, nervos de aço e muito equilíbrio durante esta crise, também muita solidariedade, diria até, e voltando ao passado, caridade, uma forma de amor na sua melhor expressão e extensão. E muita fé em Deus, pois então. Não há que ter vergonha em ser cristão, só Deus nos poderá tirar desta amargura e sofrimento, um sofrimento necessário e útil porque avisado no temor e respeito pela natureza, esta violência imparável contra o ambiente, se nada for feito, levar-nos-ia à perdição.

(1) A. H. de Oliveira Marques – Breve História de Portugal

(2) Jaime Nogueira Pinto in Observador

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