Manuel Silva
AS SEMENTES DO CAVAQUISMO E A VACA SAGRADA DO REGIME
Como há mais vida para além do “coronavirus” ou “covid-19”, ainda que alarmante e perigosa a sua cada vez maior propagação, vou escrever mais uma análise política.
No tempo do primeiro governo, minoritário, de Cavaco Silva, estando a esquerda em maioria no parlamento e, derrotando propostas do executivo ou aprovando legislação com discordância do mesmo, como foi o caso do fim do famigerado e burocrático papel selado, o então primeiro-ministro teve esta tirada: “deixem-nos trabalhar”. Ou seja, não exerçam o vosso direito de oposição e deixem-nos fazer o que queremos, sem entraves, até porque, como Cavaco dizia, na altura, “nunca me engano e raramente tenho dúvidas” e “os problemas principais do país não são políticos, mas técnicos”. A tecnocracia e o constrangimento perante a democracia!
António Barreto classificava Cavaco como “a-democrata”, José Miguel Júdice, então presidente da distrital de Lisboa do PSD, falava de “tecnocracia sem alma”, o deputado socialista, à época, Sotto Mayor Cardia, disse frontalmente ao chefe do governo, num debate parlamentar, “o senhor só não é um ditador, porque a Constituição não lho permite”.
Já nos “finalmente” do cavaquismo, como diria Odorico Paraguaçú, o ainda primeiro-ministro falava de forças de bloqueio, referindo-se ao Presidente Mário Soares e aos magistrados, principalmente aos magistrados do Ministério Público, quando alguns companheiros seus começaram a ser alvo da Justiça por indícios ou suspeitas de actos ilícitos.
Cavaco Silva já acabou politicamente, mas as suas sementes ficaram por S. Bento, renascendo agora com o PS e o governo também minoritário de António Costa.
Em 1976, o PS tentou, então sob a direcção de Mário Soares, a “mexicanização do regime”, tornando-se na versão caseira do Partido Revolucionário Institucional do México. Não conseguiu. Houve forças suficientes para o impedir.
Quando no poder, com ou sem maioria absoluta, o PS também não convive bem com a oposição. O actual executivo e seus apoiantes, com destaque para Ana Catarina Mendes, também apelam ao PCP, ao BE, aos Verdes, ao PAN e a Joacine Katar Moreira, para que os deixem governar e levar avante o seu programa em paz. A lógica é a mesma de Cavaco Silva.
Os socialistas acham-se a “vaca sagrada” do regime. Quando algum deles está a contas com a Justiça, como foi e é o caso do ex-líder socialista e ex-primeiro-ministro, José Sócrates, é tudo mentira, é tudo perseguição política. Nas democracias não há, ou não deveria haver, mais propriamente, intocáveis.
Está visto que os dois maiores partidos do regime, quando são poder, não convivem bem com quem lhes faça frente. A democracia também é isto, meus senhores.
Quando governaram em maioria, PSD e PS abusaram do poder. Por essas e por outras, os governos maioritários de um só partido parecem ter acabado por alguns anos. Como dizia o Sr. Artur, de Lourosa da Trapa, infelizmente já falecido, “o povo português sabe muito na sua ignorância”.
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