Francisco Almeida Dias

Rubrica Portugal é mátria

Era uma vez uma menina, muito bonita e destemida, que um dia resolveu aventurar-se por espaços povoados de fantasmas de santos, heróis e monstros. Ia dando pequenos passos e alumiando, com a luz da sua candeia, esse espaço que alguns diziam ser o tempo das trevas, mas que era, na verdade, o lugar da maravilha. E ela exaltava o bom e o belo de cada um desses espetros, punha-os a falar consigo, restabelecia assim o fio rubro que os ligava à vida…

Podia começar desta maneira um conto infantil, onde o fantástico e o real se entrecruzassem harmoniosamente, como poderia também iniciar assim uma biografia (conquanto criativa) de Carla Varela Fernandes. Considerada pelos seus pares uma das maiores medievalistas portuguesas da atualidade, acaba de lançar em Coimbra e em Lisboa o seu último trabalho: Santos, Heróis e Monstros, O claustro da abadia de Santa Maria de Celas. Edição bilingue e de extremo requinte estético nas suas qualidades gráficas – com as excelentes fotografias de, entre outros, José Pessoa e Sergy Scheblykin, e o retrato da autora de Paulo Alexandre Martins, de que aqui reproduzimos algumas provas – o volume foi publicado pela prestigiada casa editora Colibri de Fernando Mão de Ferro, e teve o mecenato da Fundação Millennium BCP.

A tese subjacente a este livro, profundamente documentado e profusamente alicerçado por uma rigorosa análise iconográfica e estilística do programa decorativo dos capitéis do claustro do antigo convento cisterciense, é a de que parte substancial desse património, anteriormente atribuído a uma época mais tardia, será, na verdade, datável da segunda metade do século XIII. Surgido em Coimbra, este é um espaço que fala, simultaneamente, de uma terra do poder, por ali ter pousado tantas vezes a nossa Corte durante a primeira dinastia, e de uma terra da possibilidade, unindo as características geológicas autóctones ao desejo de afirmação social e política, de que a arte é também (e sempre) testemunho. Duas mulheres estão-lhe profundamente associadas: antes de mais, a fundadora, a infanta Beata Sancha, filha de D. Sancho I, irmã de Teresa e Mafalda, também elas fundadoras de conventos femininos da Ordem de S. Bernardo, mas sobretudo uma benfeitora, D. Berengária Aires de Gosende, sob o patrocínio de quem teriam sido edificadas em pedra as duas alas claustrais, objeto deste estudo.

Se é imediatamente evidente a cientificidade da pesquisa histórica e a força da argumentação que dela surge, é também notável a qualidade literária deste trabalho, essa narratividade que nos religa, pelo canal privilegiado do encantamento, à humanidade da obra e à afetividade do que é humano. Como dizia o Prof. Doutor Vítor Serrão nas primeiras aulas de História da Arte aos seus alunos da Faculdade de Letras (e, entre eles, contavam-se Carla Varela Fernandes e eu mesmo) a relação entre um historiador e a obra de arte, sobre a qual todo o trabalho científico deverá assentar, é, antes de mais, a do encanto. Trata-se, então, de deixar falar a forma, porque ela é

portadora de uma verdade que, muitas vezes, as palavras iludem na sua imediatez. Se, depois de se deixar encantar pela obra, o historiador for capaz de transmitir também esse encanto, então cumpre a sua missão – que é a de contribuir para a eficácia comunicativa de um objeto a que reconhecemos qualidade artística, que por isso qualifica a nossa vida e renova nela o desejo de participar desse encantamento, eternizando-a ao correr das eras.

Carla Varela Fernandes sublinha também, da sua perspetiva histórica, a transtemporalidade dos grandes temas que inquietam a existência humana e que, no passado como hoje, tomam muitas vezes a familiar forma das imagens, através das quais a nossa mente as recebe e o nosso coração as aceita. Quão familiar nos é ainda hoje todo o bestiário que a

autora reevoca no seu livro? Talvez não lhe chamássemos “monstro andrófago”, “senhor dos animais” ou “bailadeira”, mas facilmente os poderíamos identificar entre os repertórios de maior longevidade na arte

europeia e mundial, do quatrocentista flamengo Hieronymus Bosch a Bela Silva, autora da decoração azulejar de uma das estações de metropolitano de Lisboa, passando naturalmente pelos “Caprichos” de Goya e tantos, tantos outros. O paradisum claustralis de Bernardo de Claraval, habitado por estas presenças fantásticas, a par das cenas que retratam a vida da Virgem, de Cristo e do panteão católico e de alguns elementos de forte simbolismo ou de identificação heráldica, é certamente um paraíso para a autora, que com eles dialoga e sobre eles nos esclarece.

Desde sempre atraída pela ideia de que o corpo é um aparato, que exprime no universo a uma individualidade, tanto no movimento da dança como na afirmação de um indumento, cursou primeiramente Design de Moda no IADE, onde o contacto com Helena Souto se lhe iria revelar fundamental na mudança de rumo para História da Arte. Será depois de ler Os Intelectuais na Idade Média de Jacques Le Goff e de uma longa vigília em que o seu sono é assaltado por uma plêiade de presenças antigas, que se decide a sua vocação de medievalista, que, dali em diante, nunca porá em dúvida. À licenciatura seguem-se imediatamente mestrado, doutoramento e pós-doutoramento, enquanto inicia, em paralelo, a sua atividade no mundo da museografia – iniciada na Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, ao lado do grande amigo e atual diretor do Palácio Nacional da Ajuda, José Alberto Ribeiro. Portanto, para Carla Varela Fernandes, a investigação – muito centrada nessa paixão de “decifrar” as imagens, que fez

do seu doutoramento o primeiro realizado em Portugal sobre a iconografia da família real portuguesa da I Dinastia – vem sempre a para da comunicação, e disso mesmo é eloquente testemunho o seu novo livro.

A atestar também essa dúplice propensão, as suas participações em congressos nacionais e internacionais da especialidade, a par das suas atuais funções na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Lisboa como Professora Auxiliar e membro integrado do Instituto de Estudos Medievais, da mesma Faculdade. Por um lado, o seu trabalho, solitário e aprofundado, do qual têm resultado inúmeras publicações; por outro, as visitas guiadas (em que ensaiou a sua vocação para o ensino) e as anteriores experiências como Conservadora do Museu Arqueológico do Carmo, em Lisboa, Coordenadora do Fórum Cultural de Alcochete e como Chefe da Divisão de Museus da Câmara Municipal de Cascais. E todas estas coisas acompanhadas pelo mais belo sorriso, a voz bem timbrada e macia, a elegância dos gestos e o requinte no modo como se apresenta.

Encontro Carla Varela Fernandes numa bela manhã de sol no pátio da Faculdade, onde o seu ar jovem e alegre a mimetiza com os estudantes. Tem-se a sensação de ser ela, real e continuadamente, a menina destemida, que um dia resolveu aventurar-se por espaços povoados de fantasmas de santos, heróis e monstros – como se caminhasse nestas duas realidades paralelas. A História da Arte portuguesa está-lhe reconhecida e espera, para breve, a vinda a lume das suas investigações sobre os túmulos de Pedro e Inês…

 

 

 

 

 

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