Nuno Campos
Guaxinim: o Invasor Americano

O guaxinim (Procyon lotor) é um carnívoro de porte médio nativo da América do Norte e Central, mas que apresenta populações introduzidas em várias regiões do mundo, inclusivamente na Europa, Rússia e Japão. Na Península Ibérica, existem populações estabelecidas e reprodutoras em várias regiões de Espanha, particularmente no centro do país, tendo sido recentemente detetada a sua presença pontual em Portugal. Nas regiões onde é introduzido, como resultado de fugas acidentais ou propositadas de cativeiro, esta espécie invasora apresenta vários efeitos negativos sobre a fauna nativa, através de predação (e.g. sobre roedores, anfíbios e aves nidificantes no solo), competição (e.g. com outros mesocarnívoros) e como reservatório de doenças parasitárias, incluindo um nematode fatal ao ser humano. Populações introduzidas de guaxinim constituem, assim, um risco para a biodiversidade nativa e a saúde pública.

Esta espécie ocorre num largo espetro de habitats, desde que haja presença de água, como margens de rios e ribeiros, pantanais e até mesmo zonas costeiras. Habitam preferencialmente zonas com galerias ripícolas bem desenvolvidas, utilizando árvores de grande porte e ocas como locais de refúgio. É uma espécie com elevada capacidade de adaptação, podendo mesmo coexistir com populações humanas em áreas urbanas. Apesar de ser um carnívoro, comporta-se geralmente como um omnívoro oportunista, alimentando-se de frutos, invertebrados, peixes, anfíbios, répteis, aves, micromamíferos e até de lixo humano, apresentando uma enorme plasticidade na sua dieta. Na Península Ibérica a sua principal presa parece ser o lagostim-vermelho (Procambarus clarkii), também uma espécie invasora, embora o guaxinim possa consumir uma grande variedade de outras presas, incluindo muitas espécies nativas e ameaçadas. Estão ativos maioritariamente durante o período noturno, embora na Primavera apresentem maior atividade, pois é a época de reprodução e acasalamento da espécie. Durante o Verão e Outono estão também bastante ativos, procurando acumular reservas para sobreviver durante o Inverno, quando o alimento é mais escasso.
Os guaxinins apresentam um peso que pode variar entre os 4 e os 12kg. A cabeça é larga, com um focinho curto e fino, as orelhas separadas e redondas, e os olhos grandes e escuros. O resto do corpo é largo com membros curtos e cauda volumosa. Quanto à pelagem, apresenta tons cinzentos claros e escuros, ou mesmo avermelhados. Apesar de raros, podem ocorrer casos de albinismo. As principais características desta espécie são a “máscara” facial escura em torno dos olhos e as 5 a 7 riscas escuras na cauda. Devido ao seu porte e coloração, nomeadamente a cauda anelada e a “máscara” facial, esta espécie pode ser ocasionalmente confundida com a geneta (Genetta genetta), ou o texugo (Meles meles).

Os indícios de presença desta espécie são muito característicos. A pegada do guaxinim é praticamente inconfundível, marcada por 5 dedos, compridos, finos e bem separados. Por vezes é possível observar-se as unhas, estreitas, compridas e um pouco curvadas. As pegadas das patas traseiras são maiores e mais alongadas, apresentando também os 5 dedos.
Os seus dejetos são geralmente depositados em latrinas localizadas em troncos de árvores caídas, cavidades ou rochas. São compostos, normalmente, por fragmentos cilíndricos, podendo, por vezes, ser confundidos com os dejetos de um canídeo (ex. raposa). Quanto ao odor, enquanto está fresco é intenso e desagradável.
Apesar de ser um animal esteticamente bonito, trata-se de uma espécie invasora em Portugal cuja presença pode significar um perigo sério para a fauna nativa, bem como para a saúde pública. Assim, identificar a presença de populações silvestres desta espécie é de extrema importância para detetar e controlar precocemente a sua expansão para novas áreas assim como mitigar futuras consequências ecológicas.
Caso conheça registos de guaxinim em liberdade ou cativeiro, agradecemos o envio de informação sobre o local e data da observação para Vasco Valdez: vascodx97@gmail.com / 914650693 / https://www.facebook.com/vasco.valdez.7. A informação recolhida será utilizada no âmbito da Dissertação de mestrado do Vasco Valdez, projeto resultante de uma parceria entre o Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (cE3c), da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e o CIBIO – Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos – InBIO Laboratório Associado, da Universidade do Porto.
Para mais Informação:
Biólogos estão a estudar risco de expansão do guaxinim em Portugal
Como identificar um guaxinim
FOTOGRAFIAS DE GUAXININS, SUAS PEGADAS E DEJECTOS – Copyright © Jorge F. Layna
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