Coisas e Gente da minha Terra por NAZARÉ OLIVEIRA

O Escola

O texto que hoje se publica exige uma explicação prévia: é um conto da minha autoria; e, como também eu faço parte das “Coisas e Gente da Minha Terra”, justifica-se a sua inserção nas minhas crónicas. Em 1998, decorria a celebração do Centenário da Escola de Emídio Navarro. Do programa faziam parte os Jogos Florais, nas modalidades de Poesia subordinada ao mote “Escola, 100 anos estão cumpridos” e Conto, tema livre. Havia duas secções, uma para Alunos e outra para Professores. Como gosto de escrever, concorri. Obtive o 1º prémio nas duas modalidades, com um soneto e um conto, para o qual me inspirei na vida da Escola e num cão vadio que por lá apareceu. O Carlos, chefe do pessoal auxiliar baptizou-o com o nome de ESCOLA. E o cão lá ficou, como mascote, até morrer. Esta é a realidade. O entrecho do conto é ficção. Vamos então ao conto:

 

O ESCOLA

Estirado no mármore fresco do patamar da entrada, focinho estendido entre as patas dianteiras, olhos fechados, numa imobilidade só interrompida por um bater de rabo ou abanar de orelhas quando alguma mosca o importunava, enfronhado na sua meditação de cão-filósofo a rondar a terceira idade, recordava como viera ali parar.

Nas suas andanças de cão vadio, adregara, um dia, dirigir-se àquela casa, de grandes portões, gente a entrar e a sair, campainhas a tocar… Muita gente nova! Rapazes e raparigas! Estudantada! Entravam por um dos portões. Pelo outro, entravam pessoas mais velhas. Deviam ser professores! Sorrateiro, foi entrando atrás dos alunos e ficou-se pelo recreio. Repararam nele e deram-lhe de comer. Voltou e depressa concluiu que, ali, havia sempre trincadeira. Ficou freguês. Lá ia todos os dias tirar a barriga de misérias, até que passou também a dormir. Tinha arranjado casa. Cama e mesa! Só não era roupa lavada, porque cães não usam roupa. De vez em quando, até lhe davam um banho de agulheta, para o livrar das pulgas e das carraças. Foi ganhando confiança e, um dia, subiu mesmo os degraus da entrada principal. Gostava de se estender ali, a ver entrar os professores.

Nos primeiros tempos, uma coisa o intrigava: quando o Carlos lhe trazia a comida, ouvia-lhe sempre dizer “escola, escola”! Começou a pensar que aquilo era com ele e acabou por compreender que tinha sido baptizado. Tinha um nome: ESCOLA. Até aí, sempre lhe tinham chamado cão. Que isso não era nome de gente sabia ele. Isto de ter um nome sempre dava um certo conforto! Sentia-se alguém. Pena que não lhe tivessem posto uma coleira com o bilhete de identidade! Em boa hora ali viera parar! Nunca mais lhe atiraram pedradas. Nunca mais o escorraçaram. Nunca mais passou fome. Nunca mais levou vida de cão! Todos o tratavam bem, mas o Carlos e a velhota da cantina tinham lugar especial no seu coração. E, a bem dizer, o Carlos era o seu padrinho! E, para comer, nem lhe exigiam aquele papelito que era preciso para se entrar na cantina. Verdade que ele não entrava. Ficava à porta, mas nem por isso deixava de ser bem servido. Por ali passava o dia, deambulando, dormitando… Também já não estava para grandes andanças! Um passeiozito pelas redondezas e regressava a penates. O jardim fronteiro era um dos seus lugares preferidos. Ouvia chamar-lhe Jardim de Santo António.

No fim da primeira semana, apanhou um susto dos diabos. Ao chegar à Escola, encontrara tudo fechado. Andou por ali às voltas e nada. Temeu pela manjedoura. Lá se amanhou como pôde. No dia seguinte voltou. Tudo aberto, a rapaziada a entrar e a sair e, à hora do almoço, o Carlos a estender-lhe a paparoca. Mais tarde, vieram as férias, mas o Carlos não se esqueceu que ele também comia nas férias e deixava-lhe sempre a ração. Nessa altura, o que mais lhe custava era o silêncio. Uma pasmaceira! Vadiava mais. Ronceiro, dava umas voltas. Se encontrava gente da sua raça, dava-se ares de importância. A desconhecidos, não passava cartão. A velhos amigos, tratava-os com a condescendência de cão escolarizado. Não era um qualquer! Por alguma razão lhe chamavam Escola. Uma vez por outra, topava com alguma cadela no cio, que lhe recordava amores antigos e despertava desejos adormecidos. Não descia a fazer-lhe a corte, mas, se a dama não se fazia rogada, saltava-lhe para a garupa. Nunca negara fogo! Extravagâncias de férias! Que, em tempo de aulas, nem disso se lembrava e a Escola não era lugar para essas coisas! A idade também já não puxava para toleimas. Descanso, bom trato, vidinha tranquila… Que mais queria ele? Quase se desabituara de ladrar. Menos quando aparecia algum concorrente a rondar-lhe os domínios. Arrebitava as orelhas, aproximava-se do intruso, rosnando, arreganhando os dentes e corria com ele. Nunca fora cagarola e não estava disposto a dividir o feudo…

Quando as janelas das aulas estavam abertas, estendia-se nas proximidades. Gostava de ouvir as lições. Não que estivesse interessado em fazer exames ou tirar curso. Mas sempre se aprendia alguma coisa. Só não gostava do “franciú” e da língua de trapos em que estavam sempre a dizer “yes”. Falassem-lhe português. Não lhe viessem com estrangeirices. Não se tinha por burro e, se frequentasse as aulas, já andaria pelo oitavo ano. Em todo aquele tempo, tinha visto e ouvido muita coisa. Se abrisse a boca, tinha mais que contar que a Nau Catrineta. Mas prezava-se de ser um cão discreto. Sabia ouvir, calar e fechar os olhos quando era preciso. Nunca fora amigo de meter o bedelho na vida dos outros. Que se governassem, quando andavam por lá a esfregar-se e a lambuzar-se!

Um domingo, pelo meio da manhã, surpreendido, sentiu que alguma coisa diferente se passava. A Escola estava aberta, com gente estranha a circular pelos corredores. As pessoas dirigiam-se para as salas e entregavam uns papéis a uns homens que os enfiavam numas caixas com um buraco. De algumas palavras soltas que foi ouvindo, compreendeu: eleições! Desandou. Politiquices não eram com ele.

Gostava muito do Natal. Regalava-se com a música e com os petiscos que sobravam da ceia. Já do Carnaval não gostava nada. Estava um honesto cachorro a curtir uma boa soneca e vinham aqueles tipos com as bombas e os esguichos! Fossem lá esguichar a avó deles!

Tinha um medo dos automóveis que se pelava. Pudera! Já tinha levado as suas trombadas. Lá morrer atropelado é que ele não queria! Redobrava de cuidados. O seguro morreu de velho!

O toque estridente da campainha interrompeu-lhe a meditação. O Escola abriu os olhos, espreguiçou-se, pôs-se de pé, deu ao rabo, abanou as orelhas e resolveu dar um passeio. Pachorrento, desceu os degraus, atravessou o jardim e entrou na passadeira da estrada. De repente, tudo aconteceu: um automóvel, um estrondo e o Escola ficou estendido, a ganir, um fio de sangue a aflorar aos cantos da boca… Compreendeu que daquela não escapava. Estava arrombado por dentro! Era o fim! Mas não queria morrer na rua! Num esforço supremo, arrastou-se até ao recreio e lá ficou, estendido, a remoer as últimas cogitações. Sonhara com uma morte tranquila. Serenamente. A dormir. Tão cauteloso e, afinal, acabava por morrer atropelado! E ali estava, rilhado de dores, a aguardar a morte. Viesse ela, quanto mais depressa melhor! Ao menos, morria em casa! Só tinha pena de não se despedir do Carlos!

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