Crónica do Olheirão por Mário Pereira
Fazer uma pausa para pensar
O corona virus (covid 19) começa a ter efeitos muito significativos sobre o nosso modo de vida. Uma das consequências já visível é a desaceleração do ritmo de vida que costumávamos ter.
Se esta crise durar muito tempo, só a redução drástica das viagens de turismo ou de negócios, fará o PIB e as bolsas caírem a pique e, ainda, pior será a subida do desemprego.
É inacreditável o número de viagens de avião que já foram canceladas. Todas eram muito importantes para quem ia viajar. Contudo face à possibilidade de apanhar uma pneumonia ir a Paris, ou a Milão deixa de ser urgente.
Fazer o quisermos e em segurança tornou-se para nós um dado adquirido, até ao momento em que, nos confins da China, um vírus acorda e começa a atacar pessoas por todo o lado.
Algumas pessoas mais jovens perguntam como é possível que neste tempo em que há tantos medicamentos não se consiga controlar um vírus minúsculo. Por isso importa recordar que muitas pessoas ainda vivas nasceram num tempo em que doenças como o tifo, a varíola, a pneumónica ou a tuberculose faziam enormes razias, sem que houvesse qualquer proteção contra elas.
Este sentimento de que não termos controlo sobre um vírus, que não vemos nem sabemos onde está ou de onde pode vir, é sem dúvida um dos elementos que ajuda a espalhar o pânico.
O covid-19 também veio lembrar-nos de como a Terra se tornou uma pequena aldeia. Dá-se o caso curioso de, ligando a televisão ou computador, ficarmos a saber quantas pessoas morreram na China, na Coreia ou no Irão e de, ao mesmo tempo, não sabermos que na nossa aldeia morreu e foi enterrada um pessoa que conhecíamos e cujo funeral teríamos gostado de ter acompanhado.
As tecnologias e as comunicações globais conseguem ligar-nos ao mundo todo, mas é preocupante pensar que embora ligados a todo o mundo estamos a ficar desligados do mundo constituído pelas pessoas com quem convivemos e pelo espaço em que habitamos.
O vírus veio também mostrar até que ponto estamos todos interligados. Aceitar esta interdependência seria um bom começo para os povos e os países se respeitarem uns dos outros.
Uma particularidade interessante deste vírus foi ter começado por se espalhar pelos países ricos e entre as classes altas, que são quem viaja mais.
Estávamos habituados a ver estas doenças nos bairros de lata e nos países pobres, por isso é regenerador ver os passageiros dos cruzeiros de luxo serem contaminados e terem de ficar fechados no seu paquete de luxo, o que não será muito agradável.
Resta esperar que as pessoas, ricas ou bem remediadas, percebam que o dinheiro, não lhes permite escapar a um vírus e que continuam frágeis e a precisar dos outros para viverem.
Também estou a imaginar o desgosto de alguns governos, que tanto se têm esforçado por fechar as suas fronteiras a seres humanos indesejáveis, ao verem um vírus a passar todos os muros e todos os controlos de segurança nos aeroportos.
A procura do lucro levou as empresas globais a optarem por produzir alguns componentes apenas no Vietname ou na Indonésia, por ser mais barato, o que obriga a cadeias logísticas complexas e muito expostas a crises, em vez de optarem por soluções um pouco mais caras mas mais próximas e por isso mais seguras em épocas de crise.
Importa que as coisas não sejam pensadas apenas para quando tudo funciona bem. É preciso organizar a sociedade e a economia tendo em conta que as coisas podem vir a correr mal.
Não acredito que a solução esteja no nacionalismo e no fechamento de cada país sobre si mesmo, espero bem que não se caminhe para uma economia fechada e de subsistência tipo a Correia do Norte.
Contudo, é óbvia a necessidade de se equilibrarem os vários níveis de atividade económica: um local, que permita às comunidades terem algum a autonomia, o nível nacional, o europeu e por fim o nível global.
Acredito que é chegado o tempo de serem criados mecanismos políticos e fiscais diferenciados a aplicar aos agentes que atuam em a cada um destes níveis, para evitar que os interesses dos agentes globais se sobreponham aos outros e nos arrastem para um crise grave.
Comentários recentes