Manuel Silva

LÊ-SE E NÃO SE ACREDITA

Na última eleição do líder do PSD e no último congresso do mesmo partido, os seus militantes escolheram Rui Rio e a sua equipa porque afirmaram não serem de direita, mas sociais-democratas, em tudo que a social-democracia portuguesa tem de específico, e situarem-se ao centro. Aliás, o lema de campanha de Rio era “Portugal ao centro”.

Passados quase dois meses, o que se lê sobre as posições e atitudes políticas de alguns responsáveis sociais-democratas começa a ser contraditório com aquelas ideias.

Recentemente, Rui Rio voltou a dizer que o PSD é um partido de centro e não de direita, mas que pretende liderar a oposição à direita do PS. O que significa isto? A oposição à direita dos socialistas inclui o CDS, cada vez mais à direita, o Chega, ultra-reaccionário, contra todos os valores civilizacionais posteriores à Revolução Francesa, dizendo André Ventura que “está-se nas tintas para a Constituição” e quer acabar com este regime (a democracia liberal), bem como a Iniciativa Liberal, defensora do liberalismo e do capitalismo selvagens.

É com esta gente que Rio pretende construir uma alternativa ao PS?

No congresso do PSD, o seu vice-presidente Nuno Morais Sarmento afirmou rejeitar o bloco central e preferir a reconstituição da AD com o CDS, a I.L. e o Chega que disse ser “de direita democrática”. Assim sendo, os fascistas e os nazis foram democratas, segundo a concepção de Sarmento.

A defesa de nova AD, nas actuais circunstâncias, é absurda e ridícula. A velha AD era constituída pelo PSD, o CDS, o PPM e o Movimento Reformador, socialista moderado. O CDS de Freitas do Amaral era um partido conservador, democrata-cristão e pró-europeu, defensor do humanismo cristão e dos direitos humanos, tal como o PSD de Sá Carneiro.

Os partidos à direita do PSD são neo-liberais, reaccionários, tendo o Chega defendido a castração química, a pena de prisão perpétua para traficantes de droga, homicidas ou pedófilos, o que não acontece em nenhuma sociedade democrática e civilizada. O que virá a seguir? A pena de morte, que foi pela primeira vez extinta em Portugal no século XIX?

Que Nuno Morais Sarmento defenda estas posições políticas não surpreende quem o conheceu na JSD, como eu. Na altura, era o chefe dos direitistas na Jota. Recordo-me de um militante, num congresso realizado em Tróia, em Outubro de 1988, o comparar a Reagan, então no poder, desmascarando o modelo anti-social americano. Morais Sarmento encabeçava a oposição à direcção da JSD, onde pontificavam Carlos Coelho (presidente). Passos Coelho (vice-presidente e posteriormente líder), Miguel Macedo, Miguel Relvas (secretário-geral), todos da ala esquerda do partido. Veja-se no que o poder político e governativo transformou muitos deles…

Cereja em cima do bolo: acabaram de decorrer os Estados Gerais da direita, onde esteve o Presidente do Congresso e do Conselho Nacional do PSD, Paulo Mota Pinto, ao lado de Paulo Portas, André Ventura, o reaccionário das Avenidas Novas, Jaime Nogueira Pinto, de extrema-direita, que, nos anos 60 e 70 do século XX, foi dirigente de movimentos fascistas, inspirados em Mussolini e em intelectuais como Robert de Brasillach, Ferdinand Céline ou Ezra Pound, um dos maiores poetas americanos dos EUA e do mundo de sempre, todos brilhantes homens da cultura, Proença de Carvalho, Francisco  Rodrigues dos Santos, o ministro de Passos Coelho, Poiares Maduro, etc.

A abertura dos Estados Gerais foi efectuada pelo líder mais à direita que o CDS já teve, conhecido por “Chicão”.

A continuar por este caminho, o PSD não constituirá qualquer alternativa ao PS e os verdadeiros sociais-democratas terão que procurar outro lugar para defenderem os seus ideais.

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