Francisco Almeida Dias

Rubrica Portugal é mátria

Placa na Via di Ripetta em Rona

Muitas vezes foi a liberdade representada pelos artistas com a figura de uma mulher. Quem não recorda esse perfil austero, contrastando com formas nuas e generosas, do célebre quadro de Delacroix do Museu do Louvre? Há uma relação que se estabelece, nítida e imediata, por ser este um substantivo feminino e também por nele se reunirem as ideias de sensualidade e com a maternidade – o facto dela ter seduzido e continuar a seduzir os idealistas, por ser a mãe de todas as virtudes, apesar de se lhe imputarem também quase todos os vícios… Esta liberdade, mil vezes cantada pelos poetas e pela qual se atuaram grandes gestos de amor e de heroísmo, de loucura e de morte, teve, nos finais do século XVIII, em Itália, o nome de uma mulher portuguesa: Leonor Fonseca Pimentel (1752-1799).

Leonor – Il Resto di Niente

No cinema, em 2004, a sua figura foi magistralmente interpretada pela atriz Maria de Medeiros, nomeada para o prémio italiano “David di Donatello” e vencedora do prémio Flaiano. Em Il resto di niente – filme realizado por Antonietta De Lillo, baseado no romance homónimo de Enzo Striano (Ed. Rizzoli, Milão, 1986) e apresentado na 61ª Mostra internazionale d’arte cinematografica di Venezia – uma portuguesa encarnava outra portuguesa. Notável, e talvez exata, historicamente falando, a aparente fragilidade da imagem em contraste com a imensa força do caráter e com a veemência da palavra. Mas a heroína lusitana, nascida em Roma e protagonista da aventura liberal napolitana, inspirou também várias peças teatrais e será ela mesma escolhida para personificar essa inefável Liberdade, nos quadros dos artistas Giuseppe Boschetto (“La Pimentel condotta al patibolo”, 1868) Domenico Battaglia (“Perquisizione in casa di Eleonora Pimentel Fonseca”, 1846/1904) e no belíssimo relevo de Tito Angelini (“Esecuzione di Eleonora Pimentel e Gennaro Sera di Cassano”, c. 1860) no Museu de San Martino, em Nápoles.

Pintura de Giuseppe Boschetto (1869)

Aquela que quase todos os italianos poderão identificar, pelo menos no nome (italianizado) e nos mais gerais traços biográficos, e que nenhum napolitano deixará de elevar ao panteão dos seus mártires pela liberdade, é, afinal, pouco conhecida pelos portugueses. Talvez porque a sua vida se desenrolou, do início ao fim, longe do território e dos acontecimentos públicos portugueses, e talvez também porque a língua que fez desabrochar em forma poética – e que também esgrimiu como florete certeiro – não foi a de Camões, mas a de Dante Alighieri. Ponte privilegiada entre os dois países e as duas culturas, evocamos aqui uma, entre tantas, as que hoje chamaríamos de “lusodescendentes”, nascida numa das ruas do tridente romano, a via di Ripetta, a dois passos da grandiosa Piazza del Popolo, as portas da cidade papal, em cuja basílica repousa um outro português ilustríssimo: o cardeal de Alpedrinha, D. Jorge da Costa (1406-1508).

Depois da Revolução francesa e da primeira invasão de Itália pelas tropas napoleónicas da République, contra as potências monárquicas conservadoras do Reino da Sardenha, do Sacro Império Romano-Germânico e do Estado Pontifício (1796-1797), foi proclamada em Nápoles, em 1799, a chamada “Repubblica Partenopea”. A política dos então Reis das Duas Sicílias, Fernando IV e Maria Carolina (irmã da decapitada Maria Antonieta de França e filha da imperatriz austríaca Maria Teresa), aderira havia pouco à Primeira Coligação anti-francesa e começara a reprimir internamente todos os suspeitos de simpatias jacobinas, entre as quais se viria a contar Leonor, que, curiosamente, anos antes – com apenas 16 anos, por ocasião do casamento real, a 7 de abril de 1768 – escrevera o epitalâmio (cântico nupcial de origem clássica, visando a bênção dos deuses) “Tempio della gloria”, o que lhe merecera a nomeação e a tença como bibliotecária da rainha.

Leonor Fonseca Pimentel (1752-1799)

Nascida no seio de uma família de embaixadores portugueses junto da Santa Sé, originários de Beja, obrigada a refugiar-se em Nápoles por ocasião da rutura de relações diplomáticas ao tempo do Marquês de Pombal, a menina cedo foi notada pelas suas capacidades intelectuais extraordinárias. Com um tio eclesiástico, de pequena iniciou o estudo das letras clássicas, Grego e Latim, e demonstrou inclinação para a composição poética. Foi por isso admitida nas prestigiosas Academias dei Filaleti e dell’Arcadia, começando a corresponder-se com os maiores intelectuais da época, como Pietro Metastasio (1698-1782), considerado o reformador da ópera lírica italiana, com 26 melodramas escritos em 50 anos de atividade teatral, e como o filósofo iluminista e enciclopedista francês Voltaire (1694-1778). Para além da Literatura, dedicou-se ao estudo da História, do Direito e da Economia, escrevendo e traduzindo sobre esses temas e sendo, por isso, admitida ao convívio de vários expoentes políticos.

Casa aos 26 anos com o Tenente Pasquale Tria de Solis, dezoito anos mais velho; o único filho desse casamento infeliz, em que Leonor será vítima de maus tratos, morrerá com oito meses. É por essa época que a sua anterior simpatia institucional – que a levara a escrever “Il Trionfo della Virtù” (1777), em que elogiava o rei, braço da Providência – se irá transformando, à medida que frequenta os salões maçónicos de Marianna Faraja di San Marzano e Giulia Carafa di Traetto di Minervino. A primeira “declaração pública” da sua simpatia francófila e republicana data de dezembro de 1792, quando faz parte da comissão que acolhe o Almirante Latouche Treville, no reconhecimento da Première République française.

Logo em 1794 o seu nome consta da lista dos acusados de revolta jacobina e três anos depois é oficializado o fim das suas relações com a família reinante, quando lhe é revogada a tença que recebia. Será presa em 1798 e, ao abrigo de um armistício, conseguirá viver de novo em liberdade no ano imediato, mas por pouco tempo – o seu destino cumprir-se-ia agora com grande rapidez.

A 22 de janeiro de 1799 faz parte do grupo que declara a República Partenopea de cujo órgão oficial, o Monitore Napoletano, será a diretora. Consciente da sua responsabilidade intelectual, não temerá confrontar-se com os franceses, cuja entrada em Nápoles tinha favorecido, nem mesmo com o fenómeno que apreensivamente via emergir, a que hoje chamaríamos um populismo – «La plebe diffida dei patrioti perché non gl’intende» (o povo não confia nos patriotas, porque não os entende) – contra o que lutava com as suas armas: sessões de esclarecimento avant la lettre numa “Sala d’Istruzione Pubblica”.

Assim, quando em junho de 1799 a velha monarquia absolutista foi restaurada, Leonor encontrava-se, naturalmente, entre os primeiros objetos da cólera da Casa de Bourbon. Condenada à morte, assistiu, uma por uma, à execução dos seus correligionários e subiu ela mesma ao patíbulo, sendo-lhe reservado o enforcamento, derradeira humilhação por ser uma pena menos “nobre” do que a que lhe seria destinada pela sua condição social – a decapitação. Consta que as suas últimas palavras foram uma citação do épico romano Virgílio, aquelas postas na boca de Eneias para dar coragem aos companheiros nas adversidades e nos perigos: «Forsan et haec olim meminisse iuvabit» (talvez um dia venhamos a recordar com gosto até estes momentos).

Quando a política europeia quis começar a falar de liberdade, houve uma mulher, portuguesa de Nápoles, que lhe ofereceu a vida, o rosto e o nome. Chamava-se Leonor Fonseca Pimentel e morreu há pouco mais de 220 anos, a 20 de agosto de 1799.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *